Mistura de reclamação, frustração e tentativa de explicar a derrota, o chororô da torcida brasileira após o desempenho do Brasil na Copa do Mundo de 2026, que acabou este domingo (19), pode estar ensinando as pessoas a tolerar contrariedades, elaborar perdas e superar — habilidades raras em uma geração pressionada pelo desempenho constante.A eliminação da seleção brasileira aconteceu nas oitavas de final, no dia 5 de julho, com derrota por 2 a 1 para a Noruega — a pior campanha do Brasil em Copas desde 1990. O resultado gerou reação imediata nas redes, com memes e threads tentando explicar o que deu errado em campo. Leia mais Aplicativo ajuda a decifrar rótulos de cosméticos e alimentos no Brasil Pesquisa revela o que faz perfis se destacarem em apps de namoro; veja Por que a mente prende você ao passado mesmo quando ele já acabou? Para Nicolau Pergher, psicólogo da escola Avenues São Paulo, esse tipo de comportamento reflete uma dificuldade mais ampla: a de tolerar incertezas em uma cultura marcada pela comparação constante, pela pressão por resultado e pela busca por explicações rápidas diante de qualquer frustração.Esse padrão vai além do futebol: aparece em salas de aula, ambientes de trabalho e disputas por vagas em universidades, alimentando uma fadiga emocional ligada à pressão por desempenho contínuo e à dificuldade de admitir publicamente que um objetivo não foi alcançado.Nesse contexto, o chororô coletivo após a eliminação é um daqueles raros momentos de luto público sem culpa individual atribuída a uma só pessoa. Reclamar em grupo permitiu à torcida nomear a frustração e perceber que a decepção é parte esperada de qualquer competição, não uma exceção.Por que o fracasso de um time de futebol é tão difícil de aceitar?O gesto revela como o futebol ultrapassa o placar e toca na identidade • Diana.Grytsku/MagnificO futebol ensina que nem sempre os melhores times vencem, nem todo esforço é recompensado de imediato, nem toda derrota representa fracasso. Segundo psicólogos, essas lições também valem fora de campo, especialmente em fases da vida em que qualquer deslize parece pesar mais do que deveria.“Vivemos em uma época em que muitos adolescentes sentem que precisam ter sucesso o tempo todo. Existe uma pressão para obter boas notas, entrar nas melhores universidades, corresponder às expectativas da família e construir uma trajetória impecável”, afirma Pergher em um comunicado.Para ele, o esporte subverte essa narrativa. As competições mostram que errar faz parte do processo, que perder é inevitável em alguns momentos e que o crescimento acontece justamente na forma como lidamos com essas experiências nem sempre positivas.Essa lição, porém, alcança poucos jovens: segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 80% dos adolescentes no mundo não atingem os níveis recomendados de atividade física — justamente enquanto crescem, na mesma faixa etária, os índices de ansiedade, estresse e sintomas depressivos.O que fazer com a frustração da eliminação?O principal aprendizado da eliminação está na forma como o país reagiu à frustração • MagnificPara os especialistas, o principal aprendizado da eliminação não está na tática ou na escalação, mas sim na forma como o país reagiu à frustração. Elaborar a derrota em conjunto, em vez de negá-la ou dramatizá-la isoladamente, é descrito como uma parte saudável do processo emocional.“Quando pais e filhos assistem a uma partida juntos, eles não estão apenas acompanhando um jogo. Estão compartilhando emoções, conversando sobre esforço, conquistas, derrotas e expectativas”, diz Pergher, ao descrever o potencial da Copa para fortalecer vínculos familiares no dia a dia.Segundo Marcello Mauriz, diretor de Esporte e coordenador de Educação Física da Avenues São Paulo, a mobilização em torno do torneio pode servir para organizar competições esportivas, brincadeiras ao ar livre ou caminhadas em família. “Mais importante do que formar atletas é formar jovens capazes de lidar com desafios e desenvolver autonomia”, afirma.Além de emoções, a Copa de 2026 deixa lições que ficam longe da dramatização ou da indiferença. Assim como se lamentar pela eliminação não é sinal de fraqueza, superá-la rápido também não é obrigação. Nesse meio-campo, talvez a grande jogada seja seguir em frente diante das dificuldades.Costuma fugir de conflitos e discussões? Como se expressar sem briga