A suspensão das visitas de Flávio a Bolsonaro ajuda ou prejudica sua campanha?

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Jair Bolsonaro encontrou nas cartas uma forma de transmitir aos políticos e ao eleitorado o que deseja. Segundo Flávio, foram cinco mensagens de próprio punho tornadas públicas até agora. A primeira, divulgada em dezembro de 2025, confirmou seu apoio à pré-candidatura do filho à Presidência.Na época, uma ala dos conservadores insistia que o candidato deveria ser outro. Embora rejeitasse os apelos para concorrer, Tarcísio Gomes de Freitas era o nome mais cotado entre os que defendiam uma alternativa, pela avaliação positiva de sua gestão e pelo trânsito em diferentes instituições. Dizia não ter saído da disputa porque nunca entrara nela.Uma carta para tirar dúvidasA quinta e última carta divulgada até aqui, lida em 11 de julho, pouco acrescentou às anteriores. Reafirmou Flávio como indicado à Presidência, apresentou-o como porta-voz de suas vontades e pediu aos aliados que deixassem de lado as diferenças.A mensagem ganhou mais publicidade dois dias depois, quando o ministro Alexandre de Moraes suspendeu por 90 dias a autorização para que Flávio visitasse o pai. Deu também 48 horas para que a defesa esclarecesse se Bolsonaro sabia que a carta seria divulgada nas redes sociais.Reação imediataA decisão não proibiu expressamente Bolsonaro de escrever novas cartas. Na prática, porém, sinalizou que a divulgação de outras mensagens políticas nas redes sociais poderá ser interpretada como novo descumprimento da ordem judicial.Um dos vice-líderes do governo reagiu imediatamente. Lindbergh Farias pediu ao STF a revogação da prisão domiciliar de Bolsonaro, por entender que a divulgação da carta havia descumprido as restrições impostas pelo ministro. A dureza do pedido mostra como ao menos uma parcela da base governista recebeu a iniciativa.Consequências da decisão do ministroTodo esse alvoroço levanta uma questão: Flávio foi prejudicado ou beneficiado com a decisão?De um lado, com as visitas suspensas por 90 dias, Flávio perde a interlocução direta e presencial com sua principal referência política. Terá mais dificuldade para discutir os rumos da campanha, administrar divergências e demonstrar o aval do ex-presidente.De outro, a medida pode beneficiá-lo ao fortalecer entre seus apoiadores a interpretação de que Bolsonaro e sua família são vítimas de perseguição política. Embora ainda não haja pesquisa que permita medir esse efeito, a narrativa poderá sensibilizar parte dos eleitores que não se identificam nem com Lula nem com Bolsonaro.Escrevi cartas para os ex-alunosConheço bem a importância das cartas para quem está privado da liberdade. Entre os mais de 100 mil alunos que treinei ao longo dos últimos 50 anos, estiveram políticos de praticamente todos os partidos. Alguns foram presos e muitos se sentiram abandonados, sem a solidariedade dos antigos fiéis escudeiros.Continuei agindo com eles como sempre havia agido na relação entre professor e aluno. Deixei de lado preferências políticas e procurei oferecer minha solidariedade. Posso revelar dois casos.Roberto JeffersonUm deles foi Roberto Jefferson, que considero um dos melhores oradores da política brasileira de todos os tempos. Os problemas que enfrentou com a Justiça não apagaram nossa relação. Jamais disse em minhas cartas se o que fizera estava certo ou errado. Limitei-me a recordar nossas aulas, seu desempenho público e entrevistas com audiências tão expressivas que algumas emissoras chegaram a reprisá-las.Em resposta breve, falou das agruras e dos problemas enfrentados na prisão. Talvez não encontrasse muitas pessoas com quem pudesse abrir o coração.Carla ZambelliOutro caso foi o de Carla Zambelli. Escrevi uma longa carta recordando que havia dado aulas a ela três vezes, que a conhecia desde menininha, quando seus pais foram meus alunos, e que outros familiares também passaram pelos meus cursos.Depois de obter decisões favoráveis na Corte de Cassação italiana nos processos de extradição, Carla fez uma ligação por vídeo de mais de uma hora. Contou detalhes da prisão, o que precisou fazer para ser respeitada pelas outras detentas e os momentos de angústia, incerteza e esperança. Disse que se lembrava do que eu havia escrito.O baralho da prisãoComo sabe que sou colecionador de baralhos, guardou um baralho romano usado pelas detentas. Disse que fazia questão de me enviar aquele que utilizara na prisão, pois teria significado especial para minha coleção.As cartas fazem parte da vida dos políticos, principalmente quando estão privados da liberdade. No caso de Bolsonaro, adquiriram função adicional: deixaram de ser apenas uma forma de contato humano e se transformaram em instrumento de orientação política.A suspensão das visitas poderá produzir efeitos contraditórios. Flávio perde a interlocução direta com sua principal referência política, mas ganha a oportunidade de reforçar a narrativa de perseguição. Ainda é cedo para saber qual desses efeitos terá maior peso nas urnas. Siga pelo Instagram: @polito