Se vocês me perguntarem se confio em todos os institutos de pesquisa, respondo assim: não aceito nem compartilhar o oxigênio com alguns dos responsáveis por números mágicos. Também não deixaria minha carteira ou meu relógio dando sopa. Vai que desaparecessem. Há ainda aqueles a quem recusaria até um cumprimento. Huuummm, tá: um copo d’água não se sonega a ninguém. Não deixaria que morressem de sede, mas sua saciedade, nesse particular ao menos, teria de ter vivida longe de mim. Assim, não quero que confundam o que vou escrever abaixo com um “atestado de acurácia” dos institutos.Tenho cá meus critérios para confiar e desconfiar. Não confio naqueles fazem pesquisas “autofinanciadas”, mas também para partidos. Não acredito em números que vêm escoltados por analistas que vão muito além de suas sandálias e dão “dicas” a candidatos ou a amigos na surdina — ou nem tanto… Não aposto em dados colhidos já com filtros pré-determinados, em que a leitura dos números precedem os números.Se vocês me perguntarem se há pilantragem nessa área, a minha resposta é “sim”, havendo pilantras mais influentes ou menos… Mas daí a se criar um “selo de acurácia” para institutos que mais acerta o resultado, como sugere Kássio Nunes Marques, ora presidente do TSE, vai uma distância muito grande.É uma das teses mais tolas jamais ditas sobre o assunto. Tal “acurácia” seria avaliada desde quando? Sabemos todos de sobejo: esses levantamentos, quando sérios, tentam captar, dentro da margem de erro, o que poderia acontecer se o pleito se realizasse no dia em que o entrevistado — que tem de compor os cortes da sociedade — responde à enquete.Pesquisas, quando bem-feitas, sem incompetência ou safadeza, não um possível retrato do momento. E nada além disso. “Ah, mas podem interferir na opinião de muitos…” Tenho cá as minhas dúvidas se é verdade, mas nem entro nisso agora. Convenham: um anúncio bombástico, ainda que à guisa de reportagem — pouco importando se falsa ou verdadeira — pode provocar muito mais estrago.Kássio me decepciona assim. Temos em comum as respectivas cabeças descomunais: a minha é tamanho 63; a dele talvez não fique muito atras. Bem difícil achar boina ou chapéu… Mas é preciso preencher com razoabilidade o intervalo entre as orelhas.Sim, sim… Há muita esculhambação no setor, e gente de quinta categoria se mistura com pessoas sérias. Mas não dá para embarcar na maluquice de Kássio. Até porque a definição do período que seria usado para atestar a “acurácia” não tem cientificidade possível.A bobagem é formidável. Até porque, caso se abra um chat qualquer para previsões eleitorais, será preciso dar também o “atestado de acurácia” para o chute — sem contar o risco de premiar a safadeza, que consistiria em produzir dados segundo a metafísica influente, ora pra lá, ora pra cá, como já se viu e tenho visto.Que o TSE acompanhe as pesquisas, as perguntas feitas e a tabulação de dados. Mas não nos esqueçamos jamais: levantamentos, quando honestos, reproduzem apenas e tão-somente o que poderia acontecer no momento da indagação. Não são preditivos.“Mas e os picaretas?”Enfrentemo-los no debate. Estão também no Convento, nos templos, na imprensa — além da chuva, da rua ou de uma casinha de sapé… Vá estudar, Kássioi. Não deponha contra o nosso Sindicato dos Cabeçudos.