Pesquisas nos últimos meses podem indicar movimentos que, embora sutis, parecem apontar para um reequilíbrio incomum de forças nas regiõesForam pouco mais de 2,1 milhões de eleitores, o equivalente a 1,8% de todos os votos registrados, que garantiram a vitória presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva contra Jair Bolsonaro em 2022. O recado que veio das urnas naquele 30 de outubro foi claro: quando o cenário político é de extrema polarização, cada eleitor pode ter papel decisivo para determinar o vencedor da corrida. Prestes a enfrentar novamente o teste das urnas, frente a uma população tão radicalizada quanto no pleito anterior, direita e esquerda se deparam com movimentos atípicos no tabuleiro eleitoral que podem custar valiosos votos — o bolsonarismo perde fôlego no Sudeste, onde predominou com força em 2022, enquanto Lula encontra percalços para manter a popularidade em redutos no Nordeste.O alerta para o bolsonarismo no Sudeste foi confirmado na última pesquisa Genial/Quaest publicada na quarta-feira 15 (veja o quadro). Desde abril, Lula cresceu 4 pontos no primeiro turno na região, enquanto Flávio Bolsonaro recuou 8 — com isso, o presidente passou a liderar a corrida presidencial no Sudeste, com 35% das intenções de voto contra 28% do adversário. A vantagem é ligeiramente mais folgada do que há quatro anos, em julho de 2022, quando o petista tinha 38% contra 33% de Jair Bolsonaro, segundo o instituto. Nos últimos três meses, a aprovação à gestão lulista na região mais populosa do país (42% do eleitorado) subiu 6 pontos e a desaprovação caiu 8.O reequilíbrio no Sudeste é puxado pelo fortalecimento da imagem de Lula e seu governo, mas também pela perda de força do bolsonarismo em redutos estratégicos. É o caso do Rio de Janeiro, berço político do clã Bolsonaro, onde sucessivos escândalos levaram próceres da direita ao ostracismo (ou à cadeia) e deixaram Flávio sem um palanque forte no próprio quartel-general. Em contraste, o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), aliado de Lula, é amplo favorito ao governo estadual e aproveita a popularidade para converter votos para o presidente. Segundo o Paraná Pesquisas, a aprovação a Lula no estado foi de 41,4% em abril para 47,9% em julho, enquanto a desaprovação recuou de 55,2% para 49,3%. Flávio também enfrenta dificuldade em Minas Gerais, tradicional fiel da balança na eleição presidencial — sem palanque estadual definido, ainda disputa o eleitorado conservador com o ex-governador e agora presidenciável Romeu Zema (Novo). “Quando faltam palanques fortes, principalmente em grandes estados, a tendência é favorecer quem já controla a máquina. Lula já está investindo nessa estratégia com o ‘pacote de bondades’ do governo, que supera 180 bilhões de reais em 2026”, avalia o cientista político Rubens Figueiredo.INCURSÃO - Flávio com aliados no Ceará: desgaste do petismo abre chance para oposição no Nordeste (Lc Moreira/Thenews2/Folhapress/.)O cenário em São Paulo, que concentra nada menos que um quinto dos eleitores brasileiros, é mais complexo. Atualmente, Lula e Flávio aparecem empatados, com 35% dos votos no primeiro turno, conforme Datafolha de julho. O equilíbrio é uma desagradável surpresa para o bolsonarismo, já que o estado serviu como base do antipetismo nacional pelas últimas três décadas e deu vitória a Jair Bolsonaro por 11 pontos percentuais na última eleição. Por outro lado, o desempenho de Flávio nesta fase supera o de seu pai — em agosto de 2022, também segundo o Datafolha, Lula tinha vantagem de 13 pontos sobre Jair em São Paulo. Como trunfos, Flávio tem o palanque do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), favorito à reeleição, e a forte influência conservadora no interior. Lula, por sua vez, escalou um pelotão de elite de ex-ministros: além de renovar a chapa presidencial com Geraldo Alckmin (PSB), governador paulista por quatro mandatos e com bom trânsito entre prefeitos do interior, o petista lançou Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) ao Senado e indicou Márcio França (PSB), também