Método mais avançado para o tratamento do câncer de próstata, a cirurgia robótica agora tem cobertura obrigatória nos planos de saúde em todo o Brasil. Até então, o procedimento era restrito ao atendimento particular e a expectativa é que a mudança amplie o acesso à tecnologia.Em vigor desde o dia 1º de abril, a incorporação da prostatectomia radical assistida por robô ao Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde é fruto de recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). A decisão foi publicada em outubro do ano passado.A entidade já havia recomendado a incorporação do tratamento ao Sistema Único de Saúde, possibilitando o uso da técnica em hospitais públicos. No entanto, a oferta depende da disponibilidade de infraestrutura robótica nas unidades da rede, limitando-se a pesquisas, no momento.Para entender melhor como funciona essa tecnologia, o TecMundo conversou com o doutor Bruno Benigno, urologista de referência nos Centros de Urologia e Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP). Ele já realizou mais de 1,5 mil cirurgias robóticas.O que é e como funciona a cirurgia robótica?Realizada com o auxílio de equipamento robótico, a prostatectomia radical para câncer de próstata oferece movimentos precisos e delicados para a retirada do órgão glandular do sistema reprodutor masculino. Além disso, apresenta visão tridimensional ampliada, graças ao seu sistema de câmeras.Indicado para praticamente quaisquer condições, incluindo múltiplas comorbidades, risco cardiovascular alto, obesidade extrema e diabetes descompensada, segundo o especialista, o tratamento permite preservar as estruturas ao redor da área afetada. Dessa forma, reduz-se os efeitos colaterais.Console robótico utilizado na cirurgia do câncer de próstata. (Imagem: Hospital Alemão Osvaldo Cruz/Divulgação)Essa opção começou a ser oferecida no ano 2000, no exterior, chegando ao Brasil em 2008, quando o primeiro procedimento foi realizado no Hospital Sírio-Libanês. Atualmente, existem cerca de 12 mil consoles de cirurgia robótica instalados globalmente, dos quais apenas 157 no mercado nacional, de acordo com Benigno.“Hoje, temos uma massa de cirurgiões já treinados, mas ainda aquém da necessidade. Agora, o mercado aumentou (com a aprovação para os planos de saúde) e daqui a alguns anos teremos outro problema ao ampliar o acesso: vamos precisar também acelerar o treinamento”, ressaltou.Robô “Da Vinci”O procedimento é realizado com o Da Vinci, sistema cirúrgico robótico fabricado pela Intuitive Surgical, sediada nos Estados Unidos. O console está atualmente na quinta geração, que adiciona uma série de avanços, mas por enquanto essa versão não chegou ao Brasil.Como destaca o urologista, o robô não realiza a cirurgia sozinho. O procedimento exige um cirurgião habilitado, capaz de controlar e movimentar os braços do equipamento, e a equipe envolvida pode incluir várias pessoas, dependendo do nível de especialização do profissional principal.Iniciando o treinamento para operar a máquina em 2013, Bruno trabalha atualmente com a geração anterior do Da Vinci. Ele estima que há 500 cirurgiões habilitados para usar a técnica no Brasil, sendo 350 qualificados para operar sem supervisão.O robô Da Vinci é fabricado nos EUA. (Imagem: Hospital Alemão Osvaldo Cruz/Divulgação)"É uma equipe mínima de dois cirurgiões certificados, uma instrumentadora e um anestesista. E tem a equipe de apoio de sala, que inclui uma enfermeira e um circulante que ajuda com os materiais", diz Benigno, explicando sobre a quantidade de envolvidos no processo.Além do sistema americano, o mercado ganhou uma nova alternativa de console robótico, fabricado pela chinesa Edge Medical. Denominada Toumai, a plataforma concorrente do Da Vinci possui quatro braços e o feedback háptico entre os diferenciais.A novidade também é preparada para cirurgias à distância, via 5G e conectividade por satélite. Outro destaque é o custo operacional menor em relação ao sistema americano.Diferenciais e benefíciosNa cirurgia convencional da próstata, é feita uma incisão de 9 cm a 10 cm no abdômen, abaixo do umbigo, o que pode resultar em um grande trauma para o paciente. Já o método moderno possui várias diferenças.Feita por vídeo, a prostatectomia radical robótica utiliza pequenas incisões para a entrada da câmera e dos braços robóticos, "do diâmetro de uma caneta Bic", segundo o cirurgião. Assim, preserva-se a musculatura, com um trauma muito menor.Os benefícios da tecnologia são:Tempo de internação reduzido;Recuperação mais rápida, permitindo retornar às atividades em menor tempo;Menos sangramento e dor no pós-operatório;Uso reduzido de analgésicos;Redução de riscos de incontinência urinária e disfunção erétil;Baixa taxa de reinternação;Possibilidade de transferência de aprendizado de um cirurgião para o outro.Tanto pacientes quanto médicos podem ter acesso a benefícios com a utilização do robô cirúrgico. (Imagem: Hospital Alemão Osvaldo Cruz/Divulgação)Apesar das vantagens, Benigno aponta que a cirurgia robótica não aumenta a chance de cura do câncer de próstata. Isso era algo que se pensava quando o procedimento estreou, mas até agora não se confirmou."Acreditava-se que o robô ia aumentar a chance de cura, mas isso não se provou. Os dois tipos de cirurgia (convencional e robótica) têm a mesma possibilidade. O que interfere na chance de