Socorro a empresas e retaliação adiada: como o governo reagiu ao tarifaço dos EUA

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O governo reagiu ao novo tarifaço da gestão de Donald Trump de 25% sobre produtos brasileiros exportados para os EUA a partir do dia 22 com sete nomes do alto escalão refutando os argumentos apresentados pelos americanos.A reação coube ao vice-presidente, Geraldo Alckmin, que classificou a medida como “injusta e descabida”, e ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, que afirmou tratar-se de “interferência externa indevida”.Durigan ainda informou que o governo vai socorrer as empresas afetadas, mas os dois baixaram o tom quanto a medidas de reciprocidade. O presidente Lula reagiu nas redes sociais, dizendo que “não há justificativa” para a decisão da Casa Branca.“Desde o primeiro momento, buscamos o diálogo e enfatizamos nossa disposição de negociar. Apontamos que não há justificativa para as tarifas anunciadas. Não vamos abrir mão de defender o nosso Pix, a nossa soberania e os produtores brasileiros”, afirmou Lula na publicação.Nos cálculos do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), a nova taxação afetará 18% das exportações brasileiras para os EUA, o equivalente a US$ 7,4 bilhões, com base em dados de 2024. Se for considerado o valor do ano passado, a participação dos setores atingidos recuaria a 15%, ou US$ 5,8 bilhões.A estratégia de resposta foi delineada na manhã de ontem. Segundo interlocutores do Palácio do Planalto, o chanceler, Mauro Vieira, foi chamado por Lula e, no encontro, ficou acertado que não caberia ao presidente comentar as declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, subordinado de Trump.Leia tambémTarifaço: o que Lula ofereceu e o que vetou nas negociações contra as novas taxasPix e etanol, alvo de críticas dos Estados Unidos, foram temas inegociáveis para governo brasileiroTarifa dos EUA para produtos do Brasil será 2ª maior dentre todos os países; entendaDe acordo com monitor de comércio exterior, taxa média sobre produtos importados pelos EUA vai atingir um pico de 18,2% por apenas quatro diasRubio bate, Vieira rebateNa véspera, Rubio escreveu em uma rede social que Lula não negociou com os EUA em boa-fé e que o presidente colocou seu ego acima do fechamento de um acordo.Em declaração no começo da tarde, Vieira criticou a qualidade da investigação que resultou na aplicação da sobretaxa, considerada sem base técnica, e a motivação política.O chanceler classificou as declarações de Rubio como “inaceitáveis” e disse que ele atacou o presidente “de forma grosseira e arrogante”. O ministro salientou a disposição para o diálogo do governo brasileiro, com a realização, desde março de 2025, de mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico.— As declarações do secretário de Estado Marco Rubio, veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais, a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros — afirmou Vieira. — Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.Vieira disse que as investigações no âmbito da Seção 301 do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) são procedimentos “unilaterais”.O chanceler lembrou que, no ano passado, as tarifas para o Brasil foram elevadas de 10% para 50% após carta enviada por Trump a Lula, em julho passado, em razão do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.— Expressa motivação política, em tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro — afirmou, destacando ter sido nessa ocasião que foi dada a instrução ao USTR para iniciar a investigação.Poucas horas depois, uma tropa de choque com sete nomes do alto escalão rebateu as justificativas dos EUA para a taxação e apresentou os próximos passos.Participaram da entrevista o vice-presidente, o ministro da Fazenda, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o chanceler Mauro Vieira, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães. Eles destacaram que o Brasil se manteve à mesa de negociação para reverter ou atenuar a sobretaxa, mas que argumentos técnicos não foram considerados.Reciprocidade ‘no momento adequado’Alckmin reforçou que o governo poderá usar a Lei da Reciprocidade, aprovada no ano passado. Ela dá poderes à Câmara de Comércio Exterior (Camex) do Mdic para suspender concessões comerciais e de investimento em resposta a países ou blocos econômicos que impactam negativamente a competitividade dos produtos nacionais.