Por detrás de uma das bebidas mais antigas da história humana existe uma das maiores indústrias alimentares do planeta. Uma indústria que envolve agricultores, produtores de lúpulo e cevada, fabricantes de vidro, alumínio e cartão, empresas de logística, distribuidores, cadeias de supermercados, restaurantes, hotéis, bares, plataformas digitais e milhares de pequenas empresas que vivem, direta ou indiretamente, da produção e comercialização de cerveja.Poucos produtos conseguem reunir uma pegada económica tão abrangente. A cerveja além de ser uma bebida, é uma cadeia de valor que liga o setor primário à indústria transformadora, alimenta o turismo, gera receitas fiscais significativas para os Estados e emprega milhões de pessoas em praticamente todos os continentes. Apesar de muitos setores tradicionais enfrentarem dificuldades estruturais, continua a revelar uma capacidade notável de adaptação, reinventando-se perante consumidores mais exigentes, novas tendências de consumo e desafios ambientais cada vez mais complexos.Uma indústria que vale centenas de milhares de milhõesÀ escala mundial, o mercado da cerveja representa atualmente um negócio avaliado em várias centenas de milhares de milhões de euros anuais, dependendo da metodologia utilizada pelas diferentes consultoras internacionais. As estimativas mais recentes convergem num ponto essencial: apesar de algum abrandamento nos mercados maduros, a indústria continua a crescer, impulsionada sobretudo pela Ásia, América Latina e África, enquanto o segmento premium e a cerveja sem álcool assumem um peso crescente nas receitas.Esta dimensão económica ajuda a explicar porque razão algumas das maiores empresas do setor alimentar mundial pertencem precisamente ao universo cervejeiro. Gigantes como a AB InBev, a Heineken, a Carlsberg, a Asahi ou a Molson Coors operam em dezenas de países, gerem centenas de marcas e movimentam cadeias logísticas que atravessam continentes. Em muitos casos, a produção é local, reduzindo custos de transporte e protegendo parcialmente estas empresas de fenómenos como tarifas comerciais ou conflitos geopolíticos, uma estratégia que tem reforçado a sua resiliência nos últimos anos.Ao contrário de outros segmentos alimentares altamente dependentes da exportação, a indústria cervejeira caracteriza-se por uma forte descentralização produtiva. As grandes multinacionais mantêm fábricas distribuídas pelos principais mercados onde operam, comprando frequentemente matérias-primas a agricultores locais e abastecendo redes nacionais de distribuição. Esta proximidade reduz custos, diminui emissões associadas ao transporte e permite responder com maior rapidez às mudanças na procura.A própria estrutura financeira do setor explica parte da sua estabilidade. Embora as vendas possam oscilar em períodos de recessão, a cerveja continua a integrar a categoria dos chamados bens de consumo recorrente, beneficiando de uma procura relativamente constante. Em momentos de crescimento económico, os consumidores tendem a consumir produtos premium; em períodos mais difíceis, privilegiam marcas mais acessíveis, mas raramente abandonam totalmente a categoria.Seis mil anos de história transformados numa potência económicaMuito antes de existirem bolsas de valores ou multinacionais, já a cerveja desempenhava um papel relevante nas primeiras economias organizadas.Os arqueólogos situam o nascimento da bebida há cerca de seis mil anos, na antiga Mesopotâmia. Desde então, acompanhou praticamente todas as grandes civilizações: egípcios, gregos, romanos, monges medievais e, mais tarde, a Revolução Industrial, que transformaria um produto artesanal numa mercadoria produzida em larga escala.A industrialização da cerveja, sobretudo a partir do século XIX, coincidiu com profundas transformações tecnológicas. A introdução da refrigeração artificial, dos sistemas modernos de fermentação e da pasteurização permitiu aumentar drasticamente a produção e garantir uma qualidade uniforme. Nascia uma indústria moderna que rapidamente ultrapassaria fronteiras nacionais. Hoje, mais do que uma herança cultural, a cerveja representa um verdadeiro ecossistema económico.A Europa continua a ser o grande laboratório da cervejaEmbora a Ásia concentre atualmente o maior volume de consumo mundial, é na Europa que a cerveja mantém algumas das suas raízes económicas e culturais mais profundas.A União Europeia produziu, apenas em 2024, 34,7 mil milhões de litros de cerveja, dos quais 32,7 mil milhões correspondiam a cerveja com teor alcoólico superior a 0,5%, enquanto cerca de 2 mil milhões de litros já pertenciam ao segmento das cervejas sem álcool ou de baixo teor alcoólico. Este último registou um crescimento anual superior a 11%, revelando uma das mudanças mais significativas no comportamento dos consumidores europeus.A distribuição da produção revela igualmente a geografia industrial do setor. A Alemanha continua a liderar destacadamente, produzindo cerca de 7,2 mil milhões de litros, o equivalente a mais de um quinto de toda a produção europeia. Seguem-se Espanha, Polónia, Países Baixos e Bélgica, países onde a cerveja representa simultaneamente tradição, indústria exportadora e importante fonte de receitas fiscais.