Petróleo “contamina” preços industriais, afeta cadeia e pode pausar Selic em junho

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A escalada da cotação do petróleo já está contaminando de forma generalizada os preços no atacado do país, encarecendo os custos da indústria e da logística, e se disseminando por diversas cadeias produtivas. Em abril, o indicador que mede a inflação desde o produtor até o consumidor final chegou ao maior percentual registrado desde 2021. A alta de 2,41% no Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) ficou acima do registrado no mesmo mês do ano passado (0,30%) e superior também ao observado em março (1,14%).Este avanço já pode ser visto em todas as frentes do indicador. Isso mostra como a inflação está pressionada em diversos setores do país, devendo levar à pausa no ciclo de queda da Selic, segundo análise de André Braz, economista e coordenador dos índices de preços do FGV Ibre, que divulga o IGP.Disseminação de custos elevadosO cálculo do IGP-DI de abril considerou os preços coletados entre os dias 1º e 30 daquele mês com os dados apurados no mês de março. Entre os três componentes do índice geral, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) saltou de 1,38% em março para 3,09% em abril. Já o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) passou de 0,67% para 0,88%, enquanto o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) acelerou de 0,54% para 1,00% no mesmo período.Dentro do atacado medido pelo IPA, as Matérias-Primas Brutas saltaram 4,57% em abril (ante 2,11% no mês anterior) e os Bens Intermediários subiram 3,27% (ante 0,69% em março). Entre as maiores pressões positivas no produtor, destacaram-se itens como sacos e sacolas de plástico para embalagem, que dispararam 30,75% no mês, além do leite in natura (8,84%) e de adubos e fertilizantes (6,42%).Na ponta do consumidor (IPC), a gasolina exerceu forte influência positiva ao subir 3,84%, acompanhada pelo leite longa vida (15,68%). Já na construção civil (INCC), o avanço foi liderado por elevações expressivas nos custos de materiais como tubos e conexões de PVC (4,82%), massa de concreto (4,09%) e cimento Portland comum (3,73%).Diagnóstico precoce da inflação oficialA alta do IGP funciona como um diagnóstico precoce de tensões nas cadeias produtivas e de futuras pressões inflacionárias. De acordo com Braz, o índice revela como a alta do petróleo, que é matéria-prima para diversos setores, encarece toda a linha de produção do país.O impacto vai além dos combustíveis, atingindo resinas plásticas utilizadas em embalagens (como garrafas PET e potes de iogurte), defensivos agrícolas, fertilizantes, a construção civil e até a indústria de vestuário, encarecida pelo custo do poliéster.“Como o petróleo é matéria-prima para vários segmentos, não poupa nem o vestuário, que tem o poliéster como derivado, influenciando muito de perto”, afirma.Além disso, o encarecimento do diesel e dos fertilizantes também pressiona o grupo de alimentação in natura no varejo, uma vez que eleva o custo de produção no campo (movido a máquinas pesadas) e o frete rodoviário responsável pelo escoamento da safra.O número pode ser visto como uma prévia do que está por vir no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país. Estoque do varejo ameniza repasse, mas ele viráMas a transmissão desse aumento de custos não é imediata. “Como o IGP mede os preços no nível do produtor, ele sinaliza que, à medida que os estoques do varejo forem renovados, esses custos elevados chegarão ao consumidor final em doses homeopáticas”, avalia Braz.Isso porque o diagnóstico do IGP é mais ágil do que o de outros índices porque reage mais rápido e de forma mais aguda a mudanças econômicas por ser fortemente influenciado pelos insumos industriais, explica Braz. Isso mostra que a pressão atual é de oferta (custos) e não necessariamente de demanda.Meta em risco e teto de 5,7% para o IPCAOs desdobramentos do cenário externo nas cadeias produtivas alteraram as projeções para a inflação oficial deste ano. Antes do conflito, a expectativa do mercado era de que o IPCA encerrasse o ano entre 3,5% e 3,8%, ou seja, próximo ao centro da meta, que é de 3%. Com a pressão atual exercida pelo petróleo, Braz estima que o indicador encerre o ano em um intervalo de 4,7% a 5,7%, com alta probabilidade de estourar o teto da meta estipulada para o Banco Central, que é de 4,5%.O coordenador da FGV projeta que o IPCA apresente maior persistência nos próximos meses. Enquanto no ano anterior as taxas mensais entre abril e junho orbitaram na faixa de 0,25% (chegando a -0,11% em junho), os meses de maio e junho deste ano devem registrar variações mais elevadas, entre 0,40% e 0,45%. Os efeitos mais nítidos da contaminação do petróleo sobre o varejo devem ser observados ao longo dos próximos três meses.Leia também: Gasolina alivia IPCA, mas inflação acumulada pressiona teto com alimentos e serviçosEl Niño como pressão extra nos preçosPara piorar o horizonte, o cenário doméstico lida com a confirmação da chegada de um fenômeno climático de forte intensidade. “A meteorologia anunciou o El Niño, e não é fraco nem moderado”, alerta Braz. A alteração no volume e na distribuição das chuvas deve comprometer severamente a produção agrícola e a geração de energia no país, o que explica a margem superior de 5,7% em suas projeções.Choque de oferta trava cortes na taxa SelicO espalhamento das pressões inflacionárias e a escalada do petróleo — com barril cotado a mais de US$ 100 — reduzem o espaço para que o Banco Central mantenha o ciclo de cortes na taxa básica de juros, avalia Braz.Para o economista, a autoridade monetária deve pausar as reduções já em sua próxima reunião, em 16 e 17 de junho, mantendo a Selic no atual patamar de 14,5% ao ano para preservar a ancoragem das expectativas e a atratividade do país para o capital estrangeiro. Saiba mais: Copom vê inflação da guerra invadindo 2028, diminuindo margem para cortar juroO ingresso de dólares de investidores buscando rentabilidade segura é fundamental para manter o real valorizado e, assim, segurar parte da inflação importada.Braz explica que cortes agressivos nos juros agora criariam um problema de credibilidade, além de ter uma eficácia limitada diante do cenário atual. Isso porque a Selic atua sobre a inflação de demanda, encarecendo o crédito e desestimulando o consumo presente, mas é efetiva contra crises de custos.“Um choque de oferta não tem o que fazer. Como é que a Selic vai atuar junto ao preço do barril do petróleo ou aos efeitos de um fenômeno climático que destrói uma safra?”, questiona Braz. “Não tem como dizer que não sobe o alimento porque o juro está alto. Vai subir porque falta oferta. O juro é um remédio importante, mas nem todo remédio cura qualquer tipo de doença, e ele traz efeitos colaterais para o desenvolvimento da indústria”.The post Petróleo “contamina” preços industriais, afeta cadeia e pode pausar Selic em junho appeared first on InfoMoney.