É sabido que o investidor português é tradicionalmente cauteloso e avesso ao risco, mas a literacia financeira em Portugal está a mudar aos poucos. Melhor planeamento, uma visão mais alargada, renegociar créditos à habitação e mais variedade de investimentos são alguns comportamentos financeiros comuns entre os portugueses.José Gonçalves, Diretor-geral da SafeBrok Portugal, traça um esboço de um investidor português mais autónomo, ainda que prudente, e explica que o maior erro continua a ser tomar decisões financeiras de forma isolada e reativa. Quais são os erros financeiros mais frequentes que continua a encontrar entre os portugueses?O erro mais frequente é tomar decisões financeiras de forma isolada e reativa. Muitas famílias olham para crédito, seguros, poupança ou investimento como temas separados quando, na verdade, tudo está ligado. Outro erro comum é adiar decisões importantes: criar uma reserva financeira, rever encargos, ajustar seguros ou preparar a reforma. A falta de planeamento faz com que muitas decisões sejam tomadas apenas quando surge uma urgência, e isso reduz sempre a margem de escolha. A literacia financeira em Portugal está realmente a melhorar ou continuamos a repetir os mesmos erros de há uma década? Como caracteriza o perfil financeiro dos portugueses?A literacia financeira tem vindo a melhorar, sobretudo porque existe mais acesso à informação e maior sensibilidade para temas como poupança, crédito, proteção e investimento. Mas informação não é o mesmo que conhecimento aplicado.Muitos portugueses já sabem que devem planear melhor, mas ainda têm dificuldade em transformar essa consciência em decisões consistentes.Ao mesmo tempo, estamos a observar o aparecimento de um perfil de cliente mais autónomo, mais digital e mais atento às suas decisões financeiras. É um cliente que começa a investir mais cedo, procura informação, compara soluções e quer ter maior controlo sobre a sua vida financeira. As necessidades continuam a ser as mesmas – planeamento, visão 360º, acesso a soluções adequadas e acompanhamento – mas a forma de comunicar, decidir e operar está a mudar. A SafeBrok está atenta a esta evolução e está a desenvolver um projeto digital que responde precisamente a este novo perfil de cliente, mantendo a mesma exigência de método, personalização e acompanhamento. Qual é o maior mito financeiro em que os portugueses ainda acreditam?Um dos maiores mitos é acreditar que planear financeiramente é apenas para quem tem muito património. Na realidade, o planeamento é importante em qualquer fase da vida e em qualquer nível de rendimento. Muitas vezes, quanto menor é a margem financeira, mais importante é ter método, prioridades claras e uma visão integrada.Outro mito é pensar que poupar é apenas guardar o que sobra no final do mês, quando deveria ser uma decisão estruturada desde o início. O aumento das taxas de juro alterou de forma permanente a relação dos portugueses com o crédito habitação?A subida das taxas de juro trouxe uma consciência maior sobre o impacto real do crédito no orçamento familiar. Durante muitos anos, o crédito habitação foi visto como uma decisão relativamente estável e previsível. O novo contexto mostrou que é essencial analisar cenários, medir esforço financeiro e acompanhar o contrato ao longo do tempo. Não diria que a relação mudou de forma permanente, mas tornou-se mais madura. Hoje há mais atenção ao risco, às condições contratadas e à necessidade de acompanhamento. Tem havido um aumento da procura por renegociação de crédito. O que está a levar as famílias a procurar ajuda especializada?As famílias procuram ajuda sobretudo porque sentem pressão no orçamento e querem perceber se existem alternativas. A prestação da casa, o custo de vida e a acumulação de encargos obrigam muitas pessoas a rever a sua situação. A renegociação não deve ser vista apenas como uma reação a dificuldades, mas como uma ferramenta de gestão financeira. Muitas vezes, analisar spread, prazo, seguros associados ou consolidação de responsabilidades pode permitir maior equilíbrio, desde que tudo seja avaliado com rigor. Os portugueses tendem a estar subprotegidos ou sobreprotegidos em matéria de seguros?Diria que, muitas vezes, estão mal protegidos. Em alguns casos estão subprotegidos em áreas essenciais, como saúde, vida, rendimento ou património familiar. Noutros, têm seguros contratados há anos que já não correspondem à sua realidade atual.O problema nem sempre está na quantidade de seguros, mas na adequação. A proteção deve acompanhar a vida da pessoa: família, casa, profissão, responsabilidades financeiras e objetivos. Rever periodicamente esta dimensão é fundamental. Quais são os erros mais comuns na proteção do património