O governo do Rio de Janeiro acusa uma empresa de pagamentos que tem entre os acionistas o advogado Willer Tomaz, amigo do senador Flávio Bolsonaro (PL), de sumir com R$ 20,9 milhões pertencentes ao estado. Uma apuração administrativa da Loteria do Estado do Rio (Loterj) concluiu que a RioPag realiza retenção indevida de recursos públicos e encaminhou o caso à Procuradoria-Geral do Estado (PGE-RJ), que o trata como apropriação indébita, que é crime pelo código penal.A verba é relativa a um altamente rentável contrato pelo qual a RioPag tem o monopólio do serviço de processamento de pagamentos de apostas e prêmios no estado. O repasse da porcentagem devida à Loterj está represado desde janeiro de 2025. Quando a nova gestão do governo do Rio pediu o imediato pagamento, em abril, a RioPag alegou que não tem a verba à mão, já que supostamente a investiu em ativos sem liquidez. Até hoje, não explicou onde exatamente está o dinheiro.Ao mesmo tempo, os donos da RioPag montaram uma empresa de recuperação de créditos judiciais, comprando dívidas que há muito tempo são discutidas na Justiça. Em seu site, essa empresa diz que já realizou mais de 200 operações, com 98% de sucesso, mas a coluna só localizou peticionamentos em processos a partir deste ano, e somente em dois casos, um deles por crédito adquirido em fevereiro do escritório de Eugênio Aragão, sócio de Tomaz e ex-ministro da Justiça do governo Dilma (PT)Antes chamada Pixs Cobrança e Serviços em Tecnologia, a agora renomeada RioPag é uma sociedade anônima que pertence à Capital Pretium SA (antes Pix Holding SA), por sua vez administrada por Lidia Mazelli, que atua como administradora profissional para Willer Tomaz, entre outros, na WT, a empresa dona da mansão em Angra dos Reis (RJ) reclamada pelo atacante Richarlison.À coluna, Tomaz confirmou ser um dos acionista do fundo dono da Capital Pretium – consequentemente, da RioPag -, mas não informou o nome do fundo nem quem são seus parceiros no negócio. Também disse defender judicialmente a RioPag através do seu escritório, mas que não responde por ela administrativamente.Ele e Flávio Bolsonaro são amigos próximos. O candidato à presidência disse, na CPI da Pandemia, que outro senador tentava o atingir ao perguntar a testemunhas sobre seu “amigo” Tomaz. Matéria recente do Estadão mostrou que Flávio e família voaram duas vezes em jatinhos com Willer no ano passado, uma delas para ir aos EUA de férias.Monopólio e mina de ouroO monopólio na intermediação de pagamentos entre apostadores e bets, com taxas até 11 vezes mais caras do que as praticadas no mercado, foi uma decisão da gestão Cláudio Castro (PL), que abriu concorrência para ser vencida por quem oferecesse repassar uma fatia maior do faturamento para o estado. Na época, a Loterj era presidida por Hazenclever Lopes Cançado, que agora está em pré-campanha para deputado federal pelo PL de Flávio Bolsonaro.A RioPag ofereceu 20,000% e venceu graças à eliminação da única concorrente, que ofertou 26,00% e foi desclassificada porque o edital exigia três dígitos depois da vírgula, e a empresa só colocou dois, conforme revelou a Folha em 2024. A RioPag acabou fechando contrato com o compromisso de repassar 26,455% do que arrecadasse à Loterj.O contrato – que custava às bets mais do que o imposto federal – previa que as transferências para a conta do estado acontecessem mensalmente, até o quinto dia útil. Mas, em janeiro de 2025, os repasses fossem suspensos. Naquele momento, a PixBet havia dado um calote nos tributos devidos ao estado e a autarquia solicitou que a RioPag criasse um mecanismo para custodiar o dinheiro devido pelas bets em impostos para evitar que a situação se repetisse.No mesmo documento, sem explicação, pediu a criação de um mecanismo para a RioPag custodiar também o dinheiro do estado, que, em crise financeira, decidiu que não precisava daqueles então R$ 4 milhões por mês. A RioPag respondeu brevemente informando ter realizado “a abertura de subconta no dashboard Riopag, visando o cumprimento de custodiar de imediato os recursos devidos a Loterj”, sem fornecer qualquer outro detalhe sobre como se daria a custódia.Havia a expectativa, a