Um estudo inédito do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infãncia), divulgado nesta segunda-feira (13), analisou as barreiras que mulheres enfrentam na decisão pelo parto normal, em um país onde a cesariana é a forma de nascimento mais comum, ainda que 7 a cada 10 brasileiras prefiram a via natural no começo da gravidez, segundo dados da FioCruz (Fundação Oswaldo Cruz).De acordo com a pesquisa, alguns dos fatores que influenciam para que mulheres que desejam ter parto normal tenham cesáreas sem indicação médica são: orientações superficiais sobre o parto, falta de participação do parceiro, desconhecimento sobre o Plano de Parto e o acesso restrito à analgesicos.Intitulado “Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes”, o estudo mostra que a decisão sobre o parto depende não só de fatores psicológicos e individuais da mulher, mas também de fatores sociais e estruturais.“O nosso desafio não é ‘convencer’ as mulheres, mas garantir as condições para que elas possam fazer escolhas informadas e viver um parto seguro e respeitoso. E ter informação confiável, atendimento de saúde qualificado, acesso aos direitos e uma rede de apoio adequada faz toda a diferença para que isso aconteça. Quando promovemos um parto respeitoso, estamos protegendo não apenas os direitos das mulheres, mas também os direitos de cada criança a um início de vida mais seguro e saudável”, explica Luciana Phebo, chefe de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil.O estudo combinou revisão da literatura científica e entrevistas com mais de 130 gestantes, puérperas e profissionais de saúde em Belém, no Pará, e São Paulo, tanto na rede pública quanto na rede privada. A pesquisa buscou compreender os fatores que influenciam a decisão sobre a via de nascimento, sem constituir uma amostra estatística nacional.O que dificulta o acesso ao parto normal?Segundo o Unicef, foi identificado como as pessoas ao redor da gestante influenciam a decisão sobre o parto. Enquanto as experiências pessoais de mães, avós, tias e sogras têm muito impacto sobre as preferências das gestantes, especialmente entre pacientes do SUS (Sistema Único de Saúde), os parceiros também possuem um papel importante.Quando participam pouco do pré-natal, os acompanhantes podem ter mais dificuldade para compreender o processo do parto e acabar pressionando pela cesariana ao presenciarem o momento do trabalho de parto, de acordo com a pesquisa.Já ao analisar aspectos estruturais, conectados às políticas e à condição dos serviços, a pesquisa mostra que a falta de acesso à analgesia, por exemplo, pode fazer com que algumas mulheres vejam a cesariana como a única alternativa para lidar com a dor. O desejo por uma laqueadura também pode favorecer cesarianas sem indicação clínica – especialmente diante da baixa oferta de métodos contraceptivos que possam ser associados ao parto normal.A análise também identificou que, especialmente no setor privado, fatores institucionais e econômicos podem desencorajar a oferta do parto normal. Profissionais de saúde apontaram aos pesquisadores que a organização do trabalho médico, a previsibilidade do agendamento de cesarianas e custos associados à contratação de equipes para acompanhar longos trabalhos de parto podem funcionar como incentivos às cesarianas, mesmo sem indicação clínica. Leia Mais Muitas mulheres só percebem anos depois que viveram violência obstétrica Maioria das mortes maternas são evitáveis e expõem falhas em atendimentos Mais da metade das mulheres sentem dor intensa ao colocar DIU, diz estudo O estudo ainda aponta os fatores que podem facilitar o acesso ao parto normal. Algumas experiências mostraram potencial para fortalecer escolhas mais informadas e ampliar a autonomia das mulheres durante a gestação e o nascimento: Experiências como Centros de Parto Normal;Maior participação de doulas, obstetrizes e enfermeiras obstetrasProgramas de incentivo ao pré-natalUso do Plano de Parto.A expansão do acesso à analgesia e aos métodos não medicamentosos para controle da dor na rede pública de saúde também pode contribuir para diminuir a preferência pela cesárea sem indicação.A participação ativa do parceiro antes e durante o parto é outro fator que pode fortalecer a decisão da mulher e contribuir para partos mais seguros, assim como o compartilhamento de relatos com mulheres na rede de apoio – em especial mães e avós, mas também amigas ou referências comunitárias.Recomendações do UnicefO órgão da ONU recomenda que poder público, rede privada de saúde e profissionais de saúde atuem juntos para que as mulheres tenham as condições de escolher o melhor tipo de parto para si e para a criança. Para isso, é preciso atuar em todos os níveis para:Qualificar o pré-natal com informações claras sobre fases do trabalho de parto, manejo da dor, Plano de Parto, direitos, analgesia e métodos não farmacológicos para alívio da dor, e planejamento reprodutivo, incluindo orientação sobre laqueadura após parto vaginal e métodos contraceptivos reversíveis de longa duração;Incluir parceiros e acompanhantes nas orientações sobre trabalho de parto; ampliar a atuação de doulas como apoio físico, emocional e informacional.Mobilizar mães, avós, sogras, parteiras e referências locais como aliadas do cuidado, e fortalecer conteúdos confiáveis nos espaços digitais onde gestantes buscam informação;Ampliar as políticas públicas para apoiar mães antes, durante e depois do parto;Revisar modelos que favorecem a cesariana sem indicação médica, com decisões baseadas em evidências; incluir capacitação sobre direitos, desigualdades e cuidado respeitoso na formação de profissionais de saúde; criar modelos de financiamento e remuneração que não incentivem cesarianas sem indicação clínica; e monitorar indicadores de saúde materna e neonatal com transparência.MetodologiaA pesquisa em Belém e São Paulo ouviu 94 gestantes e puérperas — 73 do SUS e 21 do setor privado, por meio de 11 grupos focais e 41 entrevistas individuais —, além de 37 profissionais de saúde, incluindo gestores, médicos e enfermeiros de Unidades Básicas de Saúde, hospitais públicos e serviços privados.Ao todo, foram 131 pessoas ouvidas, além da revisão de 77 artigos científicos e de documentos institucionais sobre parto humanizado nos níveis federal, estadual e municipal. O estudo organiza seus achados em três níveis, de acordo com uma metodologia do Unicef para atuar com mudança social e de comportamento (SBC, na sigla em inglês): psicológico, sociológico e estrutural.Junto com a pesquisa, realizada com apoio financeiro da farmacêutica MSD, por meio de sua iniciativa global MSD para Mães, o Unicef lançou a campanha “Parto normal. Uma escolha que merece respeito”. O órgão convida gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais de saúde a refletirem sobre como opiniões podem pressionar as mulheres, mesmo não sendo um substituto para informações de qualidade.