Depois de quase uma década de promessas não cumpridas e uma longa batalha para manter suas finanças longe do escrutínio público, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou que pode finalmente divulgar suas declarações de imposto de renda. A sinalização veio dias após um acordo extraordinário fechado entre sua equipe jurídica e o Departamento de Justiça que encerra reivindicações fiscais contra ele, familiares e empresas ligadas ao grupo Trump.A declaração imediatamente reacendeu um dos debates mais antigos da política americana recente: afinal, quanto Trump realmente paga em impostos e por que resistiu durante tantos anos a divulgar esses documentos?O tema acompanha Trump desde a campanha presidencial de 2016. Diferentemente da tradição moderna americana – seguida por republicanos e democratas por décadas — ele nunca tornou públicas voluntariamente suas declarações completas. Durante anos, o argumento usado foi o mesmo: os documentos estariam sob auditoria do IRS (a Receita Federal americana), e por isso não poderiam ser divulgados. Especialistas em tributação e o próprio IRS já haviam esclarecido anteriormente que uma auditoria não impede legalmente a divulgação das declarações.Agora, Trump diz que o cenário mudou.Isso porque nesta semana foi firmado um acordo que encerrou uma disputa judicial iniciada pelo próprio presidente contra o IRS. O processo, de US$ 10 bilhões, foi aberto depois do vazamento de informações fiscais de Trump. Como parte do entendimento, o governo concordou em abandonar definitivamente reivindicações tributárias relacionadas às declarações já entregues anteriormente por Trump, seus familiares e empresas associadas.Segundo documentos divulgados pelo governo, o entendimento estabelece que autoridades federais ficam impedidas de seguir com ações ligadas a declarações fiscais anteriores ao acordo. O texto utiliza uma linguagem incomum e ampla ao determinar que essas reivindicações ficam “permanente e definitivamente impedidas”.Foi justamente depois disso que Trump disse a jornalistas que agora poderia considerar liberar seus impostos ao público. Até o momento, porém, a Casa Branca não apresentou cronograma, formato ou qualquer confirmação oficial de que isso realmente acontecerá.E é aí que entra o ceticismo.Essa não é a primeira vez que Trump promete transparência fiscal. Ao longo dos últimos dez anos, ele repetiu diversas vezes que divulgaria os documentos “quando o momento certo chegasse” ou “quando terminassem auditorias”. Nenhuma dessas promessas se concretizou.Na prática, parte desse mistério já foi quebrada antes.Em 2022, democratas no Congresso divulgaram anos de declarações fiscais de Trump referentes ao período entre 2015 e 2020. Os documentos mostraram estratégias agressivas – porém em grande parte legais – para reduzir a carga tributária, além de revelar perdas em negócios e períodos em que o pagamento federal de imposto foi muito reduzido. A divulgação alimentou críticas políticas, mas não resultou em acusações criminais relacionadas diretamente àquelas declarações.O novo acordo também abriu outra frente de controvérsia.Além do encerramento das disputas fiscais, foi criado um fundo de aproximadamente US$ 1,776 bilhão chamado de “Anti-Weaponization Fund” (“Fundo Contra Instrumentalização Política”), destinado a pessoas que aleguem terem sido alvo injusto de investigações ou ações do governo. Críticos afirmam que o mecanismo pode beneficiar aliados políticos do presidente e questionam sua constitucionalidade; aliados de Trump argumentam que ele cria reparação para abusos institucionais.No fim, a questão central continua sem resposta.Trump afirma que agora não teria mais motivo para esconder os documentos fiscais.Mas, depois de anos de promessas semelhantes, a pergunta em Washington deixou de ser “Trump vai divulgar?” e passou a ser “desta vez ele realmente vai cumprir?”