Flávio prefere discurso golpista a tentar ganhar a eleição. Vai perder

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deveria se dedicar à tentativa de ganhar a eleição, né? Afinal, é pré-candidato do PL. Mas ele prefere se entregar a desfrutes golpistas. Vamos lá. Ele participou do “Flow Podcast” nesta quarta, num dia em que a pesquisa Quaest traz números devastadores para ele. Nem me dedicarei aqui a expô-los ou a esmiuçá-los. Já fiz isso no meu programa do começo da tarde. Mirou, claro, no STF e acusou a dupla Alexandre de Moraes-Flávio Dino, do STF, de, sei lá, usurpadora da legitimidade eleitoral e de tentar fabricar o resultado de 2026 no tapetão. Isso lembra alguém? Isso lembra alguma coisa?De novo, estamos nesta: se ele, Flávio, vence, vá lá, até pode aceitar. Os bacanas tentarão, ainda assim, mudar o sistema — tratar-se-ia da tática manjada das várias nuances do “fascistoidismo”, que consiste em usar as regras da democracia para solapá-la. Se perde, então resta não reconhecer o resultado porque o processo eleitoral estaria sob o controle do tribunal. Atenção! Eduardo Bolsonaro escreveu ontem esta preciosidade nas redes:“Se em todo um país apenas um prisioneiro é proibido de se comunicar com seu filho – e candidato à Presidência – por razões políticas, esta eleição não deveria, de antemão, ser reconhecida como democrática pelos países livres. A sanção Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, deve ser restabelecida”.Eis o sestro da extrema direita mundo afora. Quando Moraes, fazendo a coisa certa, impediu o candidato, não o advogado, de visitar Bolsonaro — em razão da produção de material proibido pela Justiça — Flávio tonitruou: seria o poder da caneta atuando contra o poder do voto. Trump disse rigorosamente a mesma coisa a cada derrota que sofreu — poucas, infelizmente — nos fracos tribunais americanos. Nada de novo sob o sol “dark” dos fascistóides. Convém lembrar: o pré-candidato do PL ameaçou usar a força contra o STF em entrevista concedida à Folha no dia 14 de junho do ano passado — se estiver no poder, claro… E nunca retirou a ameaça.LULA AJUSTOU O GOVERNOSim, Lula foi ajustando o governo, e isso certamente conta no resultado. “Ah, é a dinheirama…” Não entrava nesse papo udenista aborrecido nem quando Bolsonaro estava no Planalto. Como sabem, vênia máxima à divergência, sempre achei o governo muito melhor do que a avaliação que aparecia nas pesquisas. E ainda acho.Considero, nessa constatação, por óbvio, o que se herdou e o que se tem. Esses juízos são sempre relativos. Não cultivo nenhum administrativismo platônico: não acho que a gestão seja projeção imperfeita de uma realidade imutável — o governo do mundo das ideias. Platão era brilhante e reaça, rsrs. Não sou nem Platão nem brilhante. Nem reaça. Como escreveu Drummond, “Estou preso à vida e olho meus companheiros. (…) O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.”Advertência: quer me achar petista? Pode. Nunca tento desfazer impressões a meu respeito. Mas informo: “companheiros” nada tem a ver com o PT. O poema é de 1940, e o partido só foi fundado em 1980…DIREITA DESTRAMBELHADALula ajustou o governo, e creio que isso está na raiz da melhora na avaliação, e a extrema direita não encontrou nem as sombras imperfeitas de um tantinho de juízo. Flávio está sendo atropelado por seu passado — e ninguém o viveu em seu lugar. É obra sua.E tem feito todas as escolhas que a uma pessoa razoável, ainda que conservadora ou reacionária, parecem estúpidas.Ocorre, meus caros, que isso, para abusar de um clichê shakespeariano, é método, não loucura. No dia 4 de julho do ano passado, antevi em artigo no UOL que Tarcísio não seria candidato e que os Bolsonaros preferiam perder com alguém do “seu sangue” — nem Michelle servia — a ganhar com alguém de fora do clã. Nas minhas palavras de então:“Uma eventual vitória de Tarcísio — e pouco importa quantas juras de reacionarismo pudesse fazer na campanha — traz consigo necessariamente a troca de guarda na direita. Com reeleição e depois de eventuais oito anos, percebe-se a ambição de um bolsonarismo sem Bolsonaro para atrapalhar. Assim, a morte política do “capitão” pode se dar por intermédio daquele que é a sua mais vistosa criatura política. (…) Não quero chocar ninguém, mas o fato é que, havendo um Lula eventualmente vitorioso contra um Bolsonaro qualquer, o clã seguirá liderando a oposição. No caso do triunfo de Tarcísio contra o petista, o capitão será apenas o segundo em Roma. Depois de algum tempo, isso valerá muito menos do que ser o primeiro numa vila.”Quatro meses depois, no dia 4 de novembro daquele ano, Eduardo concedeu uma entrevista ao podcast “Market Makers” e, atacando a possibilidade de Tarcísio ser candidato, confessou que eu estava certo na leitura que eu fazia do seu jogo:“Quem vai ser o candidato? Eu não sei. Mas eu também vejo Vitória na derrota (…) Ainda, que de maneira arriscada, apostássemos e eu viesse a perder, nós conseguiríamos ter o êxito de manter acesa a chama do conservadorismo. (…) De fato existe um projeto né?, do establishment, que quer enterrar o Bolsonaro e bolsonarismo para colocar adiante um candidato, né?, que seja pintado de direita”.FANÁTICO NÃO VÊ DERROTAAprendam de uma vez por todas: não existe derrota para um fanático, ainda mais quando esse fanatismo rende poder, fama e fortuna — e ter o controle de algo em torno de 20% da opinião no Brasil (os demais que votam em Flávio no segundo turno o fazem por antipetismo) implica, um poder gigantesco. Mesmo na derrota.Pergunta incômoda: por que mesmo a direita democrática não buscou construir uma alternativa a essa gente bizarra? Há uma boa hipótese de que não tivesse nada a dizer senão o ataque de sempre aos interesses dos pobres, que ela chama invariavelmente de “populismo”.Como se sabe, só não são populistas os R$ 800 bilhões de despesas tributárias, entre isenções e renúncias fiscais. Bem, não são mesmo, né? São, na verdade, antipovo — e até antipopulistas, mas por via das consequências. Os economistas ouvidos de sempre acham que chutar a cruz é conceder reajuste real de aposentadoria, do salário mínimo e do BPC e manter constitucionalizadas verbas de saúde e educação…O antipopulismo, no Brasil em que Joaquim Nabuco previu que a escravidão nos entranharia, não se conforma que o povo não seja pendurado de cabeça para baixo, como frangos numa linha de produção. Vai, Flávio, ser Bolsonaro na vida!