A montagem brasileira de “Wicked”, uma adaptação da icônica obra popular da Broadway, chega, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro, com estreia marcada para quarta-feira (15). Sucesso de público no Brasil desde 2016, a peça promete continuar cativando pelo enredo e personagens marcantes.À CNN Brasil, o ator Hypólito, intérprete de Fiyero desde a montagem apresentada em São Paulo em 2025, reflete sobre reencontrar um personagem que, segundo ele, também o transformou. Em sua versão, ele diz que decidiu estudar os estereótipos que cercam Fiyero justamente para se afastar deles. O resultado foi um príncipe menos idealizado e mais humano, com camadas, vulnerabilidades e uma verdade própria. “O roteiro já mostra que ele é o cara. Eu quis construir um príncipe humano”, resume. Cynthia Erivo rebate críticas que duvidam de sua amizade com Ariana Grande Nany People apresenta peça em SP sobre perdas da vida: "Humor é salvação" Peça sobre Paulo Gustavo, "Meu Filho é um Musical", chega em SP O ator também comenta como a chegada de novos integrantes ao elenco e a mudança de cidade renovaram a energia da montagem. Embora a essência do espetáculo permaneça a mesma, ele acredita que as novas relações entre os atores e o próprio palco do teatro carioca naturalmente transformam pequenas intenções e momentos da peça. “Tudo continua muito vivo”, afirma.Hypólito retorna ao papel de Fiyero em “Wicked”. Confira entrevista:CNN: Para começar, eu queria saber qual é a sua relação com o universo de “Wicked”? Você já conhecia a história antes de fazer o musical?Hypólito: Na real, isso foi até muito conversado com o diretor quando a gente fez a montagem em São Paulo. Eu nunca tinha assistido a ‘Wicked’. Eu conhecia a história mais ou menos, sabia do que se tratava, mas nunca tinha visto. Em 2016, quando teve a primeira montagem em São Paulo, eu nem morava lá. Depois, em 2023, eu já estava trabalhando com outra coisa e também não consegui assistir. Então, eu conhecia mais a ideia do que era ‘Wicked’, mas nunca tinha assistido. Sabia que era uma obra gigante e, quando fui fazer o musical, só confirmei isso.A história é muito boa. O roteiro de ‘Wicked’ é muito bom, o enredo é muito cativante. Quanto mais a gente foi se aprofundando, mais se apaixonou. Tivemos o Ronny Dutra como diretor, que sabe muito sobre Wicked, e ele colocou a gente completamente dentro desse universo. Foi muito especial entender a fundo o significado de tudo. Hoje eu amo muito ‘Wicked’.CNN: Você começou sua carreira artística muito novo. Mas o teatro musical sempre foi um sonho?Hypólito: Na verdade, não. Eu entrei para o teatro por consequência. Comecei muito novo dançando em um grupo de dança que meus pais tinham. Depois comecei a cantar e fazia festinhas de bairro. Com isso, começaram a aparecer testes para programas de calouros. Eu fazia, mas era muito tímido. Cantava, só que não me mexia. Isso começou a virar um problema nos testes.Aí falaram que eu precisava perder essa timidez e fazer teatro. No começo eu não queria, tinha medo desse desconhecido. Meus pais me levaram para a primeira aula e, dali, eu nunca mais parei. Peguei paixão. Comecei com uns 11 ou 12 anos e nunca mais deixei de fazer teatro.CNN: Você já tem uma grande experiência vivendo o Fiyero. Tem algo que pretende fazer diferente na temporada do Rio de Janeiro ou vai levar exatamente como foi em São Paulo?Hypólito: Eu não costumo ser um ator que fica mudando muito as coisas. Gosto de deixar tudo muito vivo. Antes dos ensaios, a gente sempre conversa com o diretor. Ele até me perguntou isso, e eu também perguntei para ele se era para mudar alguma coisa. De um modo geral, não. O que muda naturalmente são as relações. Entraram pessoas novas, então as cenas ganham outra energia. Algumas marcações, algumas intenções, tudo muda porque são outros colegas, outro teatro, outro espaço. O teatro do Rio é muito grande, então algumas movimentações exigem mais energia.Não existe uma mudança objetiva e consciente. Vou tentar deixar tudo muito vivo e permitir que o ambiente e as novas relações tragam novidades para o personagem.CNN: Mesmo a última montagem sendo recente, entrou muita gente nova no elenco, como você comentou. Existe uma energia diferente nos bastidores?Hypólito: Muito. A gente comenta bastante isso. É uma outra galera, outro momento. O fato de estar no Rio também muda completamente a energia. Todo mundo está com muita garra, muito firme, querendo muito fazer acontecer. Isso faz toda a diferença. Tem pessoas que eu já conhecia de outros trabalhos, mas também conheci muita gente nova. Está sendo maravilhoso. A peça montou super rápido e já está linda.CNN: Eu sei que você não pode contar muitos detalhes, mas a montagem do Rio terá alguma surpresa em relação à de São Paulo?Hypólito: Cara, eu não posso contar nada (risos). A gente já está muito perto da estreia, então agora é reta final de ensaios. Daqui a pouco o público vai começar a assistir e as surpresas com cereza vão aparecer.CNN: A ansiedade é parecida com a da sua estreia em São Paulo ou agora você está mais tranquilo?Hypólito: Eu fico sempre muito animado