Fatores que vão além da resposta do tumor às terapias, como força muscular, condicionamento cardiorrespiratório, autonomia para realizar atividades cotidianas e controle da fadiga influenciam diretamente a evolução clínica, a tolerância aos tratamentos e a qualidade de vida dos pacientes oncológicos. É por essa razão que o exercício físico integra hoje as recomendações das principais sociedades científicas, sustentado por evidências consistentes de que sua prática supervisionada contribui para preservar a funcionalidade em diferentes fases da doença.Os efeitos do câncer sobre o organismo ajudam a explicar essa recomendação. A própria doença, somada às cirurgias, à quimioterapia, à radioterapia e, muitas vezes, aos períodos prolongados de inatividade, acelera a perda de massa muscular, reduz a capacidade cardiorrespiratória e diminui a resistência aos esforços. Como consequência, atividades rotineiras passam a exigir um gasto de energia muito maior. Caminhar pequenas distâncias, subir escadas, carregar compras ou permanecer em pé por alguns minutos tornam-se tarefas difíceis para muitos pacientes.O exercício interrompe o ciclo da fadigaEntre todas essas limitações, a fadiga relacionada ao câncer merece atenção especial. Diferentemente do cansaço habitual, ela não desaparece após o repouso e pode persistir durante meses, comprometendo o trabalho, a convivência familiar e até a continuidade do tratamento. A redução espontânea da atividade física, frequentemente motivada pela tentativa de evitar esse desconforto, acaba agravando o problema ao favorecer a perda de condicionamento físico e força muscular. O exercício supervisionado rompe esse ciclo ao estimular adaptações fisiológicas que melhoram a eficiência cardiovascular, preservam a musculatura e ampliam a capacidade funcional.Os resultados observados na prática clínica encontram respaldo em estudos publicados recentemente. Na Reunião Anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2026, o estudo CHALLENGE demonstrou que pacientes submetidos à cirurgia e à quimioterapia para câncer colorretal apresentaram menor risco de recorrência da doença, maior sobrevida e redução dos custos relacionados ao tratamento quando participaram de um programa supervisionado de exercícios durante três anos. Outra pesquisa divulgada neste ano acompanhou pacientes com câncer colorretal por dois anos e identificou redução progressiva da fadiga e melhora consistente da qualidade de vida entre aqueles que mantiveram o hábito de caminhar entre seis e doze meses após o diagnóstico.Benefícios que acompanham toda a jornada do pacienteAs recomendações internacionais também refletem esse avanço do conhecimento. Em 2026, novos consensos ampliaram as orientações para populações historicamente pouco representadas nas pesquisas, como idosos e crianças com câncer, reforçando que a prescrição de exercícios deve considerar as características clínicas, os tratamentos realizados e os objetivos de cada paciente.Essa individualização é um dos princípios da fisioterapia oncológica. Não existe um programa de exercícios capaz de atender igualmente todas as pessoas. A intensidade, a frequência e a modalidade variam conforme o tipo de câncer, o estágio da doença, a presença de outras condições clínicas e a resposta de cada organismo ao tratamento. Em alguns casos, caminhadas curtas representam um estímulo suficiente para preservar a funcionalidade. Em outros, programas estruturados de fortalecimento muscular, treinamento aeróbico, exercícios respiratórios e atividades voltadas ao equilíbrio podem ser desenvolvidos com segurança.Os benefícios acompanham toda a trajetória da doença. Durante a quimioterapia, a radioterapia, a imunoterapia ou a hormonioterapia, o exercício contribui para preservar força muscular, capacidade funcional e tolerância às terapias. Após a conclusão do tratamento, favorece a recuperação do condicionamento físico e da autonomia para as atividades cotidianas. Nos cuidados paliativos, a manutenção da mobilidade, da independência e do conforto permanece entre os principais objetivos da assistência, tornando a atividade física uma ferramenta importante sempre que houver indicação clínica.Os avanços da oncologia transformaram o prognóstico de inúmeras doenças, mas a qualidade da assistência também se mede pela capacidade de preservar a funcionalidade ao longo do tratamento. Respirar com menos esforço, caminhar com mais segurança, recuperar força muscular e manter a autonomia representam conquistas que influenciam diretamente a experiência do paciente. O exercício físico ocupa hoje um lugar bem estabelecido nesse cuidado porque oferece benefícios sustentados por evidências científicas e contribui para que a pessoa enfrente o tratamento em melhores condições físicas e funcionais.Tania Tonezzer – Crefito 128763-FFisioterapeuta especialista em Oncologia, exercício físico e cuidados paliativos