Resgatando rock antigo com Undo, André Frateschi garante: ‘Não devemos nada para bandas mais jovens’

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Prazer em começar e recomeçar. É assim que se sente o ator e cantor André Frateschi, no auge dos seus 51 anos de idade. Não à toa que, após uma década interpretando canções da Legião Urbana ao lado de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, o artista embarcou em uma nova jornada: a do lançamento da banda Undo, que se apresenta nesta sexta-feira (15) em São Paulo, na Casa Rockambole.Além de Frateschi, o quinteto também conta com os guitarristas Rafael Mimi e Johnny Monster, o baterista Rafael Garga e o baixista e produtor Dudinha Lima – uma reunião de músicos experientes com uma sonoridade típica do rock dos anos 1980. Assim pode ser definido o disco de estreia, homônimo, que veio ao mundo ainda em outubro do ano passado.Com 10 faixas, o trabalho inclui participações de nomes marcantes da música brasileira: Dado Villa-Lobos aparece em Kill Billy, enquanto Leoni surge em Aprender a Perder.O álbum também conta com os singles Porcos Não Olham Pro Céu e Melodrama, mesclando elementos do post-punk com o new wave. Para Frateschi, em entrevista exclusiva à Jovem Pan, as referências são claras – e a experiência tem forçado o cantor a sair do lugar comum.“Diferente da Legião, isso me coloca em um outro lugar, que é o de compositor. A sensação de dizer o que você está precisando é muito boa, quase terapêutica”, conta.Nascido em São Paulo, André Frateschi não é um iniciante no mundo da música. O artista esteve envolvido com o rock desde a adolescência, principalmente com referências a David Bowie, e lançou um disco solo em 2014.Agora, em um momento diferente da vida, a tarefa de liderar uma banda se apresenta como um desafio e uma paixão. Já distante da adolescência – pelo menos no calendário – ele reconhece um certo deslocamento etário dentro do cenário do rock, mas sem representar empecilhos para o trabalho.“Nesta altura da vida, começar uma banda não é a coisa mais recomendada a se fazer”, ironiza. “Ao mesmo tempo, parece que estou fazendo como quando eu tinha 20 anos. É a mesma paixão que me move e que move os meninos que estão comigo. A vantagem é que todo mundo chega com bagagem e não precisa mais provar nada para ninguém, então a relação é prazerosa”.Frateschi também demonstra realismo sobre as expectativas de um grande sucesso comercial e enxerga a estabilidade pessoal e financeira do grupo como componentes positivos. Para ele, sem a responsabilidade da “sobrevivência”, a Undo está “mais livre para tentar voos mais ousados e fazer experimentações estéticas que estão de acordo” com a ambição do quinteto.Isso, porém, não exclui o romantismo de estar no meio da música e a idealização de ser comparado a ídolos como Renato Russo e David Bowie. “Aos 50 anos, começar uma banda é um ato de amor e fé que, na minha opinião, é o que importa da vida. São as relações e essa coisa de não parar, porque a tendência natural é você ir se acomodando nos lugares que conquistou. Conhecer novos territórios à essa altura é o que faz você ficar vivo. É a vantagem de ser artista”.O mundo dá volta…A humanidade atravessava um momento peculiar na história quando David Bowie lançou seu primeiro álbum de estúdio, em 1967. O período representava o auge da Guerra Fria, pouco após o fim da 2ª Guerra Mundial, e inspirou toda uma geração que cresceu diante da ameaça existencial de um conflito nuclear.Na fria e cinzenta Manchester, no norte da Inglaterra, no final da década de 1970, era o som do Joy Division que começava a imperar nos circuitos alternativos. Dali para frente, uma porção de bandas com som e estética post-punk começaram a ganhar o mundo, inclusive chegando ao Brasil, a ponto de inspirar a criação de grupos nacionais.O intervalo de 12 anos entre o trabalho de estreia de Bowie e o Unknown Pleasures também foi marcado por muita agitação dentro e fora do Reino Unido. O escândalo do Watergate derrubou o governo de Richard Nixon nos Estados Unidos, a Apollo 17 levou o homem à Lua pela última vez e o massacre de Munique durante as Olimpíadas foi transmitido em tempo real para todo o planeta.Avance cinco décadas e chegue aos anos 2020. As situações podem até ter mudado, mas as preocupações seguem muito similares – por mais que, ao final da década de 90, houvesse alguma expectativa de melhora no mundo. Neste cenário, o rock pode renascer e retomar o espaço de antigamente, ao menos na visão de Frateschi.“O mundo vive de novo uma incerteza desgraçada. Agora, temos muitas outras possibilidades além da guerra nuclear. Tem a questão climática, o fascismo… existem muitas coisas acontecendo que acredito que façam com que o rock seja uma expressão necessária novamente.”“O momento em que estamos vivendo inclui bandas clássicas de rock lançando discos relevantes depois de muito tempo”, diz. É o caso de Songs of a Lost World, do The Cure, de 2024. “Nesse sentido, a Undo se coloca muito bem nesse lugar”.Apesar das repetições, os problemas do mundo de hoje em dia não são motivo de cansaço para o vocalista do grupo. “É um pavor, uma sombra que faz com o que a gente fique em busca do sol. Você precisa fazer alguma coisa para não morrer quieto e é isso que estamos tentando”.Para não morrer quieto, a Undo também precisará conquistar espaços. E isso passa necessariamente por um desbravamento do público jovem. Entre as tentativas, está a abertura de dois shows da Fresno: um no Rio de Janeiro e o último, ainda em abril, em São Paulo, na apresentação que marcou o lançamento do novo disco do trio emo gaúcho.O foco principal, porém, segue na produção de música de alta qualidade. Em tempos de identificação exacerbada – onde, por vezes, a questão de rótulos se sobressai aos critérios técnicos – Frateschi aponta a necessidade de filtros apurados do público e garante que a arte “chega” ao público sempre que a banda sobe aos palcos.“A gente paga o preço de não ser jovem. Somos cinco homens brancos, cis, héteros, do centro de São Paulo… é tudo errado”, brinca. “O que nós oferecemos como música, experiência e energia, nós não devemos nada para bandas mais jovens. É absolutamente imperioso que a gente reconheça políticas identitárias, elas são totalmente necessárias. Ao mesmo tempo, tentamos achar um meio termo, para que elas meçam o valor artístico das coisas. Quero que a banda chegue para muitas pessoas, é a mesma vontade que tenho desde pequeno”.Quem estiver no show da Undo nesta sexta-feira deve se deparar com uma apresentação de cerca de uma hora e meia, passando por todo o repertório da banda, além de lados B da Legião Urbana. A noite também conta com a abertura da Autoramas, nome histórico do indie nacional, e os ingressos estão à venda pela internet a partir de R$ 50.