partir daquele mês, de a receita com apostas multiplicar-se no estado, com a homologação das primeiras máquinas de “videoloterias”, simulacros de caça-níqueis operados por empresa ligada a herdeiros da antiga cúpula do Jogo do Bicho – na prática, seria o início da incorporação das máquinas dos bicheiros ao sistema legal, com a RioPag mordendo 1% de cada depósito e 0,5% de cada saque.Estado pede para RioPag liberar o dinheiroEm abril deste ano, já sob a gestão do desembargador Ricardo Couto de Castro, o governo do Rio identificou que não fazia sentido deixar o dinheiro do estado com a RioPag e determinou que os R$ 18,5 milhões então represados deveriam ser transferidos imediatamente. Mas a RioPag nem respondeu.Uma nova notificação foi enviada em 29 de abril, dando prazo improrrogável de 48 horas. Só aí a RioPag começou a se justificar. Disse que a devolução imediata exigiria tempo para conversão de ativos em caixa, pois uma estrutura financeira foi montada pensando em custódia de longo prazo, exatamente o oposto do que previa o contrato.A empresa, que nunca explicou onde colocou o dinheiro, fez então uma proposta: devolveria o saldo acumulado, mas em suaves parcelas, até o final do contrato, em 2029. A Loterj recusou, lembrando que a RioPag declarava reiteradamente que “o recurso ficava à disposição da LOTERJ para transferências imediatas a qualquer momento“. Desde abril, os repasses mensais foram regularizados, mas o saldo acumulado até ali nunca foi pago.No final de maio, a Loterj instaurou um Processo Administrativo Sancionatório (PAS) por inadimplemento grave, citando inclusive o risco de configuração de apropriação indébita, que é crime pelo código penal. Naquele momento, com multas e juros o valor já passava de R$ 20,9 milhões.Em uma tentativa de conciliação, a RioPag apresentou um cronograma de repasse: quatro parcelas mensais de R$ 2 milhões e o saldo restante em outubro de 2026, o que foi classificado pela Loterj como uma “tentativa unilateral de postergar o pagamento de verba pública”. O caso foi enviado à Procuradoria Geral do Estado (PGE/RJ) para o ajuizamento de medidas judiciais urgentes.RioPag ganha mais com bets do que o estadoO monopólio na intermediação de pagamentos para as bets é uma mina de ouro para a RioBet e um óbvio contrassenso para o estado do Rio, que sempre vendeu sua licença para bets como sendo mais barata do que a emitida pela União. A vantagem do Rio, dizia o governo, era a alíquota baixa, de 5% sobre a receita líquida, enquanto a União cobra 12%. Até que as bets descobriram o custo “RioPag”.Pelo contrato com a Loterj, a intermediadora deveria cobrar entre 2,5% e 1% de taxa em cada depósito de um apostador em uma bet e de 1% a 0,5% de cada saque, uma enormidade na comparação com os 0,20% que são praxe no livre mercado. Em um mês como agosto de 2024, quando o GGR (receita líquida) das bets fluminenses foi de R$ 40 milhões, isso significava R$ 6,8 milhões em taxas, um impacto de 17% sobre a receita líquida das bets. Era mais caro para uma bet pagar a RioPag do que pagar o polêmico imposto federal.Quem apontou isso à Loterj foi a própria RioPag. Mas a solução, segundo ela, não era reduzir as taxas para perto dos 0,20% cobrados no mercado, mas manter as taxas em 1% para depósitos e 0,5% para saques, cortando pela metade o repasse à autarquia. A Loterj topou a primeira parte, mas não a segunda.Ficou assim: se em um mês as receita líquida das bets fluminenses é de R$ 40 milhões, elas precisam pagar R$ 4,8 milhões entre intermediação e imposto estadual. Desse montante, R$ 2,7 milhões ficam com o estado e R$ 2,1 milhões com a RioPag, que tem a única função de intermediar os pagamentos. Nacionalmente, o mesmo GGR custaria R$ 5,5 milhões às bets na soma de custos de intermediação e impostos. Com uma sutil diferença: pelo modelo federal, a União arrecada seis vezes mais do que a intermediadora.O que dizem os envolvidosA Loterj afirmou em nota (leia abaixo) que concluiu a apuração administrativa sobre a retenção indevida de recursos públicos pela RioPag. e encaminhou o caso à Procuradoria-Geral do Estado, responsável por adotar as medidas judiciais necessárias para a