Ainda é cedo. Há um paradoxo que até dispensaria explicação: quanto mais se aproxima o 4 de outubro, data do primeiro turno da eleição, mais distante ela fica. Ok. Explico.Quanto menor a margem de manobra, maior o perigo. Para todos. Quem está por um átimo, qualquer que seja o caso ou o tema, espreita a glória ou o opróbrio.Sempre há um livro, um drama, um filme: “O Medo do Goleiro Diante do Pênalti”, de Wim Wenders. Saudades do tempo em que eu patrulhava, pelo caminho da esquerda, os meus amigos alternas que gostavam de Wenders… Já fui um marxista chato. Hoje sou legal. Alerta de ironia. Sigamos.Até agora, Flávio Bolsonaro não conseguiu o apoio do União Brasil e do PP. E também o do Republicanos, a legenda de Tarcísio de Freitas, vai subindo no telhado. “Mas Tarcísio é, no caso, partidário?” Ah, vai estar sempre “empenhado”, né?, com a dedicação de quem foi atropelado por sumidades como Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo.Insisto: a eleição está muito perto e muito longe. E o caso Master transita naquele fio de navalha que pode produzir, a qualquer momento, aqueles eventos que transitam entre o estado de direito e a barbárie jurídica. Se não sairmos desse limiar, não só o futuro é incerto como também o passado. Mas isso ficará para outra hora.Sigo agora com o pré-candidato Flávio Bolsonaro e as duas cartas do pai, asseverando ser ele o candidato. É um momento em que análise é um emblema:FLÁVIO É O PRIMEIRO CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA QUE PRECISA DE DUAS CARTAS DO PAI PARA SE PROTEGER DA MADRASTA. DEPOIS DE TER PRIVATIZADO A DIREITA E A EXTREMA DIREITA, OS BOLSONAROS QUEREM PRIVATIZAR O BRASIL TAMBÉM EM TERMOS, DIGAMOS, FREUDIANOS. COMO É QUE MERGULHAMOS NESSE PÂNTANO?Sempre pode haver um soneto. Se Flávio ficar mesmo sem o PP, sem o União Brasil e sem o Republicanos, vamos ter de declamar “Versos Íntimos” para ele, de Augusto dos Anjos:Vês! Ninguém assistiu ao formidávelEnterro de sua última quimera.Somente a Ingratidão – esta pantera –Foi tua companheira inseparável!Acostuma-te à lama que te espera!O homem, que, nesta terra miserável,Mora, entre feras, sente inevitávelNecessidade de também ser fera.Toma um fósforo. Acende teu cigarro!O beijo, amigo, é a véspera do escarro,A mão que afaga é a mesma que apedreja.Se alguém causa inda pena a tua chaga,Apedreja essa mão vil que te afaga,Escarra nessa boca que te beija!Insisto: a eleição está longe. Mas já temos a antecipação do desastre se Flávio for eleito. À diferença do que pensa o reacionarismo intelectualmente pobre do Brasil, estamos entre um país que até pode ser hoje um enigma — o que viria com a reeleição de Lula — e aquele que é um pacto com o atraso.Entre o que não sei direito o que seja e o que sei ser o abismo, eu me reservo o direito à esperança.