Apesar de Sword Art Online ter rendido vários jogos baseados em seus animes, sinto que, como fã, faltava um título que pudesse apresentar a ótima premissa da série e atrair marinheiros de primeira viagem. Por mais “mastigados” que os games fossem, ainda era de se esperar alguma familiaridade com Kirito e companhia.Echoes of Aincrad chega justamente para preencher a lacuna existente na vasta biblioteca de adaptações de Sword Art Online. É uma aventura single-player formatada como um MMORPG, em que o mundo e a história assumem o protagonismo em detrimento dos próprios personagens.Desenvolvido pela Game Studio Inc., até então uma produtora japonesa voltada ao suporte de outras produções, Echoes of Aincrad sintetiza bem a experiência de estar preso em um ambiente virtual que pode custar a vida de seus jogadores. Poder acompanhar a jornada vivida por Kirito sob a ótica de um jogador “comum” faz do game uma boa porta de entrada para a série.Echoes of Aincrad: um convite a novos jogadoresMuito além de uma mera adaptação do anime, Echoes of Aincrad traz uma visão própria dos acontecimentos do primeiro arco de Sword Art Online, reimaginando alguns aspectos que compõem a história original. Embora Kirito e outros rostos importantes não tenham participação direta, eles são mencionados em certos trechos da narrativa, muitas vezes como puro fanservice.A ideia central, no entanto, permanece a mesma: você embarca em um MMORPG por meio do NerveGear, um dispositivo de realidade virtual que interage com o cérebro do usuário, e acaba impedido pelo desenvolvedor do SAO de se desconectar. A única forma de sair ileso, tanto na vida virtual quanto na real, é concluindo a aventura.Como manda a cartilha da maioria dos MMORPGs “reais”, Aincrad não tem uma trama memorável nem nada disso, mas cumpre o seu propósito de dar sentido às tarefas dentro do jogo. Você tem autonomia para criar um avatar do zero, o que representa um avanço para a franquia, mas à custa de um protagonista silencioso e de pouco carisma.Para equilibrar a balança, há ótimos personagens secundários, muitos dos quais podemos recrutar para compor a nossa equipe e que, em termos narrativos, assumem a dianteira quando o grupo precisa ganhar voz. Echoes of Aincrad coloca você em uma posição privilegiada como espectador, embora continue sendo um coadjuvante da própria jornada.Gameplay e progressãoSe por um lado o herói pouco agrega à história com sua personalidade apagada, por outro, temos flexibilidade total para moldar seu estilo de combate. Por mais que eu tenha ressalvas quanto à atuação do nosso avatar, ele ganha identidade na hora do vamos ver, tendo uma ampla gama de opções para enfrentar os inimigos da maneira que o jogador quiser.Cada equipamento tem assinatura própria, o que, na prática, faz com que o personagem se comporte de jeitos completamente diferentes em batalha. A combinação de espada e escudo, por exemplo, promove o parry como recurso defensivo, enquanto a esquiva se faz mais necessária com lâminas duplas, cujos combos são mais rápidos, apesar de causarem menos dano.O ritmo do combate mantém a essência dos jogos anteriores de SAO e flerta com o hack and slash, ainda que seja mais cadenciado, sobretudo quando usamos armas pesadas. À medida que evoluímos, podemos distribuir pontos entre os atributos, além de aumentar a afinidade com os equipamentos em um sistema de progressão que não esconde suas inspirações em Genshin e outros RPGs de ação modernos.Quanto mais você joga com um tipo específico de equipamento, mais habilidades pode destravar para complementar os golpes básicos. Saber o momento de usar as skills e de conectá-las aos ataques dos aliados é um pilar da jogabilidade e remete à dinâmica dos títulos recentes de Tales of (em especial, Tales of Arise), uma referência bem-vinda que torna as batalhas ainda mais agradáveis.Avaliar o senso de progresso em um RPG deveria ser um critério obrigatório em qualquer análise do gênero. Nesse aspecto, Echoes of Aincrad faz o que precisa ser feito e encoraja o jogador a seguir repetindo missões