recuperação dos valores.Procurado pela coluna, Tomaz disse que advoga para a RioPag, mas não responde administrativamente pela empresa. Segundo ele, no final da semana passada, a RioPag teria apresentado à Loterj a explicação para o destino dos R$ 20,9 milhões: eles estariam investidos no Banco Santander, com cláusula para liquidação seis meses após a solicitação de resgate, ou seja, em 30 de outubro. Essa informação não aparece em nenhum documento enviado pela RioPag à Loterj no processo.Apresentando-se como CEO da RioPag, Luiz Allan Sergio e Medeiros enviou nota afirmando que “os recursos em questão encontram-se integralmente preservados e rentabilizados, sob regime de custódia implementado em 2025 por determinação formal da própria Loterj, como mecanismo de controle, segurança e rastreabilidade dos valores” – leia a nota completa abaixo.Questionado sobre onde os valores estão investidos, afirmou que “não divulga publicamente dados bancários específicos por dever de sigilo”. Ele não explicou por que também não divulga a informação à própria Loterj, titular dos valores. Mas fez questão de enviar à coluna uma decisão judicial que retirou do ar matéria da Agência Pública a respeito da RioPag, sem detalhar a razão do envio.Hazenclever Cançado, responsável direto por autorizar que a RioPag deixasse de repassar dinheiro à Loterj, não respondeu às tentativas de contato.Nota da Loterj:A Loteria do Estado do Rio de Janeiro (LOTERJ) informa que concluiu a apuração administrativa sobre a retenção indevida de recursos públicos pela RIOPAG S.A. e encaminhou o caso à Procuradoria-Geral do Estado (PGE-RJ), responsável por adotar as medidas judiciais necessárias para a recuperação dos valores. O montante atualizado é de R$ 20,9 milhões, conforme levantamento da Assessoria de Contabilidade e Finanças da Autarquia.Inicialmente, os recursos eram repassados mensalmente à LOTERJ. Em seguida, por decisão da própria Autarquia, passaram a ser mantidos em uma subconta de custódia, como medida excepcional e temporária para fortalecer os controles financeiros e ampliar a segurança das operações. Superada essa etapa, a fiscalização concluiu pela necessidade de transferência integral dos valores aos cofres públicos. A Presidência da LOTERJ formalizou essa determinação por meio de ofícios, mas a RIOPAG realizou apenas repasses parciais, embora tenha reconhecido possuir capacidade operacional para efetuar as transferências, propondo devolução parcelada sem previsão contratual.A RIOPAG é uma empresa privada contratada por meio de licitação pública para prestar serviços de processamento de pagamentos à LOTERJ. Informações sobre sua composição societária constam dos registros oficiais competentes. A LOTERJ reafirma seu compromisso com a proteção do patrimônio público e a adoção de todas as medidas necessárias para resguardar os interesses da sociedade fluminense.Nota da RioPagA RIOPAG esclarece que não há qualquer dívida, inadimplemento ou retenção indevida de valores perante a LOTERJ.Os recursos em questão encontram-se integralmente preservados e rentabilizados, sob regime de custódia implementado em 2025 por determinação formal da própria LOTERJ (Ofício LOTERJ/DIRA nº 10/2025), como mecanismo de controle, segurança e rastreabilidade dos valores.Em abril de 2026, a LOTERJ alterou essa orientação e determinou o retorno ao modelo de repasse direto. A RIOPAG acatou imediatamente: os repasses mensais foram restabelecidos de pronto e foi solicitado o resgate do montante custodiado, aplicado em fundo com proteção de capital que possui, por regra do próprio produto financeiro, prazo de carência de seis meses — com liquidação em outubro de 2026, e mantém total transparência sobre a aplicação, com relatórios e acesso permanente à disposição da LOTERJ, que receberá os valores não apenas protegidos, mas rentabilizados.Por fim, a RIOPAG registra que adotará todas as medidas judiciais cabíveis contra a divulgação de informações inverídicas ou distorcidas sobre os fatos aqui esclarecidos, como já ocorreu em situação anterior, na qual decisão judicial impôs multa diária a veículo de imprensa que publicou conteúdo indevido a respeito da empresa.