para começar. Gosto muito do processo de ensaio, mas chega uma hora em que dá vontade de estrear logo. Tem um momento em que a sala de ensaio já não comporta mais a peça. Mais do que ansiedade, eu estou com vontade de fazer, de entender como vai ser esse público do Rio. Já fiz peças aqui, mas Wicked é uma coisa completamente diferente. Quero muito viver isso.CNN: Depois de tanto tempo com o personagem, o que você acha que emprestou ao Fiyero e o que ele devolveu para você?Hypólito: No começo eu pensava muito nisso. Eu falava bastante sobre a energia que eu queria doar para esse personagem. Pelos retornos que recebi, sinto que consegui construir um Fiyero muito verdadeiro, muito único. Coloquei um pouco da minha essência, não de personalidade, mas da intenção, da verdade que o personagem precisava. E o Fiyero me devolveu muita profundidade. Além da confiança, que é uma característica dele, ele me fez estudar mais as camadas das pessoas. Acho que ele me ensinou a olhar além da casca, a enxergar o interior das pessoas. Isso foi um presente muito grande.CNN: Antes de viver o Fiyero, você não tinha assistido à peça. De onde vieram as inspirações para construir o personagem?Hypólito: Eu estudei bastante os estereótipos justamente para fugir deles. Inclusive esse era um pedido do diretor. O Fiyero não precisa mostrar que é ‘o cara’, porque o roteiro já faz isso por ele. Então tentei tirar essa camada do valentão, do líder da turma, e também fugir daquele príncipe de conto de fadas, aquele príncipe perfeito. E que também geralmente é vivido por um cara branco. Quis, acima de tudo, construir um príncipe humano. Um cara que sabe que é o centro das atenções e usa isso a seu favor, mas sem ser só isso. Tentei criar várias camadas.Também assisti ao filme para estudar mais. Além disso, trouxe inspirações da minha fé, da minha religiosidade, da minha ancestralidade e de arquétipos que conheço. Foi um conjunto de referências. Acho que estudar os estereótipos para conseguir escapar deles foi o caminho mais verdadeiro para mim.CNN: Queria aproveitar falar também sobre outro projeto enorme da sua carreira: dublar o Scar em “Mufasa”. Como foi viver isso?Hypólito: Nossa, a ficha demorou muito para cair. Foi o primeiro trabalho profissional de dublagem que eu fiz. Eu comecei a dublar em 2024 e esse já foi meu primeiro grande trabalho. A ficha caiu mesmo quando fui assistir ao filme. Foi aí que entendi que estava participando do universo de ‘O Rei Leão’, uma história que marcou minha infância, a dos meus pais e continua marcando gerações. Fazer o Scar foi uma coisa que eu nunca imaginei. Quando recebi a notícia, quase não tive reação. Foi um misto de sentimentos. Tenho muito orgulho desse projeto e fico muito feliz de saber que participei dele.CNN: Isso aumentou sua vontade de investir na dublagem?Hypólito: Muito. Eu estou sempre dublando, sempre fazendo alguma coisa. Desde que vim para São Paulo, em 2021, a dublagem era uma área em que eu queria entrar. Fui estudando, entendendo como funcionava e consegui começar. Hoje faz parte da minha carreira. Não quero parar de fazer.CNN: Você também estreia no cinema esse ano com “Pecadora”. Como foi essa experiência?Hypólito: Eu gosto muito de diversificar. Não vivo só do teatro musical. Gosto de audiovisual, cinema, teatro de prosa, dublagem. Além de ser uma questão de sobrevivência artística, também é realização pessoal. Filmar “Pecadora” foi muito desafiador porque aconteceu justamente na época em que eu fazia os testes para o Fiyero. Os personagens eram completamente diferentes.Precisei encontrar contrapontos muito extremos para conseguir fazer os dois. Foi uma experiência incrível. O texto é muito bom, o personagem é muito complexo e estou muito ansioso para que o filme finalmente estreie.CNN: Trabalhar em tantas áreas diferentes é um desafio para você?Hypólito: É bastante desafiador. Ao mesmo tempo em que olho para tudo que realizei e penso “quanta coisa legal”, também tenho aquela sensação de querer fazer sempre melhor. Sempre revisito tudo o que estudei antes de começar um trabalho. Quando volto para o teatro musical, preciso reorganizar o corpo, a voz, entender novamente aquela linguagem. Na minha cabeça existe uma grande biblioteca de conhecimentos que preciso acessar a cada novo projeto para me equalizar. Acho que isso é um gesto de respeito pelo meu trabalho. Quero estar inteiro em cada linguagem.CNN: Para finalizar, o que você pode adiantar sobre os próximos passos da carreira, depois de “Wicked”?Hypólito: Eu ainda não sei exatamente. Existem alguns projetos engatilhados, mas nada fechado. Eu vivo da arte e também sobrevivo dela, então sempre penso alguns meses à frente. Se não aparecer nenhum trabalho em teatro ou audiovisual, vou tocar meus projetos pessoais na música, fazer shows, lançar músicas. Eu raramente fico parado. Alguma coisa sempre vem. Ainda não tenho um projeto tão grande fechado para depois de ‘Wicked’, mas, se isso não acontecer imediatamente, vou seguir investindo na minha carreira musical e nos meus trabalhos autorais.Por que “Wicked: Parte 2” é um dos filmes mais políticos do ano