e masmorras por horas apenas para ver o personagem evoluir e colocar suas novas habilidades em prática.Linear, mas ainda convidativo à exploraçãoExplorar é o ponto alto de Aincrad, assim como em qualquer outro MMORPG, mas o mundo não é verdadeiramente aberto, e sim delimitado por zonas, ao passo que as missões, sejam paralelas ou de história, têm caminhos bem definidos. Mesmo com uma linearidade excessiva e uma limitação estrutural difícil de passar despercebida, desviar da rota principal ainda tem suas vantagens.Há masmorras procedurais, recursos essenciais para a confecção de itens em todos os pontos do mapa e baús com recompensas valiosas prontos para serem encontrados. Desbravar os andares de Aincrad não é essencial, mas é uma atividade recompensadora para quem quiser aproveitar cada momento e, sobretudo, se sentir mais preparado para encarar qualquer desafio.O ciclo de gameplay foi pensado para viciar: você aceita um pedido na cidade, conclui a expedição e retorna à base de operações para aplicar melhorias a equipamentos e personagens, incluindo também seus parceiros de viagem. Nada que a gente já não tenha visto em outros zilhões de RPG por aí, é verdade, mas funciona e mantém o jogador engajado no loop.Por tentar replicar características dos MMOs, Echoes of Aincrad não faz um pente fino em suas influências e herda também os problemas do gênero. As expedições muitas vezes se resumem a objetivos banais e sem graça, as chamadas fetch quests nas quais o personagem não faz nada além de sassaricar pelo mapa em busca de algum item descartável.É incômodo o fato de que também não há como fazer ajustes nos equipamentos do personagem, tampouco de suas habilidades, durante a jogatina. Em outras palavras, você precisa retornar à cidade para poder gerenciar sua party, o que, a meu ver, impõe uma burocracia descabida e atrapalha o fluxo da experiência.Uma ótima representação de AincradA maior evolução que os fãs da franquia vão notar é a representação fiel de Aincrad. A Game Studio Inc. pode não ser uma desenvolvedora com tanta bagagem em produções de sua autoria, mas fez um excelente trabalho ao transpor o mundo de Sword Art Online para a atual geração, muito acima do que Sword Art Online: Fractured Daydream conseguiu fazer.O esmero visual fica evidente nos belos recantos naturais, de florestas densas a ruínas e vestígios de antigas civilizações. A iluminação também se beneficia da transição do dia para a noite, com objetos que ganham novas sombras conforme o tempo avança, aspectos técnicos que nunca foram um ponto forte nos games derivados de Sword Art Online.A inexperiência da Game Studio Inc. só fica evidente nos detalhes. Sim, existem bugs, como quando conseguimos atravessar uma parede invisível, por exemplo, e falhas no hitbox de alguns inimigos. Nada, entretanto, que não possa ser corrigido por meio de atualização. Afinal, esse é o grande mal dos jogos modernos: as empresas lançam do jeito que dá para consertar depois.Vale a pena?Devo confessar que fiquei um tanto surpreso com a qualidade de Echoes of Aincrad. Embora ainda seja um jogo sem o valor de produção e o escopo que a franquia merece, é o que melhor recria a atmosfera da primeira temporada do anime, mesmo sem Kirito ocupar o papel principal. Como falei no início da análise, ter a possibilidade de experimentar Sword Art Online do ponto de vista de um jogador “comum” é justamente o que o torna tão especial, ainda que essa decisão tenha seu preço.Nota do Voxel: 75 Pontos positivos (Prós):Recria a primeira temporada do anime sob uma nova óticaCombate com amplas possibilidadesVisual caprichado, acima da média de outras adaptações de SAOCiclo de gameplay engajanteTextos em português do BrasilPontos negativos (Contras):Diálogos fracos, apesar do bom elenco de personagens secundáriosMissões formulaicas, lineares e pouco inspiradasLimitações estruturais no mapaUma cópia de Echoes of Aincrad foi gentilmente fornecida pela Bandai Namco para o propósito de análise no PlayStation 5. O jogo também está disponível para Xbox Series S|X e PC.