Vocês certamente conhecem a expressão “vamos botar ordem nessa orgia”. É uma referência, se não sabem, ao Marquês de Sade, que misturou, em doses desproporcionais, os arroubos da Revolução Francesa com sacanagem. Explico: em “Filosofia na Alcova” (só para maiores de idade), há mais, como direi?, “passagens fesceninas” do que a defesa da virada de mesa, embora ele seja chato pra chuchu quando trata da questão política. Mas é muito criativo no resto… E, sim, ele tinha a ambição de organizar a “zutaria”, mais ou menos assim: “Você faz isso, já você, aquilo…” Vale dizer: botava ordem na orgia.Não vim para isso. Mas tenho a ambição de hierarquizar o debate ao menos. Só não quero ser muito chato, como Donatien Alphonse François de Sade era ao debater sexo, nem tão, como direi?, explicito ao tratar da política, rsss. Que fique para vídeos vindouros, “if you know…” E intuo que chegarão. Adiante. Vamos botar ordem na orgia?O senador Rogério Marinho (PL-RN), que envergonharia hoje o avô, Djalma Marinho, que não era um progressista — e lamento dizer assim —, emitiu uma nota toda errada contra a decisão de Alexandre de Moraes no que respeita às visitas de Flávio a Jair. Até aí, vá lá, jogo jogado. Coordena a campanha do pré-candidato do PL e está doido para receber ao menos um elogio da extrema direita. Há quem tenha essa estranhíssima carência.Mas há a fala do advogado de Flávio na área eleitoral: Tracy Joseph Reinaldet dos Santos. O “dos Santos” sumiu do noticiário em benefício da inflexão anglo-francesa “Tracy Reinaldet”. Pode não ter sido intencional, mas sempre fica parecendo uma coisa mais profunda nos subterrâneos do Canal da Mancha.Disse Reinaldet:“A decisão é ilegal e inconstitucional. Vale lembrar que o Flávio Bolsonaro é também advogado de seu pai. A proibição de contato viola, portanto, o direito que o advogado tem de se comunicar com seu representado”.Opa! Errado. Se é um princípio, como faz crer com seu eventual lado francês, não procede, ou defensores não seriam monitorados em presídios de segurança máxima em que estão chefes do PCC e do CV. Se é matéria do direito consuetudinário anglo-saxão, não se forma uma tradição fazendo pouco caso dos tribunais, não é mesmo?Bolsonaro reivindicou a licença de não enfrentar a pena em regime fechado, a que está condenado. E isso lhe foi concedido sob certas condições — e uma delas era não fazer proselitismo em redes sociais. Se a defesa discordava da premissa, não aceitasse as consequências. E ponto e basta.Desde quando advogado tem acesso ao cliente para que este tenha uma oportunidade de desrespeitar a decisão do Juízo? Sinto um misto de preguiça intelectual e enfaro em ter de explicar o óbvio na era em que “toda opinião é uma opinião”, ainda que incida na mais alvar estupidez.Todos sabemos que Flávio ser advogado de Bolsonaro é um truque. Ele nunca atuou nessa área nem em favor de sua fantástica loja de chocolates. Mas não havia como impedi-lo. Daí a arrancar uma carta em favor de sua candidatura do presidiário em regime fechado, a exercer sob condições a modalidade domiciliar, vai uma grande diferença.Político passar vergonha é quase da profissão. Sugiro que os advogados se poupem. Ou, daqui a pouco, vai haver quem defenda pombos-correio na pele de causídicos a ouvir as ordens do PCC e do CV. Não ficaria bem. Vamos botar um pouco de ordem na orgia.