A crise na Azzas 2154 (AZZA3) voltou aos holofotes nas últimas semanas com rumores de novas divergências entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy, além da possibilidade de venda da marca Farm Rio. A empresa, criada em 2024 com a fusão entre Arezzo, de Birman, e Grupo Soma, de Jatahy, tem vivido sob forte pressão por causa de questões de governança e execução, com notícias de disputas internas se somando a resultados fracos e mexendo com o humor dos investidores. Em um ano, AZZA3 perdeu quase 50% de seu valor. Embora tenha subido quase 7% no último mês, a ação ainda acumula um tombo de 26% só em 2026. Nos bastidores, há muitas dúvidas sobre o futuro do maior grupo de moda da América Latina, que soma 28 marcas em seu portfólio. Faz sentido vender a Farm? Como fica a Azzas sem a marca carioca na prateleira? O Money Times ouviu gestores, na condição de anonimato, para tentar entender esse cenário. Quanto vale a Azzas e por que vender a Farm? A Farm é mesmo a joia da coroa: segundo os gestores ouvidos pela reportagem, a marca é um fator de destaque desde a junção entre as companhias. Um exemplo é sua presença internacional consolidada, com peças vestidas por personalidades de destaque, como Taylor Swift – ao passo que Birman, que almejava alcançar o mundo com marcas como Arezzo e Schutz, deixou a desejar nesse quesito. Segundo estimativas do JP Morgan, a marca carioca criada por Kátia Barros e Marcello Bastos poderia valer cerca de R$ 4,4 bilhões a R$ 5,5 bilhões. Ou seja, mais que o valor de mercado atual do grupo Azzas como um todo, de cerca de R$ 3,6 bilhões. Se a Farm vale mais do que toda a Azzas, isso implicaria que o mercado atribui valor negativo ao restante do portfólio da companhia – uma leitura considerada exagerada pelos gestores. O grupo poderia vender seu ativo de maior relevância para tentar mostrar ao mercado que vale mais do que tem sido precificado, dada a discrepância de avaliação entre uma única marca versus o conglomerado, opinam os gestores. A estratégia da companhia pode ser, também, mostrar ao mercado que existe qualidade no restante do portfólio e que ainda consegue entregar lucro. Na avaliação do JP Morgan, uma eventual monetização da Farm poderia destravar valor relevante para as ações da Azzas. No entanto, ao mesmo tempo, há riscos de que a arbitragem entre os dois principais acionistas sobre a estratégia e a estrutura de gestão possa contaminar até mesmo esse ativo e seu desempenho. A escalada do conflito entre Birman e Jatahy reduziu a confiança do mercado em uma solução simples para o impasse, como uma mera reconciliação entre os dois. Grupo deve continuar unido? Na visão dos gestores, o problema da empresa está menos na qualidade dos ativos e mais na falta de consistência operacional, que impede a Azzas 2154 de capturar todo o seu potencial. Eles avaliam que os problemas de governança já extrapolaram a relação entre os dois executivos e passaram a afetar também a estrutura operacional da companhia, a exemplo da troca na posição de CFO e da reestruturação da marca Reserva. Caso a companhia opte por vender 100% da Farm, uma das hipóteses levantadas pelos gestores é que a operação abriria caminho para uma futura cisão do restante dos negócios. A Hering, inclusive, também seria um ativo em xeque. Segundo informações do site Pipeline, do Valor Econômico, um grupo de acionistas que representa cerca de 11% do capital da Azzas, liderado pela família Hering, contratou a BR Partners para negociar uma emancipação da marca. Na visão do JP Morgan, no entanto, o negócio é improvável, a menos que haja um prêmio significativo pago pelo ativo. Após a notícia, porém, a Azzas afirmou que a Hering não está à venda. Leia mais: Azzas 2154 (AZZA3): JP Morgan vê venda da Hering como ‘improvável’, mas um fator pode mudar isso; ações caem 3% – Money Times Resultados deixando a desejar A união da Arezzo com o Grupo Soma formou uma gigante do setor varejista, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar a fusão em melhores resultados. De acordo com os gestores ouvidos pela reportagem, a empresa parece ter atingido um teto de crescimento que não consegue romper. Somado a isto há dificuldades maiores em duas de suas divisões: básicos e masculino. As sinergias buscadas em um processo de combinação de negócios não estão se materializando no balanço da companhia, na visão de gestores buy side, como é o caso do aproveitamento fabril da Hering pela Reserva, levando à otimização de custos. A companhia vem perdendo margem com o excesso de promoções, erros de precificação em marcas como a Schutz e falhas em coleções, avaliam as fontes. Nesse lado, a Farm se destaca como o ponto alto da companhia, com o melhor desempenho vindo do segmento de vestuário feminino. No 1T26, a companhia registrou lucro líquido recorrente de R$ 63,9 milhões, queda de 45,7% em relação ao mesmo período do ano passado. A receita líquida somou R$ 2,48 bilhões, recuo de 8%, enquanto o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês) recorrente caiu 23,2%, para R$ 328,5 milhões. Para os gestores ouvidos pelo Money Times, a Azzas 2154 hoje não representa um case atrativo, nem sob a ótica de oportunidade de investimento nem sob a de qualidade operacional, diante da existência de ativos considerados superiores dentro do varejo. Para o segundo trimestre de 2026, o BTG Pactual coloca a Azzas como um dos potenciais destaques negativos, em meio a um cenário macroeconômico também difícil. Os juros elevados continuaram corroendo a renda disponível do consumidor, enquanto o elevado endividamento das famílias e os efeitos acumulados da inflação mantiveram o poder de compra pressionado. Leia mais: Sem melhoras, BTG vê mais um trimestre difícil para o varejo; veja quais ações devem se destacar – Money Times A empresa divulga os números do 2T26 em 12 de agosto, com teleconferência marcada para o dia seguinte. Por dentro dos mercadosReceba gratuitamente as newsletters do Money TimesOBS: Ao clicar no botão você autoriza o Money Times a utilizar os dados fornecidos para encaminhar conteúdos informativos e publicitários.