É curioso verificar que alguns dos maiores produtores não são necessariamente os maiores consumidores. A República Checa, por exemplo, mantém há décadas um dos mais elevados consumos per capita do mundo, enquanto economias muito maiores concentram volumes de produção destinados sobretudo à exportação.Exportar cerveja também é fazer política económicaQuando se observa o mapa das exportações europeias percebe-se que a cerveja deixou há muito de ser apenas um produto alimentar. Os Países Baixos lideram atualmente as exportações de cerveja da União Europeia, seguidos muito de perto pela Alemanha e pela Bélgica. França, por sua vez, assume a posição de maior importador europeu, ilustrando a intensa circulação comercial existente dentro do mercado único europeu.Esta dinâmica revela um aspeto frequentemente esquecido: a cerveja tornou-se também um instrumento de competitividade internacional. Para países como Bélgica, Irlanda, Alemanha ou Países Baixos, as exportações cervejeiras representam milhares de postos de trabalho, investimento industrial e criação de valor acrescentado. Muitas das marcas mais conhecidas do mundo funcionam hoje como verdadeiros embaixadores económicos dos respetivos países, reforçando simultaneamente a imagem nacional e as receitas externas.A internacionalização das grandes cervejeiras acompanha ainda outra tendência: a consolidação empresarial. Nas últimas décadas, fusões e aquisições transformaram profundamente o setor, reduzindo o número de grandes operadores globais mas aumentando significativamente a sua escala internacional.Muito mais do que fábricasSeria um erro medir a importância económica da cerveja apenas através das vendas. A verdadeira dimensão do setor encontra-se na multiplicação de atividades que dependem da sua existência. Antes mesmo de chegar às cervejeiras, existe uma vasta economia agrícola dedicada ao cultivo da cevada, do trigo, do milho e do lúpulo. Depois surgem os fabricantes de garrafas de vidro, latas de alumínio, barris de aço inoxidável, rótulos, embalagens de cartão e equipamentos industriais. A estes juntam-se operadores logísticos, transportadoras, distribuidores grossistas, cadeias de frio, empresas de marketing, agências de publicidade, plataformas digitais e milhares de estabelecimentos de restauração.A cerveja é igualmente um importante contribuinte fiscal. Em praticamente todos os países europeus, cada garrafa incorpora IVA e impostos especiais sobre o álcool, constituindo uma fonte relevante de receita pública. Não por acaso, as diferenças fiscais explicam também porque razão o preço da mesma cerveja pode variar tão significativamente entre países vizinhos, uma realidade que será analisada na segunda parte desta reportagem.A tudo isto soma-se um efeito multiplicador menos visível, mas igualmente importante: o turismo. Festivais internacionais, rotas cervejeiras, visitas a fábricas históricas e eventos como a Oktoberfest transformaram a cerveja num ativo económico para inúmeras cidades europeias, atraindo milhões de visitantes e alimentando setores tão diversos como a hotelaria, a restauração e os transportes.Uma cerveja, muitos preçosQuando se analisam os preços médios praticados na Europa, percebe-se que a cerveja funciona quase como um pequeno retrato da economia de cada país.Os países da Europa Central e de Leste continuam a oferecer alguns dos preços mais baixos do continente. República Checa, Roménia, Bulgária, Hungria ou Eslováquia beneficiam de custos laborais inferiores, menor pressão fiscal sobre o consumo e uma forte tradição de produção nacional, fatores que contribuem para manter os preços relativamente acessíveis.No extremo oposto surgem países como Islândia, Noruega, Finlândia, Irlanda ou Suíça, onde os elevados salários, a tributação sobre o álcool e os custos operacionais fazem disparar o preço final pago pelo consumidor. Em muitos destes mercados, uma cerveja num bar pode custar quatro ou cinco vezes mais do que em Praga ou Sófia.Portugal situa-se numa posição intermédia. Continua a apresentar preços competitivos quando comparado com grande parte da Europa Ocidental, sobretudo no canal da restauração tradicional, embora a inflação dos