familiar?O erro mais comum é olhar para a proteção apenas quando acontece um problema. Muitas famílias protegem a casa ou o automóvel, mas não avaliam suficientemente o impacto financeiro de uma doença, invalidez, perda de rendimento ou ausência de um dos elementos do agregado. Outro erro é não atualizar soluções ao longo do tempo. O património, a família e as responsabilidades mudam, e a proteção deve acompanhar essa evolução. Proteger património é também proteger estabilidade e capacidade de decisão. A preocupação com a reforma está finalmente a entrar na agenda financeira dos portugueses?Sim, mas ainda de forma gradual. As gerações mais jovens começam a perceber que a reforma deve ser preparada com antecedência, mas muitos portugueses continuam a adiar esse tema por parecer distante. O grande desafio é transformar essa preocupação em ação. Preparar a reforma não significa apenas pensar no final da carreira; significa criar hábitos de poupança, diversificar soluções e construir margem ao longo do tempo. Quanto mais cedo se começa, maior tende a ser a capacidade de adaptação. Que mudanças observou na forma como os portugueses encaram a poupança e o investimento nos últimos anos?Tem havido uma evolução clara. Durante muito tempo, a poupança esteve muito concentrada em soluções tradicionais e de baixo risco. Hoje existe mais abertura para falar de investimento, diversificação e objetivos de médio e longo prazo. Ainda assim, o investidor português continua a valorizar muito a segurança e precisa de compreender bem onde está a colocar o seu dinheiro.Outra mudança importante é a expectativa de acesso. Os clientes querem informação mais clara, respostas mais rápidas e uma experiência mais simples. As finanças estão cada vez mais na palma da mão e isso cria uma nova exigência para quem atua neste setor. A nossa obrigação é acompanhar essa evolução, criando soluções mais digitais, mais acessíveis e mais ágeis, sem perder o essencial: adequação ao perfil de cada cliente, planeamento e visão integrada. O que significa, na prática, alcançar liberdade financeira em Portugal?Liberdade financeira não significa necessariamente deixar de trabalhar ou atingir um determinado valor mágico. Significa ter margem para tomar decisões com maior autonomia. Na prática, passa por controlar encargos, ter uma reserva financeira, proteger riscos relevantes, planear objetivos e construir património de forma consistente. Para muitas famílias, liberdade financeira é conseguir viver com menos pressão, responder a imprevistos e preparar o futuro sem depender apenas do rendimento mensal. A procura por liberdade financeira é uma tendência real ou continua a ser um conceito restrito a uma minoria?É uma tendência real, mas ainda interpretada de formas muito diferentes. O conceito ganhou visibilidade, sobretudo entre gerações mais jovens e perfis mais digitais, que procuram mais autonomia, informação e controlo sobre as suas decisões financeiras. Ainda assim, nem sempre é bem compreendido. Muitas vezes é associado a enriquecimento rápido ou a independência total face ao trabalho, quando deveria ser visto como uma construção progressiva de estabilidade e autonomia.A boa notícia é que há mais pessoas a querer falar sobre dinheiro, objetivos e futuro. Esse é um primeiro passo importante. O desafio agora é transformar esse interesse em planeamento, decisões consistentes e soluções adequadas a cada realidade. Quais são os erros mais frequentes de quem começa a investir?O primeiro erro é começar sem definir objetivos, horizonte temporal e perfil de risco. O segundo é seguir tendências ou decisões de terceiros sem compreender os riscos. Investir exige método, diversificação e disciplina. Também é comum querer resultados rápidos, quando muitas estratégias fazem sentido sobretudo no médio e longo prazo. Antes de investir, é importante garantir uma base financeira equilibrada: orçamento controlado, reserva de emergência e proteção adequada. Se pudesse dar apenas um conselho financeiro aos portugueses para a próxima década, qual seria?O meu conselho seria: não tomem decisões financeiras por impulso ou de forma isolada. Parem, analisem e planeiem. O futuro financeiro constrói-se com pequenas decisões consistentes: rever encargos, poupar regularmente, proteger a família, preparar a reforma e investir de acordo com objetivos concretos. Mais do que procurar a solução perfeita, é importante ter método e acompanhamento. Uma boa decisão financeira é aquela que faz sentido para a realidade, os objetivos e o momento de vida de cada pessoa.O conteúdo «É um mito pensar que poupar é apenas guardar o que sobra no final do mês», garante José Gonçalves (SafeBrok Portugal) aparece primeiro em Revista Líder.