ex-governador, para vice de Fernando Haddad (PT) na disputa ao governo. As pesquisas mostram que a chapa de ex-ministras vem liderando a corrida pelas duas vagas ao Senado, mas Haddad enfrenta dificuldades e pode perder a eleição para Tarcísio ainda no primeiro turno.Já no Nordeste, tradicional reduto petista, há sinais de alerta para Lula. As pesquisas revelam um movimento crescente, embora sutil, de insatisfação com o governo: dentre todas as regiões, é a única onde a desaprovação ao terceiro mandato do petista cresceu continuamente desde abril e, também, onde o índice de aprovação recuou no mesmo período. O pêndulo, ao menos por ora, continua balançando para o lado petista, mas é improvável que Lula tenha votações tão altas na região como teve em 2022, quando rondou os 70% na maioria dos estados. O investimento em programas sociais na região, que alavancou sua popularidade em outros tempos — 45% dos beneficiários do Bolsa Família são do Nordeste —, já não se revela tão certeiro. Segundo pesquisa BTG/Nexus da última semana, o percentual de eleitores desse grupo que apoia o petista no primeiro turno caiu de 68% em junho para 58% em julho, enquanto o de apoiadores de Flávio quase dobrou, saltando de 13% para 25%.IMPACTO - Wagner em campanha na Bahia: investigação contra ele afeta o PT (@jaqueswagner/Instagram)Há um outro problema entre o eleitorado do Nordeste. A despeito da imbatível força eleitoral de Lula na região, onde lidera com mais de 30 pontos de vantagem no primeiro turno, sua popularidade não tem se traduzido em votos para aliados petistas nas corridas estaduais. Dois casos emblemáticos ocorrem no Ceará, onde o governador Elmano de Freitas empata com o ex-governador Ciro Gomes (PSDB), e na Bahia, onde o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil) encabeça as pesquisas e pode desbancar o governador Jerônimo Rodrigues e as duas décadas de hegemonia do PT baiano. Não por acaso, ambos os estados enfrentam grave crise na segurança pública, com avanço das facções do narcotráfico — o fracasso das prolongadas gestões petistas em combater o problema alimenta a renovação política. “Lula tem uma liderança personalista maior do que o próprio PT no Nordeste, mas a longevidade dos governos petistas na região favorece o surgimento de lideranças da oposição”, avalia o cientista político Eduardo Grin, da FGV-SP. Na Bahia, pesa também a investigação da Polícia Federal contra Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Congresso e pré-candidato ao Senado, por suspeitas envolvendo o Banco Master: segundo a Genial/Quaest, 62% dos eleitores avaliam que o episódio afeta negativamente a campanha de Lula. A Bahia é o maior colégio eleitoral do Nordeste e o quarto maior do país.No caso do Sudeste, um fator que pode ter contribuído para a mudança de humor é o comportamento do eleitor independente, mais focado em indicadores concretos como segurança, saúde e economia do que em disputas ideológicas. O retrato atual mostra vantagem de Lula: de abril a julho, em simulação de segundo turno contra Flávio, o petista saltou de 26% para 40% (enquanto o rival foi de 33% para 27%) entre esse eleitorado autodeclarado independente, que representa cerca de um terço da população. Segundo a pesquisa BTG/Nexus, nada menos que 45% desse contingente não polarizado está na região Sudeste.ESTRATÉGIA - Tebet: com Marina Silva e Fernando Haddad, ela integra a tropa de elite do lulismo em São Paulo (Rafaela Araújo/Folhapress/.)As pesquisas, como se sabe, não são garantia de resultados definitivos, pois mostram apenas um momento da campanha. Mas as linhas do tempo nos últimos meses podem indicar movimentos que, embora sutis, parecem apontar para um reequilíbrio incomum de forças nas duas maiores regiões do país, que reúnem 70% do eleitorado total. Se esse pêndulo é fruto de questões circunstanciais ou se vai se consolidar como movimentos definitivos, o tempo e as urnas dirão.O post Lula ultrapassa Flávio no Sudeste, mas enfrenta desgaste no Nordeste, antigo reduto apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.