Um ano depois do início da Operação Sindoor, a Índia ainda não encerrou oficialmente a ofensiva e segue em níveis mais elevados de alerta na fronteira com o Paquistão, inclusive com mais contingentes militares na região. Na prática, o país sul-asiático também passou a usar a operação como uma vitrine militar e estratégica.Até hoje, a iniciativa é tida como um dos maiores orgulhos dos militares indianos e usada como propaganda pelas Forças Armadas do país. Leia mais Análise: Irã demonstra capacidade de articulação durante conflito Gustavo Roque: Brasil busca estratégia para minerais críticos Waack: Trump adota em Cuba mesma estratégia usada com Maduro O governo indiano do primeiro-ministro Narendra Modi deflagrou a Operação Sindoor em maio de 2025 como resposta a um ataque terrorista que culminou na morte de 26 civis, a maioria turistas, na Caxemira controlada pelo país, no mês anterior. A Índia acusou o Paquistão de envolvimento no ato, o que governo paquistanês nega.A Índia, de maioria hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana, controlam partes da Caxemira, mas a reivindicam integralmente e já travaram inúmeros conflitos pelo território.Os indianos afirmam ter destruído centros de lançamento e campos de treinamento de extremistas, atacado bases aéreas em território paquistanês, neutralizado infraestruturas de vigilância do Paquistão e destruído sistemas de mísseis terra-ar de origem chinesa.O Paquistão revidou e o momento de maior tensão militar entre os dois países durou cerca de quatro dias. A escalada causou preocupação à época pelo fato de ambos contarem com armas nucleares.Não há mais hostilidades constantes de forma intensiva. Mesmo assim, a Índia aproveitou a experiência da operação para transformá-la em testes de prontidão, ponto de apoio de integração operacional e estímulo para a modernização de suas Forças Armadas.Até hoje, a Índia promove exercícios e simulações militares em Pokhran, no deserto perto da fronteira com o país vizinho, como mostrou a CNN em fevereiro. São também, claro, demonstrações de força e tentativas de dissuasão para eventuais futuros ataques de inimigos – os indianos ainda enfrentam outros problemas de fronteira, inclusive com a China.Para militares indianos ouvidos pela reportagem, a Operação Sindoor consolidou um amadurecimento da doutrina estratégica militar da Índia e, especialmente, serviu para acelerar um projeto mais ambicioso: reduzir a dependência externa, reforçar a própria indústria de defesa e consolidar o país como potência militar regional.A meta é desenvolver tropas mais ágeis, interligadas e autossuficientes em tecnologia para enfrentar um cenário geopolítico visto como ameaçador por Nova Déli.A cidade de Bangalore, por exemplo, se tornou um dos principais polos tecnológicos de empresas com produtos utilizados pelas Forças Armadas e de parcerias público-privadas pensadas para servir as necessidades militares indianas.A ambição do governo do premiê Narendra Modi é tornar a Índia em um país desenvolvido até 2047, centenário de sua independência dos britânicos. Para isso, as Forças Armadas estabeleceram a década entre 2023 e 2032 como o período crítico de modernização tecnológica e estrutural.O Brasil mantém parcerias com as Forças Armadas indianas não apenas em exercícios conjuntos, mas também com cursos e imersões de militares de ambos os países.O Ministério da Defesa brasileiro acompanha essa projeção militar indiana e busca possibilidades de cooperações — empresas privadas nacionais também têm se aproveitado das oportunidades.Para militares brasileiros, há aspectos nos quais o Brasil pode se inspirar no exemplo indiano de modernização das Forças Armadas. Por exemplo, o reforço da indústria nacional de defesa, prontidão permanente de parcela das tropas e os exercícios militares como ferramenta de integração entre as forças.Ao mesmo tempo, lembram que o contexto brasileiro é bem diferente. O Brasil não enfrenta disputas territoriais nem vive sob ameaça militar permanente.Outro ponto é que o Ministério da Defesa e as Forças Armadas frequentemente esbarram em limitações orçamentárias para investimentos, gastos altos com pessoal e dificuldades para continuar com projetos estratégicos.A questão passa inclusive por visões político-ideológicas ao haver uma cobrança de parte do governo federal para que grande parte do orçamento da União seja dedicado a programas voltados ao desenvolvimento social do Brasil – e não a ações para uma possível guerra, como as movimentações dos militares muitas vezes são vistas.Há uma avaliação de que, diante das ações americanas na Venezuela e da imprevisibilidade do presidente Donald Trump, essa visão tem mudado aos poucos. O governo pretende enviar um dos mais novos navios da Marinha ao norte do país, por exemplo, para projetos sociais e também para patrulha da costa próxima à margem equatorial – com perspectiva de grande reserva de petróleo a ser explorada e comercializada.Além disso, há um entendimento de que o balanço militar global está cada vez mais difuso num cenário global instável, com ameaças que passam a envolver tecnologia, defesa cibernética e integração logística – não apenas disputas territoriais.Índia acelera modernização para se tornar potência militar | CNN PRIME TIME