Pareceu ambicioso quando a produtora Top Link Music anunciou que o projeto Masters of Voices, com quatro grandes vocalistas do hard rock e heavy metal, ocuparia o Tokio Marine Hall em sua passagem por São Paulo. A turnê une Eric Martin (Mr. Big), Tim “Ripper” Owens (ex-Judas Priest, Iced Earth, Yngwie Malmsteen etc), Edu Falaschi (ex-Angra, Almah etc) e Jeff Scott Soto (ex-Yngwie Malmsteen, Journey, Talisman etc) em um show especial, no qual cada um entrega o melhor de seu repertório e performance ao lado de uma banda só de virtuosos: Marcelo Barbosa (Angra, ex-Almah etc) e Leo Mancini (Spektra, ex-Shaman, Noturnall etc) nas guitarras, Felipe Andreoli (Angra, ex-Almah) no baixo e Edu Cominato (Spektra, Soto, ex-Mr. Big etc) na bateria.Embora Falaschi sozinho costume, com seus megaeventos, encher a casa de eventos com capacidade para 4 mil pessoas, as demais atrações geralmente se apresentam em locais bem mais intimistas quando estão por aqui, como Manifesto e Stones Music Bar. Além disso, o trio internacional vem ao Brasil de forma constante — em certos casos, mais de uma vez no ano. Mesmo em um mês com oferta reduzida de shows internacionais, o quarteto não conseguiu encher o Tokio Marine Hall. Uma pena, pois ofereceram uma noite divertida para fãs de hard rock e heavy metal.Foto: Ellen Artie @ellenartieCada cantor ofereceu um set de aproximadamente 40 minutos, com início às 22h e encerramento à 0h40. Ao fim, todos se juntaram para uma interpretação final de “Living After Midnight” (Judas Priest), com protagonismo de Ripper e Soto. A relação entre os vocalistas e instrumentistas guarda algumas curiosidades:Leo Mancini e Edu Cominato são colegas de Spektra e já tocaram com Eric Martin e Jeff Scott Soto. Cominato, inclusive, subiu ao palco ao lado de Martin no Mr. Big, durante a etapa europeia da turnê de despedida do grupo, “The Big Finish”, quando Nick D’Virgilio teve um conflito de agendas. Também integrou a banda Soto e gravou dois álbuns.Mancini, por sua vez, pertence ao Angraverso por ter feito parte da segunda formação do Shaman, banda fundada por três ex-integrantes do Angra (Andre Matos, Luis Mariutti e Ricardo Confessori), mas mantida apenas por Confessori junto a outros músicos quando Leo se fez presente;Marcelo Barbosa se juntou ao Angra em 2015, três anos após a saída de Edu Falaschi, mas trabalhou com o cantor no Almah entre 2007 e 2016 — quase toda a existência do projeto;Felipe Andreoli, com quem Falaschi trabalhou durante toda a sua passagem pelo Angra, também integrou o Almah, entre 2007 e 2012. Ele ainda dividiu palco com Jeff Scott Soto durante shows do Sons of Apollo na América do Sul e Armênia, no ano de 2012. Era substituto de quem? Billy Sheehan, baixista do Mr. Big que também integrava o projeto.Foto: Ellen Artie @ellenartieEric MartinPrimeiro, os mais velhos. Eric Martin, 66 anos, iniciou os trabalhos da noite de sábado (18) com um set de aproximadamente 40 minutos todo focado em Mr. Big e um desfile de carisma. Foi ele quem dedicou mais minutos para conversar com a plateia, seja arriscando palavras em português ou brincando com a inteligência de Felipe Andreoli (“o mais inteligente da banda”), a destreza de Marcelo Barbosa (“é um exibido”), o nome da turnê (“Bastards of Voices”) ou gritos vindos de fãs (“Paul Gilbert não está aqui, desculpe”, dizendo a um fã que pedia pelo guitarrista de seu antigo grupo).Foto: Ellen Artie @ellenartieEm entrevista a este que vos escreve, mostrou receio por incluir baladas como “Wild World” (original de Cat Stevens) e “To Be with You”, mas ambas renderam os momentos de maior interação, com mãozinhas (sem e especialmente com celulares) para o alto. Das mais pesadas, caprichou em “Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)” e “Colorado Bulldog”, a ponto de seu vocal soar melhor do que em suas visitas mais recentes.Da parte da banda, como esperado, execução instrumental impecável, a despeito de Felipe Andreoli, um dos melhores de seu instrumento a nível mundial, não ser Billy Sheehan. Leo Mancini assumiu a maior parte dos solos, já que havia excursionado com o cantor anteriormente. Só foi engraçado ver Eric tendo que lembrar Felipe de fazer backing vocals e incentivando o baixista e Marcelo Barbosa a se movimentarem mais pelo palco.Foto: Ellen Artie @ellenartieRepertório:Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song) (Mr. Big)Take Cover (Mr. Big)Green-Tinted Sixties Mind (Mr. Big)Wild World (cover de Cat Stevens)Colorado Bulldog (Mr. Big)To Be With You (Mr. Big)Addicted to That Rush (Mr. Big) Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Tim “Ripper” OwensA julgar pelas reações, Tim “Ripper” Owens foi quem mais agradou com seu show no Tokio Marine Hall. Também foi quem abdicou mais de músicas gravadas originalmente por ele: das seis executadas, apenas “Burn in Hell”, lançada pelo Judas Priest no álbum Jugulator (1996), traz seus vocais em versão de estúdio.Foto: Ellen Artie @ellenartieO Priest também se fez presente em “Electric Eye”, “Painkiller” (com execução irretocável de Edu Cominato) e “Breaking the Law”. As versões para “Highway to Hell” (AC/DC), que entrou no set por acaso