— Temos uma Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, e o governo, no momento adequado, saberá como implementá-la — afirmou.Durigan também chamou a atenção para o tema:— Levaremos a um grupo de ministros e ao presidente Lula a retomada do processo de reciprocidade. O presidente Lula nos dará orientação a respeito disso.Tom nacionalistaCom ênfase na defesa de interesses nacionais, Durigan disse que o país não vai baixar a cabeça nem se dobrar a estrangeiros:— A gente precisa colocar em pratos claros que se trata de uma interferência indevida. Essa interferência externa, seja ela política, econômica ou uma forma qualquer de constranger o Brasil, as famílias brasileiras, os empresários e os trabalhadores brasileiros — afirmou. — A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos não para atender a um secretário de Estado de outro país. Preciso dizer (que uma decisão) baseada em motivação falsa fere o senso mais básico do nosso patriotismo. Ainda mais quando a oposição usa isso no momento eleitoral sem considerar os interesses do nosso povo.Pix seguirá gratuito, diz GalípoloO presidente do Banco Central saiu em defesa do Pix, assegurando que o sistema de pagamento seguirá gratuito, seguro e instantâneo. Ele citou que os argumentos dos EUA não encontram respaldo na realidade e disse que o mercado de cartões cresceu 150% desde a criação do Pix, refutando que ele tenha prejudicado empresas americanas.— A argumentação seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria a receita de caminhão-pipa — disse Galípolo. — O Pix foi benéfico para quem demanda e para quem oferta.Proteger empregosO titular da Fazenda afirmou que o governo já tem prontos os mecanismos para proteger empregos e empresas. A expectativa do governo é que o socorro a companhias afetadas pelo novo tarifaço seja menor do que iniciativas anteriores, lembrando que há mais exceções (leia mais na página 14). Durigan destacou que o aumento do socorro será feito com responsabilidade fiscal e que os compromissos fiscais definidos antes da guerra e do tarifaço serão cumpridos.O programa, chamado de Brasil Soberano, deve limitar-se às linhas de crédito com juros subsidiados, ao contrário do plano lançado em agosto passado, em que houve diferimento de impostos e facilitação de compras públicas, entre outras medidas. O ministro disse esperar um volume mais modesto.Elias Rosa, do Mdic, disse que as empresas poderão contar com a ajuda de diferentes formas e que o governo buscará diversificar as exportações:— Os setores mais atingidos são basicamente madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados, açúcar. Esses setores poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes modos — afirmou, acrescentando que o governo seguirá à mesa de negociação.O ministro do Meio Ambiente classificou os argumentos ambientais como “sem fundamento técnico” e sem base em “informações comprováveis”. Ele afirmou que o país reduziu o desmatamento na Amazônia em 50% nos três últimos anos e que isso foi apresentado em documentos e reuniões.Segundo Capobianco, na sequência os EUA acusaram o Brasil de encher o mercado internacional de madeiras ilegais, prejudicando empresas americanas:— Isso é absolutamente inverídico. Por dois motivos: o Brasil tem participação muito pequena no mercado internacional de madeira, apenas com 0,65%; segundo, porque nossa madeira não é a mesma produzida nos EUA. Todo parque industrial dos EUA se baseia em madeira de floresta temperada, essa madeira não compete com as madeiras de florestas tropicais, as chamadas madeiras de lei, que são para outros usos.Normalidade, só sem TrumpO diplomata Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e embaixador do país em Genebra, Washington e Roma, diz que, analisando de forma realista, resta ao Brasil esperar a saída de Trump do governo:— Quanto ao mercado dos EUA, penso realisticamente que será preciso esperar a era pós-Trump, não muito distante, para ter alguma esperança de um mínimo de normalização e de volta a relações comerciais mais estáveis.Para ele, a vantagem do Brasil é ter diversificado os parceiros comerciais, o que diminuiu a dependência do mercado americano:— Nossos principais mercados estão na Ásia (cerca de 50%), incluindo China, mas também Japão, Coreia do Sul, Malásia, Indonésia, Índia, que constituem a região mais dinâmica em crescimento econômico e demográfico.Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor da BMJ, acredita que qualquer negociação só deve avançar no ano que vem. Na sua visão, o governo brasileiro deve seguir com foco nas eleições, enquanto os EUA tendem a dar preferência a discussões com outros países.— As negociações vão continuar, mas vão ser longas. Não vai ser nada, talvez, para este ano. O Brasil vai ameaçar, os EUA vão ameaçar. Isso faz parte da própria negociação. E vão continuar durante algum tempo. Pode ter um aumento na lista de exceções, uma redução da tarifa. Lembrando que o Brasil não é prioridade para os EUA. Eles estão com várias negociações pendentes com a Europa, com a China, sem falar dos problemas geopolíticosThe post Socorro a empresas e retaliação adiada: como o governo reagiu ao tarifaço dos EUA appeared first on InfoMoney.