Diversas pesquisas têm documentado uma associação entre o uso intenso de redes sociais por homens jovens com uma insatisfação com o próprio corpo e o desejo de mudá-lo. Mas não se sabia até agora se a exposição a esse tipo de conteúdo causa realmente esses efeitos.Por isso, uma equipe de pesquisadores da Flinders University, na Austrália, realizou um estudo que, na prática, testa “o impacto do conteúdo idealizado do TikTok sobre a autoimagem, a relação com a alimentação, o condicionamento físico percebido e o interesse em substâncias para ganho de massa muscular em homens jovens”. Governo aumenta classificação indicativa do YouTube para 16 anos; entenda Como a neurociência explica a experiência sonora de uma sala de cinema Conheça aplicativo da Nasa que transforma nomes em imagens de satélite Publicado recentemente na revista científica Body Image, o artigo relata como uma amostra de 282 participantes — autoidentificados como homens e com idades entre 17 e 30 anos — respondeu a questionários iguais, antes e após exposição a vídeos de fitness, de suplementos e de viagens em sessões de cerca de três minutos.Nesses conteúdos, geralmente um indivíduo com físico considerado ideal se exercita e dá dicas de treinos e, posteriormente, o mesmo perfil, sem se exercitar, fala sobre substâncias indicadas para ganho muscular. Os depoimentos mostram um padrão corporal ou de estilo de vida que não representa a média real das pessoas.Diferentemente de pesquisas que apenas identificam associações, o estudo usou um desenho experimental com grupos equivalentes — para permitir afirmar com mais segurança que foi a exposição a esse tipo de conteúdo que alterou a forma como os participantes se perceberam.Analisando o impacto dos vídeos na vida dos participantesPoucos minutos de conteúdo fitness no TikTok são suficientes para disparar o processo de comparação com corpos idealizados • krakenimages.com/MagnificOs participantes que assistiram aos vídeos sobre fitness e suplementos relataram uma pior percepção do próprio condicionamento físico quando comparados ao grupo exposto a conteúdos de viagem. A diferença foi estatisticamente significativa, indicando que o efeito não ocorreu por acaso.O grupo exposto a vídeos de fitness relatou menor satisfação com a própria alimentação do que o grupo de suplementos. Mas ambos apresentaram uma maior intenção de usar creatina do que o grupo controle, indicando um efeito direto da exposição a esses materiais.O processo psicológico de se medir pelo corpo alheio é chamado de comparação de aparência. Em outras palavras, os participantes expostos a corpos idealizados se compararam involuntariamente com o que viram na tela. E foi esse movimento que mediou todos os efeitos negativos observados.Quando os autores usaram um software para isolar essa variável na análise estatística, perceberam que o vídeo sozinho não explica os efeitos negativos. Na verdade, é o ato de se comparar com o padrão exibido na tela que produz a insatisfação e aumenta o interesse por suplementos.Pouco protegidos e expostos ao algoritmoTreinar e consumir conteúdo fitness no celular viraram rotina para muitos jovens • Stockking/MagnificA chamada busca por muscularidade — traço psicológico que mede o desejo de ter um corpo mais musculoso — moderou dois resultados: entre homens com maior pontuação nesse indicador, os vídeos de treino aumentaram a insatisfação com a alimentação, enquanto conteúdos sobre suplementos elevaram a intenção de uso de esteroides.Os homens com baixa busca por muscularidade, por outro lado, geralmente não têm como prioridade adquirir músculos, nem comparar seus corpos aos de terceiros. Ou seja, o tipo de conteúdo só faz diferença quando o indivíduo já tem uma predisposição para ganhar massa muscular.Como grande parte dos conteúdos sobre suplementação no TikTok carece de respaldo científico, os autores citam estudos anteriores que sugerem uma possível escalada no universo do fitness — de suplementos nutricionais seguros (quando bem usados) para substâncias com potencial significativo de danos à saúde, como os esteroides.A principal conclusão do estudo foi mostrar que a exposição de homens jovens a conteúdos de fitnes e suplementação nas redes sociais pode afetar suas percepções sobre o próprio corpo e suas escolhas. Os achados abrem caminho para programas de prevenção desenhados especificamente para esse segmento, historicamente negligenciado pelas políticas de saúde mental.O próximo passo, sugerem os autores, é sair do laboratório: monitorar o uso real do aplicativo no cotidiano e incluir os próprios influenciadores como objeto de estudo — peça central de um ecossistema pouco investigado pela ciência e ainda insuficientemente regulado.Termo “incel” tem pico de buscas após estreia da série “Adolescência”