Independentemente de quem vencer a eleição presidencial deste ano, o próximo governo terá de fazer algum ajuste nas contas públicas, e esse movimento deve beneficiar a bolsa brasileira no período pós-eleições. A avaliação é de Rogério Poppe, CEO da ARX Investimentos.Para ele, a própria discussão sobre taxar títulos isentos, já levantada pela equipe econômica, mostra que o tema fiscal voltará à mesa assim que passar o pleito. “O pessoal do Ministério da Fazenda já está falando da necessidade de taxar títulos isentos, já é sinal de que estão pensando em como melhorar a parte fiscal pós-eleição”, afirma.O raciocínio interessa a quem investe em ações porque, na leitura do gestor, o resultado das empresas mais expostas ao consumo doméstico só melhora de forma consistente com um ciclo de queda de juros mais acentuado, o que depende diretamente do fiscal: a economia brasileira tem crescido muito à base de gasto público, enquanto o poder de compra do consumidor foi corroído pelo endividamento e pelas “bets”. “A vida não tem sido fácil para empresas expostas ao consumidor doméstico, que sofrem ainda efeitos dos juros”, diz.Poppe pondera que o acerto fiscal virá independentemente do resultado. Um presidente novo teria de apresentar uma proposta para arrumar as contas antes de governar, sobretudo na segunda metade do mandato. Uma eventual reeleição de Lula também exigiria algum tipo de correção. “Não que se esperam grandes mudanças, vai ser algo pontual, mas vai ajudar a aliviar os juros e beneficiar a bolsa na parte doméstica”, diz.Até lá, o investidor em ações vai precisar de paciência para atravessar o segundo semestre e chegar às urnas com um cenário mais definido. Poppe acredita que, sem novas medidas de gasto do governo, o noticiário sobre as contas públicas pode ficar menos negativo já nos próximos meses, o que abriria espaço para uma reação da bolsa.Leia tambémIA devoradora de estrelas? Kinea questiona se US$ 1 tri investido terá mesmo retornoPara a gestora, a dúvida não é se a inteligência artificial vai gerar valor, mas em qual camada da cadeia esse valor será capturado. E a resposta varia bastante conforme o elo analisadoTecnicamente, o gestor vê o terreno preparado para uma virada rápida. A exposição de investidores locais e estrangeiros ao Brasil está baixa, e muitas ações negociam de 20% a 30% abaixo de seus preços históricos em relação aos lucros. Falta apenas um gatilho para o mercado se ajustar. “O mercado está muito leve e, como vimos de janeiro a março, se tiver uma mudança de humor, a bolsa sobe muito rápido”, afirma.Para Poppe, os preços seguem deprimidos pela combinação de juro local elevado e do forte ciclo das empresas de tecnologia americanas, que drenaram recursos de investidores desde 2023. A expectativa é que esse fluxo se normalize e parte do dinheiro volte para a velha economia, mas num horizonte de dois a três anos. No curto prazo, ele não enxerga gatilho além da eleição e da agenda fiscal.Ganho de 10.000%A leitura parte de uma das gestoras de ações mais longevas do país. O ARX Income, principal fundo da casa, acumula ganho de 10.368% desde o início, contra 1.408% do Ibovespa e 2.187% do CDI no mesmo intervalo, segundo dados da Economatica. O fundo foi criado em julho de 1999, antes mesmo da gestora, que nasceu em 2001 e acaba de completar um quarto de século. Desde 2008, a casa é controlada pelo grupo internacional BNY.Neste ano, o ARX Income sobe 6,0% e ganha 22,3% em 12 meses, ante 9,6% e 30,5% do Ibovespa. Poppe atribui a diferença à concentração da alta recente do índice em Petrobras (PETR4), enquanto a carteira do fundo é mais diversificada, o que, na sua expectativa, deve favorecer o fundo à medida que outros papéis se valorizem. Na ARX desde 2006, ele viu o mercado de gestão se transformar, com a saída de recursos do investidor local das ações diante da competição da renda fixa e dos papéis isentos. A base de investidores de longo prazo em renda variável, hoje majoritariamente estrangeira, ajudou o fundo a atravessar sucessivas crises. Nos últimos anos, a casa diversificou as estratégias e cresceu em crédito privado, que responde por R$ 36 bilhões dos R$ 54 bilhões sob gestão, enquanto a renda variável soma R$ 5,5 bilhões.Leia também5 motivos para Ânima ter desabado 33% após a compra da FMU – e o que fazer com a açãoAquisição mostra potencial, mas aumentou preocupações com alavancagem, execução e timing; duas casas rebaixaram a recomendação para os papéis após o anúncioOnde estão as oportunidadesNo mapa atual de preços, Poppe vê as ações de commodities como as mais bem precificadas, por acompanharem o mercado global. As defensivas, boas pagadoras de dividendos e de receita previsível, com destaque para o setor elétrico, também estão ajustadas, já que a maioria dos investidores buscou proteção nelas. O que puxa o valor da bolsa para baixo são os papéis cíclicos, ligados à atividade, como bancos e consumo discricionário, penalizados pelo juro alto.Diante desse quadro, o ARX Income segue concentrado em commodities e defensivas, mas amplia a diversificação. O fundo aumentou a exposição ao setor elétrico e também ao consumo discricionário, em busca de equilíbrio à espera da definição eleitoral. A estratégia é se posicionar de forma mais ou menos defensiva conforme avançam as propostas dos candidatos.No exterior, Poppe projeta um ambiente que segue instável, marcado pelas idas e vindas do presidente americano, Donald Trump, nas frentes política e econômica, o que reforça a opção por uma carteira equilibrada e conservadora. No Brasil, qualquer que seja o resultado das urnas, ele avalia ser possível trabalhar com um horizonte de dois a três anos e escolher empresas que façam sentido nessa janela. “A questão é sobreviver e, em cenário difícil, não dá para ser ousado”, conclui.The post Sinal da Fazenda sobre isentos aponta ajuste fiscal pós-eleição, diz ARX appeared first on InfoMoney.