cura é descobrir a doença no início", apontou.Ainda de acordo com ele, a falta de demonstração da superioridade do robô em relação à cura atrasou a incorporação na rede pública e operadoras de saúde. Mas o cenário vem mudando com as vantagens do mecanismo.Avanços promovidos pela IADa mesma forma que em outros setores, a inteligência artificial está presente nos consoles utilizados pelos cirurgiões. Ela aparece, principalmente, na última geração do dispositivo da Intuitive, contribuindo para aprimorar etapas do procedimento.A nova versão usa algoritmo capaz de "limpar" a imagem gravada, removendo os efeitos gerados pela fumaça após a ativação do bisturi eletrônico na cavidade. O recurso reduz o uso do aspirador pelo auxiliar, processo que leva à queda de pressão durante a cirurgia.O Da Vinci mais recente também adiciona uma plataforma de realidade aumentada, projetando exames e a anatomia do paciente em tempo real. Segundo Bruno, essa funcionalidade alimentada por IA possibilita avaliar movimentos que podem afetar a taxa de incontinência urinária.Além disso, os dados extraídos proporcionam o monitoramento proativo. A tecnologia consegue identificar mudanças na forma do órgão, ajudando a entender o que acontece ao longo do procedimento.A equipe que participa da cirurgia pode incluir vários profissionais. (Imagem: Hospital Alemão Osvaldo Cruz/Divulgação)As cirurgias se tornarão totalmente automatizadas?Conforme o uro-oncologista, ainda há poucos sinais de automação e isso deve durar por mais algum tempo. Embora defenda os avanços, ele acredita que a IA não vai tomar o lugar do especialista."Imagine um cirurgião tecnicamente mal formado. O robô não vai fazer dele um exímio cirurgião. Não é assim que funciona", opinou, destacando que o profissional continuará necessário mesmo com todos os aprimoramentos.Para Benigno, a maior novidade é o gêmeo digital, réplica virtual do paciente gerada pela tecnologia a partir dos dados coletados na prostatectomia radical. O conceito permite monitorar, analisar e simular cenários, prevendo falhas."Um paciente que tenha tumor no rim esquerdo, por exemplo, faz uma tomografia de altíssima resolução e essa imagem é reconstruída em 3D. Na sequência, a IA faz a animação do conteúdo, adiciona à máquina e simula ‘1 milhão de vezes’ a cirurgia", explicou.De acordo com o médico, esse é um dos maiores avanços esperados para os próximos anos. A tecnologia permitiria testar diferentes situações no ambiente simulado antes de começar a remoção da próstata.O mecanismo funcionaria como um "copiloto de IA" para o cirurgião, auxiliando na preparação e na tomada de decisão. Os benefícios deverão ser aproveitados principalmente pelos iniciantes na área.Ampliação do acessoEmbora a obrigatoriedade da cobertura pelos planos de saúde esteja em vigor, Bruno disse ao TecMundo que as condições anteriores prevalecem. Todas as cirurgias robóticas realizadas por ele em abril foram pagas pelos pacientes.Segundo o especialista, os convênios médicos não estão negando o serviço. Porém, a oferta acontece apenas em hospitais com os quais o plano de saúde possui parceria, o que se torna um problema para determinados usuários.Com isso, muitos clientes pagaram o procedimento e solicitaram o reembolso. Mas nos casos em que não há parceria, é possível que eles consigam o ressarcimento de apenas parte do valor."Em cenários nos quais o hospital não tenha parceria, vai reembolsar 'X' mil reais para o paciente, avisando que só consegue cobrir aquela parte", exemplificou.O câncer de próstata é uma doença envolvida em diversos tabus. (Imagem: ArLawKa AungTun/Getty Images)Uma possibilidade de mudança levantada pelo médico se dá com a ampliação da presença dos consoles robóticos chineses. Ele diz que a fabricante recém-chegada oferece melhores condições de negociação e preço, com recursos similares aos americanos.O robô Da Vinci custa em torno de US$ 3 milhões, o equivalente a R$ 15 milhões pela cotação atual, com a manutenção saindo por US$ 300 mil (R$ 1,5 milhão) anuais. Na versão fabricada na China, os valores são 50% menores, segundo o especialista.Uma cirurgia robótica de câncer de próstata custa entre R$ 19 mil e R$ 21 mil em São Paulo (SP). Esse valor se refere apenas à parte hospitalar, não considerando os honorários.Câncer com maior incidência entre os homens brasileirosDe acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de próstata é o tipo de tumor com maior incidência entre os homens brasileiros, descontando os casos de pele não melanoma. São cerca de 70 mil novos diagnósticos por ano, ou 30,5% do total.O principal fator de risco é o avanço da idade, com a maioria dos casos ocorrendo após os 60 anos. Mesmo com a tecnologia aprimorando o tratamento, são registradas cerca de 16 mil mortes anuais.Cercada de tabus envolvendo o medo do exame de toque retal, o impacto na vida sexual e o mito da idade, a doença exige superar esses desafios e preconceitos para que o diagnóstico aconteça o quanto antes."Quanto mais cedo descobrir a doença, maiores são as chances de preservação da potência e da taxa de cura. O câncer de próstata é silencioso. Os sintomas demoram pelo menos 10 anos para serem notados", comentou Bruno, citando a importância do diagnóstico precoce.Gostou do conteúdo? Continue no TecMundo e conheça o robô chinês com útero artificial e capacidade de engravidar.