Turismo de base comunitária transforma Território Kalunga e fortalece identidade quilombola

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Em meio às cachoeiras e às paisagens deslumbrantes da Chapada dos Veadeiros, o território Kalunga, marcado por uma história de resistência, tornou-se referência nacional em turismo de base comunitária, aliando desenvolvimento econômico, sustentabilidade e valorização da identidade quilombola.Desde 2005, o Sebrae Goiás atua no território, apoiando o empreendedorismo local e promovendo ações voltadas à preservação da cultura e da identidade do povo Kalunga. Ao longo dos anos, essa parceria passou por diferentes etapas, entre elas o Projeto Vila Kalunga, a realização de cursos para condutores de visitantes, o fortalecimento da agricultura familiar, estudos de marca e, mais recentemente, o trabalho da Rede de Agentes de Roteiros Turísticos.Turismo de base comunitária movimentou cerca de R$ 24 milhões nos últimos quatro anos, segundo estudo do Sebrae GoiásDurante visita à comunidade nesta sexta-feira (17), o presidente do Sebrae Nacional, Rodrigo Soares, destacou a importância do turismo de base comunitária para a geração de oportunidades e para o desenvolvimento sustentável do território. “Vocês desenvolvem um trabalho muito importante no turismo de base comunitária, que conta com o nosso apoio e gera renda digna para as famílias. Ainda existem muitos desafios, mas estaremos juntos nessa caminhada. O protagonismo é de vocês, da própria comunidade”, afirmou.“Nosso papel é apoiar para que todo esse potencial seja fortalecido, gere oportunidades e contribua para a cidadania e o desenvolvimento do território”Rodrigo Soares, presidente do SebraeEstudo realizado pelo Sebrae Goiás em parceria com a comunidade mostrou que o turismo de base comunitária movimentou cerca de R$ 24 milhões em impacto econômico direto nos últimos quatro anos e recebeu 140 mil visitantes no território.Proteção do territórioAlém de gerar trabalho e renda, o turismo de base comunitária fortalece a permanência das famílias no território e contribui para a preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental Kalunga.Em abril, um convênio firmado entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, e o Sebrae Nacional estabeleceu ações para viabilizar as etapas necessárias ao avanço do processo de reconhecimento e declaração de tombamento do território quilombola Kalunga.O presidente do Sebrae, Rodrigo Soares, a liderança quilombola Cirilo dos Santos Rosa e o superintendente do Iphan em Goiás, Gilvane FelipeDe acordo com o Iphan, a parceria com o Sebrae foi firmada devido à experiência e à credibilidade construídas pela instituição junto às comunidades Kalunga. “O tombamento representa uma camada a mais de proteção para o território Kalunga e reconhece toda essa área como patrimônio cultural do Brasil. Além de contribuir para a preservação do território, esse reconhecimento poderá fortalecer os produtos e as experiências que a comunidade oferece ao público, com o apoio do Sebrae na estruturação e na valorização dessas iniciativas”, destaca Gilvane Felipe, superintendente do Iphan, em Goiás.Para Cirilo dos Santos Rosa, 72 anos, liderança quilombola, o apoio do Sebrae e do Iphan é fundamental para fortalecer a comunidade, proteger o território e garantir os direitos das famílias Kalunga.“Para nós, é uma maravilha contar com o Sebrae e com o Iphan, que é uma instituição muito forte na proteção dos nossos direitos, da nossa história e do nosso território, principalmente diante das ameaças de invasão por terceiros”Cirilo dos Santos Rosa, liderança quilombolaCirilo também destacou a contribuição do Sebrae para o desenvolvimento da comunidade. Segundo ele, o apoio da instituição incentivou a geração de emprego e renda, fortaleceu a produção local e contribuiu para a valorização da alimentação saudável.“O Sebrae foi um grande parceiro na realização de cursos de capacitação para os condutores de visitantes e na elaboração de projetos que ajudaram os moradores a estruturar suas microempresas”, declarou.História e resistência“O trabalho como guia fortaleceu o território e também me fortaleceu como pessoa”, afirma Dominga NatáliaLocalizada principalmente no município de Cavalcante, em Goiás, a Comunidade Kalunga é considerada o maior território quilombola do Brasil. Formada há cerca de 300 anos, surgiu a partir de pessoas escravizadas que fugiram das minas de ouro durante o ciclo de exploração no Brasil Central e encontraram refúgio nos vales isolados da Chapada dos Veadeiros. O território possui aproximadamente 260 mil hectares, reúne 39 comunidades e abriga mais de 8 mil quilombolas.Para essas famílias, o turismo tornou-se uma atividade essencial à sustentabilidade econômica, social e ambiental. O trabalho como guia é transmitido de geração em geração, preservando saberes tradicionais, fortalecendo o empreendedorismo e movimentando diferentes atividades dentro da própria comunidade.“O trabalho como guia fortaleceu o território e também me fortaleceu como pessoa. Passei a compreender ainda mais a importância da nossa cultura, da agricultura e do cuidado com o Cerrado”, afirma Dominga Natália, guia e empreendedora da Comunidade Kalunga.Natália destaca ainda que a atividade turística contribuiu não apenas para a geração de renda, mas também para fortalecer sua relação com o território, a cultura e a preservação ambiental. “Ser guia foi uma das melhores experiências profissionais que já tive, porque me permitiu conhecer melhor o lugar onde vivo e, ao mesmo tempo, conhecer o mundo sem precisar sair daqui. Além disso, a atividade me trouxe autonomia financeira e se tornou uma importante fonte de renda”, enfatizou.O Território Kalunga abriga mais de 8 mil quilombolasAtualmente, o território conta com mais de de 200 guias. Os benefícios também alcançam agricultores familiares, produtores de alimentos orgânicos, comerciantes, grupos culturais e trabalhadores responsáveis pelo transporte dos visitantes.Com isso, os recursos gerados pelo turismo permanecem e circulam dentro da própria comunidade, ampliando a renda das famílias, criando novas oportunidades e contribuindo para a preservação da cultura, da identidade e dos modos de vida do povo Kalunga.-