Em meu artigo de estreia no Money Times, ao final de 2021, tratei de como grandes economistas não acreditavam no potencial das criptomoedas não lastreadas como moeda. De lá para cá, o tema evoluiu bastante, e as criptomoedas já completam aproximadamente uma década de maior conhecimento público. A tecnologia cripto amadureceu, os preços subiram e o mercado ganhou legitimidade institucional. Mas os fundamentos econômicos seguem os mesmos, deixando os criptoativos não lastreados ainda distantes de serem considerados moedas de fato.O bitcoin, assim como ethereum e diversos outros criptoativos, ganhou mercado, virou produto de investimento e entrou na carteira de grandes gestoras. A pergunta, portanto, não é se as criptomoedas vão desaparecer amanhã, mas se elas realmente cumprem a promessa econômica que motivou sua criação.A resposta de boa parte dos economistas acadêmicos continua sendo cética. Eugene Fama, Nobel de Economia e um dos pais da teoria moderna de finanças, afirmou recentemente que criptomoedas violam todas as regras de um meio de troca, justamente porque não possuem valor real estável. Para ele, um ativo que oscila tão intensamente em função da demanda especulativa dificilmente pode funcionar como moeda.Na teoria econômica, três características definem uma moeda: ela precisa servir como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor. Atualmente, poucos preços são definidos em criptoativos, seu uso cotidiano em pagamentos segue restrito e sua volatilidade torna difícil tratá-los como reserva de valor estável.Um estudo conduzido pela McKinsey em parceria com a Artemis Analytics neste ano mostra que apenas 0,02% do volume global de pagamentos reais de usuários finais — como pagamento a fornecedores ou envio de remessas — é feito em criptomoedas. Além disso, quase a totalidade desse volume ocorre por meio de stablecoins, e não de criptoativos sem lastro.A volatilidade do bitcoin, por exemplo, vem caindo de forma relevante ao longo do tempo, mas ainda permanece muito acima da observada em ativos como ações e ouro. Essa diferença reflete não apenas seu perfil de ativo de risco, mas também fatores próprios do ecossistema cripto, como mudanças regulatórias, fluxos especulativos, choques de liquidez, eventos em corretoras e alterações na percepção sobre a adoção da tecnologia.O bitcoin também deixou de se comportar como um ativo independente e passou a apresentar relação mais próxima com os índices acionários e os mercados tradicionais. Em momentos de maior aversão ao risco nos mercados globais, é comum que acompanhe a direção das bolsas, reforçando seu comportamento como ativo de risco. Antigas teses de que o ativo seria uma boa proteção contra a inflação também perderam força.O fato de um ativo ser escasso não basta para gerar valor econômico duradouro. Escassez só importa quando há utilidade ou demanda persistente.Paul Krugman, outro Nobel de Economia, mantém avaliação semelhante. Para ele, o bitcoin segue economicamente pouco útil em escala relevante e ainda depende muito de narrativa, entusiasmo especulativo e apoio político. Pode-se adicionar a isso o uso em mercados paralelos e fora do sistema regulado.Há ainda uma crítica mais profunda. Eric Budish, da Universidade de Chicago, argumenta que a grande inovação do bitcoin — criar confiança sem governo, bancos ou tribunais — tem custo econômico elevado. Em redes abertas, como bitcoin e ethereum, a segurança depende de incentivos contínuos a mineradores ou validadores. Quanto maior o valor econômico que pode ser atacado, maior precisa ser o custo de proteger a rede. Em escala global, essa forma de produzir confiança pode ser muito mais cara do que sistemas baseados em instituições, contratos, reputação e Estado de direito.Isso não significa ignorar a importância da tecnologia. Blockchain, contratos inteligentes e tokenização têm aplicações úteis. A própria evolução das stablecoins e das moedas digitais de bancos centrais mostra que a digitalização dos pagamentos veio para ficar. Mas existe uma diferença importante entre reconhecer o valor da tecnologia e concluir que tokens sem lastro, sem fluxo de caixa e sem emissor responsável sejam bons substitutos para moedas ou ativos produtivos.