durante os ensaios finais, e “Heaven and Hell” (Black Sabbath), uma homenagem a Ronnie James Dio, poderiam soar caricatas, mas funcionaram.De bom humor também notado por comentários como “é a primeira vez desde o Judas Priest que toco com uma banda mais famosa do que eu”, Ripper conquistou o público não apenas pelo repertório em si, certamente o mais pesado da noite (e também o mais curto junto de Edu Falaschi, com 35 minutos cada). Sua performance vocal surpreende pelo alcance e poderio. Ciente deste ponto forte, entregou uma série de agudos que eram celebrados como um gol pela plateia. Foi, ao lado de Jeff Scott Soto, quem melhor se encaixou ao conceito da turnê.Foto: Ellen Artie @ellenartieRepertório:The Hellion + Electric Eye (cover de Judas Priest)Burn in Hell (Judas Priest)Painkiller (cover de Judas Priest)Breaking the Law (cover de Judas Priest)Highway to Hell (cover de AC/DC)Heaven and Hell (cover de Black Sabbath) Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Edu FalaschiTalvez mais fãs de Angra tivessem comparecido se o Masters of Voices ocorresse antes dos shows especiais da banda com Edu Falaschi, no último mês de abril. Ainda assim, foi interessante assistir ao cantor novamente junto de Marcelo Barbosa e Felipe Andreoli, bem como observar as performances de Leo Mancini, a cargo das guitarras originalmente executadas por Rafael Bittencourt, e especialmente de Edu Cominato, que se saiu bem mesmo sob a responsabilidade de reproduzir as complexas linhas de Aquiles Priester.Foto: Ellen Artie @ellenartieEntre todos os cantores, Falaschi é quem está com a voz mais afetada, devido aos problemas de saúde já conhecidos e compreendidos pelo público. Ainda assim, sua performance tem ganhado qualidade progressivamente nos últimos anos, o que se nota especialmente em canções como “Millennium Sun” (durante a qual pode explorar mais seu belo timbre grave) e “Rebirth”. Por vezes, ele até emplaca alguns agudos em partes não previstas, como ao fim de “Heroes of Sand” — aliás, finalizar sua etapa com esta música trouxe uma sensação um pouco esquisita, mas é mera questão de costume.O artista de 54 anos — o mais jovem entre os quatro — foi quem mais ajustou seu repertório à ocasião. Ele abdicou de canções mais aceleradas, como “Nova Era”, “Spread Your Fire”, “The Temple of Hate” e “Angels and Demons”, figurinhas carimbadas de seu show solo, e priorizou baladas e faixas mais cadenciadas, a exemplo de “Acid Rain” e “Waiting Silence”. Também chamou atenção o fato de ele ter sido o único a cantar apenas músicas que gravou as versões originais. Eric Martin executou apenas Mr. Big, mas um de seus números, “Wild World”, é um cover de Cat Stevens.Foto: Ellen Artie @ellenartieRepertório:Acid Rain (Angra)Millennium Sun (Angra)Bleeding Heart (Angra)Waiting Silence (Angra)Rebirth (Angra)Heroes of Sand (Angra) Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Jeff Scott SotoNão dá para definir Jeff Scott Soto como headliner da turnê apenas por ter feito o show final, pois a ordem dos cantores é alterada a cada compromisso. No entanto, foi ele quem entregou a performance mais longa: 45 minutos sem contar a entrada final dos vocalistas em “Living After Midnight”. Abrangeu a vasta gama de projetos que integrou (W.E.T., Journey em uma turnê, Talisman, Yngwie Malmsteen, Sons of Apollo e a trilha sonora do filme “Rock Star”) e ainda encontrou espaço para uma versão encurtada de “Mama, I’m Coming Home” em homenagem a Ozzy Osbourne, cuja morte completa um ano na próxima quarta-feira (22).Foto: Ellen Artie @ellenartieTambém foi JSS quem mais interagiu com a plateia, a ponto de executar “I’ll Be Waiting” (Talisman) circulando pela pista, cantar uma parte de “Coming Home” sem microfone (com a banda silenciada, é claro) e explicar sua recente perda de peso, provocada por mudança de hábitos após descobrir ter diabetes. “O médico disse: ‘não pode mais vira-vira (de caipiroska), coxinha e feijoada’”, contou, antes de mostrar a barriga enxuta e… virar uma caipiroska. Ao menos havia Sprite zero como um dos ingredientes.Soto estava muito à vontade, seja por compartilhar o palco com músicos que já o acompanharam várias vezes antes (Mancini e Cominato), pelas constantes visitas ao Brasil (a ponto de saber uma boa quantidade de palavras em português e ostentar uma camiseta da seleção brasileira) ou simplesmente pelo talento vocal. Curiosamente, sua voz foi a menos evidente na mix entre todos os shows, mas há tanta potência envolvida que, mesmo assim, dava para ouvi-lo bem nos momentos que mais lhe exigiam fôlego.Foto: Ellen Artie @ellenartieRepertório:One Love (W.E.T.)Separate Ways (Worlds Apart) (cover de Journey)Mama, I’m Coming Home (cover de Ozzy Osbourne)I’ll Be Waiting (Talisman)I Am a Viking / I’ll See the Light Tonight (Yngwie Malmsteen)Coming Home (Sons of Apollo)Stand Up (Steel Dragon)Bis:Living After Midnight (cover de Judas Priest; com todos os vocalistas) Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Quer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.O post Masters of Voices oferece grandes vocalistas para público abaixo do esperado em SP apareceu primeiro em Igor Miranda.