últimos anos tenha reduzido parte dessa vantagem. Segundo o Eurostat, os preços das bebidas alcoólicas em Portugal permanecem abaixo da média da União Europeia, mas têm acompanhado a tendência de subida observada na maioria dos Estados-membros, impulsionada pelo aumento dos custos energéticos, das matérias-primas e da logística.Ainda assim, reduzir a diferença entre países à simples questão do preço seria um erro. O valor pago por uma cerveja incorpora muito mais do que o líquido servido no copo. Inclui impostos especiais sobre o álcool, IVA, renda do estabelecimento, salários dos trabalhadores, custos de distribuição, energia para refrigeração e até a política de margens praticada pelos operadores turísticos.Por outras palavras, uma cerveja acaba por refletir a própria estrutura económica do país onde é consumida.Portugal: um mercado pequeno com ambição exportadoraEmbora distante da dimensão dos grandes produtores europeus, Portugal construiu uma indústria cervejeira sólida e altamente profissionalizada.Durante décadas, o mercado nacional desenvolveu-se em torno de duas grandes marcas – Super Bock e Sagres – cuja rivalidade comercial moldou o consumo interno e ajudou a criar uma cultura cervejeira particularmente forte. Ambas pertencem hoje a grupos empresariais com capacidade industrial significativa, investem na modernização das fábricas e reforçaram, nos últimos anos, a presença internacional.As exportações portuguesas de cerveja cresceram de forma consistente ao longo da última década, beneficiando sobretudo da procura nos mercados lusófonos, das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e do crescente interesse internacional pelos produtos alimentares portugueses. Em paralelo, o turismo desempenha um papel cada vez mais relevante. Todos os anos, milhões de visitantes experimentam marcas nacionais durante as férias, contribuindo para a notoriedade internacional do setor.Ao mesmo tempo, Portugal assistiu ao aparecimento de dezenas de cervejeiras artesanais. Embora representem apenas uma pequena fração do mercado total, trouxeram diversidade, inovação e novos modelos de negócio, aproximando-se do fenómeno já consolidado nos Estados Unidos, Reino Unido ou Bélgica.A lógica económica também mudou. Se anteriormente a competição se fazia sobretudo pelo preço e pela dimensão da produção, hoje diferenciação, experiência e qualidade assumem um peso crescente na estratégia comercial.A geração que está a mudar o mercadoDurante décadas, o crescimento da indústria cervejeira parecia praticamente garantido. As novas gerações, porém, começaram a alterar esse paradigma. Diversos estudos internacionais mostram que a Geração Z consome menos álcool do que as gerações anteriores. A preocupação com a saúde, o bem-estar físico, a imagem pessoal e a produtividade influencia cada vez mais as escolhas dos consumidores mais jovens. Em muitos mercados desenvolvidos, esta tendência já se traduz numa redução do consumo per capita de cerveja tradicional.As grandes cervejeiras responderam rapidamente. Em vez de insistirem apenas no aumento do volume vendido, passaram a apostar em produtos de maior valor acrescentado: cervejas premium, especiais, artesanais, sabores diferenciados e, sobretudo, cervejas sem álcool. Hoje, praticamente todos os grandes fabricantes internacionais tratam este segmento como uma prioridade estratégica.Um setor que continua a desafiar previsõesAo longo da história recente, a indústria da cerveja sobreviveu a guerras mundiais, recessões económicas, crises financeiras, pandemias, inflação, aumentos do preço da energia e profundas mudanças sociais. Em cada uma dessas fases, reinventou-se.Hoje enfrenta um novo ciclo de transformação. Os consumidores bebem de forma diferente, procuram produtos mais saudáveis, exigem práticas ambientais responsáveis e valorizam experiências acima da quantidade. Ainda assim, poucas indústrias conseguem combinar tradição, inovação e impacto económico de forma tão consistente.Mais do que uma bebida, tornou-se um dos exemplos mais bem-sucedidos de como um produto ancestral conseguiu adaptar-se às exigências de um mundo globalizado. Enquanto houver agricultores a cultivar cevada, engenheiros a aperfeiçoar processos produtivos, empresários dispostos a inovar e consumidores à procura de um momento de convívio, dificilmente deixará de ocupar um lugar de destaque na economia mundial e muito antes de tocar nos lábios de quem a bebe, cada cerveja já percorreu campos agrícolas, fábricas, estradas, portos e armazéns, sustentando uma economia que raramente cabe dentro de um copo.O conteúdo Quanto vale afinal uma cerveja? A economia por detrás de uma bebida universal aparece primeiro em Revista Líder.