O agronegócio conseguiu mais um ‘socorro’, agora do governo, com uma medida provisória (MP) que destina R$ 100 bilhões para a renegociação de dívidas.Ao todo, o produtor rural terá prazos de pagamento de até oito anos, que podem chegar a dez anos em casos de perdas severas. Já as taxas de juros vão variar entre 6% e 12%, ou de 5% a 11% para os produtores mais afetados.A medida chega em boa hora para o Banco do Brasil (BBAS3). De acordo com analistas, a MP representa um alívio para o banco em um ano que deve ser pior do que o esperado.Com os recursos saindo do Tesouro, os produtores terão maior capacidade de honrar seus compromissos, “o que pode melhorar a qualidade dos ativos”, na visão do Safra.Além disso, destaca o banco, com dois anos de carência e sem exigência de entrada, o programa pode ajudar a limitar a formação de novos créditos inadimplentes ligados ao agronegócio no pico de vencimentos entre abril e setembro.“Isso deve eliminar, pelo menos por enquanto, o incentivo dos agricultores para adiar o pagamento e esperar por melhores condições, o que pode ter impactado negativamente o segundo trimestre de 2026, em nossa opinião.”O Bradesco BBI também vê a medida com bons olhos. Para a corretora, os impactos tendem a ser positivos no geral. Porém, os efeitos dependem do cronograma de implementação, de mais detalhes do programa e do ritmo de originação de crédito.Dados mais recentes da Serasa mostram que o setor ainda sofre com os calotes. Segundo o estudo, a inadimplência da população rural foi de 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2 ponto percentual em relação ao mesmo período do ano anterior e de 0,6 ponto percentual na comparação trimestral.Banco do Brasil: notícia esperada, mas insuficienteApesar disso, o Safra afirma que a notícia não chega a ser bombástica. A medida era amplamente esperada e, como já havia sido amplamente divulgada, parte do alívio provavelmente já estava refletida no preço das ações, considerando que o Projeto de Lei nº 5.122/2023 vinha sendo discutido no Senado.Ainda segundo os analistas, a medida não é suficiente para resolver os problemas do Banco do Brasil. Entre os principais pontos citados pelo Safra estão:Capital, ROE (retorno sobre o patrimônio líquido) e baixo índice CET1 (Capital Common Equity Tier 1, indicador que mede a capacidade do banco de absorver prejuízos), em 11,6%;Lucro por ação: a projeção de pagamento de dividendos de 30% não oferece um retorno atrativo para as ações diante de um potencial ciclo de desaceleração do crédito;Risco moral, já que a MP pode reforçar a expectativa de novos programas de renegociação. Trata-se do terceiro programa de socorro em dois anos.Mais do que isso, o banco terá de correr se quiser cumprir as projeções, que já haviam sido revisadas no começo do ano.Nos cálculos dos analistas, o Banco do Brasil lucrará R$ 3,8 bilhões no segundo trimestre de 2026, ou R$ 7,2 bilhões no primeiro semestre. Isso significa que o banco precisaria elevar o lucro líquido trimestral em cerca de 50% para atingir a projeção mais conservadora de lucro líquido de R$ 18 bilhões no ano, “um cenário muito improvável”.Agora, somente a partir do balanço do terceiro trimestre de 2026 os investidores terão maior clareza sobre se a inadimplência vai recuar ou permanecer nos níveis atuais.Até lá, dizem os analistas, ações são negociadas a cerca de 6,6 vezes o P/L (preço sobre lucro) e 0,63 vez o P/VP (preço sobre valor patrimonial), com base na expectativa de melhora no segmento do agronegócio.A boa notícia, segundo o Safra, é que boa parte da crise parece já estar precificada, “o que mantém a leitura positiva do evento e a classificação inalterada”.A recomendação é neutra, com preço-alvo de R$ 25, o que representa um potencial de valorização de cerca de 20%.O Bradesco BBI também manteve a recomendação neutra e destacou que o cenário à frente continua desafiador, principalmente devido à pressão sobre as provisões para perdas, o que levou a uma estimativa de lucro líquido abaixo da orientação (guidance) divulgada pelo banco para 2026.“A medida provisória recém-anunciada pode ajudar a mitigar o agravamento da inadimplência, mas as tendências de curto prazo devem permanecer desafiadoras, especialmente no segundo trimestre, justificando a nossa recomendação.”