A Operação Sem Refino, deflagrada pela PF (Polícia Federal), nessa sexta-feira (15), aprofundou a crise política no Rio de Janeiro ao atingir o ex-governador Cláudio Castro (PL) e o empresário Ricardo Magro, dono da refinaria Refit. A investigação apura um suposto esquema bilionário de sonegação fiscal, ocultação patrimonial e evasão de divisas envolvendo um conglomerado do setor de combustíveis.Para o cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria, o caso representa um desgaste político relevante para o bolsonarismo, especialmente por ocorrer no Rio de Janeiro, considerado o principal berço político da família Bolsonaro.“Há um simbolismo por termos um governador do PL sendo atingido por um caso de corrupção. Quando o bolsonarismo pretende encarnar, por meio da candidatura de Flávio Bolsonaro, um discurso anticorrupção, anti-PT e anti-STF, o que vemos com esses avanços da Polícia Federal é algo que pode minar esse discurso de ética e moral que sempre acompanhou o bolsonarismo”, afirmou, em entrevista ao jornal WW, da CNN Brasil.Segundo Gabiati, a família Bolsonaro terá de reavaliar sua estratégia política diante do avanço das investigações. “Vão ter que renovar, rearticular ou pensar de que forma vão tratar esses assuntos e como prestar contas aos eleitores e à sociedade”, disse.O cientista político também mencionou uma recente reportagem da revista The Economist, que descreve os escândalos de corrupção e crise de segurança no cenário fluminense. “A matéria faz um alerta para o Brasil prestar atenção ao que está acontecendo no Rio de Janeiro, porque isso poderia acontecer no restante do país”, declarou.De acordo com ele, o texto aponta sinais de “degradação institucional” e avanço da influência do crime organizado em diferentes esferas do poder público fluminense, incluindo o Judiciário, o governo estadual e prefeituras.“Eles falam justamente dessa infiltração do crime organizado e da falta de credibilidade das instituições no Rio de Janeiro. É um alerta importante sobre como esse assunto pode evoluir”, destacou.Ao comentar a situação de Cláudio Castro, Gabiati avaliou que o cenário tende a se agravar. “Obviamente, o governador tem espaço para prestar esclarecimentos, mas tudo indica que a situação dele, em vez de melhorar, tende a piorar. Vamos aguardar os próximos fatos dessa sequência que, por enquanto, parece interminável”, avaliou.Operação Sem RefinoA operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e resultou no bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros do grupo investigado, além da suspensão de atividades econômicas. Ao todo, foram cumpridos 17 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Distrito Federal.As investigações apuram suspeitas de fraudes fiscais bilionárias no mercado de combustíveis, além de ocultação de bens e envio irregular de recursos ao exterior. A operação também é um desdobramento de apurações sobre incentivos fiscais concedidos pelo governo fluminense à refinaria em 2023.Em nota, a defesa de Cláudio Castro afirmou que foi “surpreendida” pela operação e declarou que o ex-governador está “à disposição da Justiça para prestar todos os esclarecimentos, convicto de sua lisura”. A defesa sustenta ainda que todos os atos de sua gestão seguiram critérios técnicos e legais. (Veja a íntegra da nota ao final da matéria)Já a Refit negou irregularidades e afirmou que não foi beneficiada por programas especiais de parcelamento fiscal do governo estadual. A empresa também declarou que “jamais falsificou declarações fiscais para obter vantagens tributárias” e que as discussões tributárias envolvendo a companhia ocorrem nas esferas judicial e administrativa. (Veja a íntegra da nota ao final da matéria) Nota de Cláudio Castro“A defesa do ex-governador do Rio Claudio Castro afirma que foi surpreendida com a operação de hoje e que ainda não tomou conhecimento do objeto do pedido de busca e apreensão. No entanto, Castro está à disposição da Justiça para dar todas as explicações convicto de sua lisura.Todos os procedimentos praticados durante a sua gestão obedeceram aos critérios técnicos e legais previstos na legislação vigente, inclusive aqueles relacionados à política de incentivos fiscais do Estado, que seguem normas próprias, análises técnicas e deliberação dos órgãos competentes.É de suma importância destacar que a gestão Cláudio Castro foi a única a conseguir que a Refinaria de Manguinhos pagasse dívidas com o estado, o que reforça a postura isenta e institucional do ex-governador. No total, gestão conseguiu garantir o pagamento de parcelas cujo montante se aproxima de R$ 1 bilhão.Atualmente, o parcelamento se encontra suspenso por força de decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em agravo de instrumento.Ao longo da gestão, a PGE (Procuradoria Geral do Estado) ingressou com inúmeras ações contra a Refit, o que demonstra que a Procuradoria sempre atuou para que a empresa pagasse o que deve ao Estado.”Nota da Refit“Com relação à Operação Sem Refino desta sexta-feira (15), a Refit esclarece não conhecer os investigados Alvaro Barcha Cardoso e Diego Gonçalves, apontados como supostos intermediários da companhia em conversas com fiscais da Fazenda do Rio.Importante esclarecer que a Refit não foi beneficiada pelo programa especial de parcelamento de créditos do governo do Estado do Rio de Janeiro, criado em outubro do ano passado. A companhia não é elegível ao Refis 2025, uma vez que já possui um parcelamento em vigor junto ao governo desde 2023.Demais questões tributárias envolvendo a companhia estão sendo discutidas no âmbito judicial e administrativo, como fazem diversas companhias do setor, incluindo a própria Petrobras, atualmente uma das maiores devedoras de tributos do Estado do Rio de JaneiroA Refit jamais falsificou declarações fiscais para ter vantagens tributárias. Laudos científicos da carga apreendida nas últimas operações comprovam que o produto importado se trata de óleo bruto de petróleo, conforme devidamente declarado na documentação de importação. Causa estranheza a Receita Federal impedir a realização da perícia judicial que possa corroborar os laudos de profissionais já apresentados em juízo.Importante ressaltar ainda que o advogado Tiago Cedraz não presta serviços para Refit.Com relação à Tobras Distribuidora de Combustível, não há nenhuma interferência da Refit na decisão do INEA de cancelar sua licença. A decisão, muito provavelmente, tem a ver com as irregularidades cometidas pelos seus acionistas que são os mesmos da Copape, empresa investigada por ter envolvimento com o PCC e fechada pela ANP.”