Quando criança, ouvia as histórias da minha avó Helena tentando entender o quão difícil era cuidar de cinco filhos, marido e quatro avós morando todos numa mesma casa. Ela cultivava os alimentos que iriam comer, preparava os pães, queijos, iogurtes e linguiças usados como alimento e moeda de troca entre mulheres submetidas à mesma escassez. Meu avô sonhava em ser médico, mas tornou-se carpinteiro de caixões — aqueles que serviam de abrigo final para familiares, amigos e conhecidos. Durante as invasões, escondia-se com outros homens. Naquela casa cheia, a morte sempre esteve presente.Meus pais e seus irmãos, filhos de um país destruído, espalharam-se pelo mundo em busca de vida. Minha mãe, viúva, prefere morar só aos 86 anos. Lúcida, espera as visitas sem abrir mão da própria casa.Nascemos sozinhos. Morreremos sozinhos. No intervalo, precisamos que alguém percebanossa presença. Ou sinta nossa falta.E eu? Como planejo envelhecer?A casa cheia da minha avó já não cabe nas cidades em que vivemos. No Japão, a morte solitária ganhou nome: kodokushi. Pessoas morrem em casa e só são encontradas dias, meses ou até anos depois. Vivenciei algo parecido há alguns anos. Experiência desoladora.Estima-se que dezenas de milhares de idosos japoneses morram assim todos os anos. O Brasil também se aproxima desse cenário: envelhecemos, vivemos majoritariamente em cidades e, em 2025, 15,6 milhões de pessoas moravam sozinhas no país. Desse total, cerca de 40% tinham 60 anos ou mais. Milhões de pessoas vivendo sem companhia cotidiana. Alguns por opção. Outros, não.A solidão, hoje, deixou de ser apenas uma experiência íntima. Tornou-se questão de saúde pública. A OMS alerta que ela se associa a cerca de 100 mortes por hora no mundo. Nas cidades, onde famílias se espalham, amigos moram longe e a rotina consome os dias, até o olhar para o outro, disputa espaço na agenda.Nos últimos anos, tenho aprendido algo que minha avó Helena talvez estranhasse, mas que nomeio como solidão solidária.É a solidão escolhida e partilhada nos poucos minutos que sobram para um encontro sem pressa. A companhia, nesse caso, não invade: mora perto, guarda uma chave, sabe da viagem, percebe a ausência.No meu condomínio, há um grupo de vizinhos que se formou sem hierarquia nem parentesco. São uma família social, distante dos laços biológicos suportados com dificuldade nas festas de final de ano. Uma enfermeira aposentada, um casal de médicos músicos que só tocam sexta-feira à noite, um irmão que cuida da irmã com Alzheimer, um casal que se separou mas continua morando junto em coliving. Não comemos pizza no sábado à noite. Não somos uma família. Mas trocamos as chaves de emergência. Vez e outra trocamos mensagens no Whatsapp. Sabemos quando alguém viaja ou adoece ou precisa de alguém para conversar. E, sobretudo, não perguntamos "por que você está só?" porque entendemos que a solidão, quando compartilhada com quem não julga, deixa de ser abandono e vira território comum.Outro dia, a enfermeira me contou de uma idosa no bairro que todos os dias, às 15h, senta-se na mesma mureta do banco com seu cachorrinho idoso e uma almofada vazia ao lado. O lugar é para o filho que mora no exterior. Ela sabe que ele não virá. Mas alguém sempre se senta ao seu lado por dez minutos, inclusive eu, em silêncio, só para que ela não tenha que fingir que a ausência não dói e, ali, permanecem juntos, cada um carregando a sua própria falta, sem expectativas.Minha avó Helena, no interior da Grécia em guerra, tinha a horta, a casa cheia, os corpos vivos e mortos atravessando a mesma rotina. Sua solidão era coletiva. A minha é urbana: mora em prédios cheios, atravessa elevadores em silêncio, depende de chaves deixadas com vizinhos e de mensagens respondidas a tempo. Nela, até a morte corre o risco de ser terceirizada.Então, como planejo envelhecer?Ainda não sei. Por enquanto, observo a almofada vazia.