Andy Burnham foi confirmado como o novo líder do Partido Trabalhista, atualmente no governo do Reino Unido, e se tornará o sétimo primeiro-ministro do país em uma década de instabilidade política ao suceder Keir Starmer nesta segunda-feira (20).Embora a confirmação oficial da ascensão de Burnham tenha ocorrido apenas na sexta-feira (17), na prática, ele já era o líder designado do partido desde que venceu uma eleição parcial crucial no mês passado, o que lhe permitiu retornar ao Parlamento e desafiar Starmer.Os resultados desastrosos do Partido Trabalhista nas eleições locais de maio foram vistos como um indício do que poderia acontecer se Starmer — amplamente impopular, apesar de ter conquistado uma vitória eleitoral esmagadora dois anos antes — liderasse o partido na próxima eleição nacional. Burnham, então prefeito da grande Manchester, surgiu como a melhor alternativa viável na busca do partido por um novo líder. Leia Mais Andy Burnham se torna novo líder do Partido Trabalhista no Reino Unido Burnham é apoiado por maioria e deve assumir o governo do Reino Unido Principal rival de Starmer conquista cadeira no parlamento do Reino Unido Uma eleição parcial foi articulada: seu aliado Josh Simons renunciou ao cargo de deputado por Makerfield — uma região histórica de forte influência trabalhista no norte da Inglaterra, onde o partido populista de ultradireita Reform UK vem ganhando força — e Burnham saiu vitorioso de uma disputa que atraiu grande atenção.Apesar de ter prometido permanecer no cargo, Starmer anunciou sua intenção de renunciar dias depois.Ao vencer em Makerfield, Burnham demonstrou aos parlamentares trabalhistas, receosos de perderem seus assentos na próxima eleição geral, que ele poderia enfrentar o Reform UK, partido que liderava as pesquisas de opinião nacionais há meses.A eleição para a liderança rapidamente se transformou em uma aclamação, com uma maioria incontestável dos 403 parlamentares do partido apoiando Burnham.Ele assumirá o cargo na Downing Street, nº 10, na segunda-feira, coroando uma longa carreira política.Durante sua primeira passagem por Westminster, entre 2001 e 2017, integrou os gabinetes de Tony Blair e Gordon Brown, chegando a ocupar o cargo de Ministro da Saúde e concorrendo duas vezes, sem sucesso, à liderança do Partido Trabalhista.Pouco depois de sua segunda tentativa, ele retornou ao noroeste da Inglaterra, sua região de origem, e candidatou-se ao recém-criado cargo de prefeito de Manchester em 2017.Lá, ele se estabeleceu como um contraponto a Westminster, evidenciando a profunda divisão norte-sul do país e ganhando a alcunha de “Rei do Norte”.A economia e a rede de transporte público de Manchester prosperaram sob sua gestão. Ao contrário de Starmer, Burnham tem uma narrativa clara — a descentralização de poder para além de Londres — que permeia suas políticas.Maiores desafios de Andy Burnham no Reino UnidoNo entanto, as armadilhas que derrubaram Starmer espreitam a maioria das questões que Burnham precisa enfrentar.Promessas feitas em um discurso de junho — como intensificar a construção de habitações sociais, a reindustrialização e colocar serviços públicos essenciais sob maior controle estatal — precisam ser financiadas, de alguma forma, em meio às mesmas restrições orçamentárias que prejudicaram Starmer.“As pessoas têm a sensação subjacente de que o Estado não está funcionando muito bem no momento”, disse Simon Kaye, diretor de políticas do think tank Re:State, apontando para as dificuldades enfrentadas pela economia, pelo NHS (Serviço Nacional de Saúde) e pelo sistema de assistência social.Uma análise importante sobre os custos crescentes da previdência social deve apresentar resultados no outono, provavelmente forçando decisões difíceis — especialmente para um novo primeiro-ministro de centro-esquerda ciente dos custos políticos que seu antecessor enfrentou ao tentar cortar gastos com assistência social.Além disso, por uma coincidência de cronograma, Burnham assume o cargo justamente quando reformas significativas na imigração tramitam no Parlamento, obrigando-o a definir imediatamente sua posição sobre essa questão altamente controversa.Ainda assim, embora Burnham atue no mesmo ambiente que Starmer, ele é considerado um comunicador melhor do que seu antecessor tecnocrata.“Este é, na verdade, um experimento em tempo real sobre a importância do mensageiro”, disse Kaye à CNN.“A questão da descentralização de poder já está em andamento sob a gestão de Starmer. Burnham vai impulsioná-la com mais força e falar muito mais sobre o assunto”, afirmou.“As restrições fiscais continuarão as mesmas… Portanto, qual é a importância — para a bancada parlamentar do Partido Trabalhista e para o sentimento nacional — de o mensageiro ser apenas um pouco mais carismático?”, acrescentou.Os ventos contrários na economia — incluindo os reflexos do Brexit, da pandemia de Covid e da crise energética provocada pela invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia — permanecem tão fora do controle de Burnham quanto estavam para Starmer.Anos de austeridade após a crise financeira de 2008 fizeram com que o crescimento econômico — e a renda das famílias — estagnassem em grande parte desde então.Além disso, o cenário internacional é tão imprevisível que tentativas de revitalização econômica podem rapidamente fracassar. Embora a previsão seja de que o Reino Unido apresente a terceira maior taxa de crescimento do G7 este ano, a alta nos preços da energia desencadeada por um conflito envolvendo o Irã poderia facilmente alterar esse quadro.Em muitos aspectos, a Grã-Bretanha ainda tenta assimilar sua condição de potência média, com pouca capacidade de influenciar os assuntos globais.Disputas orçamentárias recentes sobre o aumento dos gastos com defesa — que não garantiram o compromisso do Reino Unido com as metas de investimento da Otan em um momento de continuidade das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio — ilustram bem essa situação.Até mesmo as duas relações diplomáticas mais importantes do país — com os Estados Unidos e a Europa — tornaram-se complexas para os primeiros-ministros devido à influência combinada do Brexit e da administração Trump.Não é apenas na geopolítica que Burnham terá de lidar com uma relação potencialmente delicada com a administração Trump, da qual ele já foi crítico.O setor de tecnologia também foi envolvido nessa dinâmica: a intenção do Partido Trabalhista de proibir o acesso de menores de 16 anos a redes sociais — a maioria pertencente a empresas americanas — gerou oposição da embaixada dos EUA em Londres, e a questão do acesso a modelos de inteligência artificial pode se tornar outro ponto de atrito.Assim como seu antecessor, Burnham assume o cargo em um momento em que a Grã-Bretanha clama por mudanças. A concretização dessas mudanças pode depender tanto de fatores alheios ao controle do governo quanto da atuação do próprio líder.Conheça Andy Burnham, futuro primeiro-ministro do Reino Unido