"Ninguém julga": o grupo que ajuda a vencer o vício em jogos

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Belo Horizonte – “Você é a pessoa mais importante para a gente hoje”, é com essa frase que a reunião de número 2.542 dos Jogadores Anônimos (JA) cumprimenta quem participa pela primeira vez do encontro, que ocorre todas as terças e quintas-feiras, na sede da Associação Brasileira Comunitária de Prevenção ao Uso e Abuso de Drogas (Abraço). E todo dia chega uma pessoa nova, movida pelo desejo de se livrar do vício do jogo. Na maioria das vezes, quando já tentaram de tudo para largar o vício, mas não conseguiram.O perfil de quem lotava a sala: 48 pessoas, de diferentes idades, mas com grande parte de jovens adultos. Havia desde quem conheceu o jogo nos antigos bingos e caça-níqueis, quando era preciso ir até um local para apostar, até pessoas que começaram a jogar já na era das apostas esportivas e dos cassinos on-line. A maioria dos frequentadores da sala é do sexo masculino, mas havia também mulheres que passavam pelos mesmos problemas.“Mês que vem vamos completar 30 anos de existência em Belo Horizonte”, contou um dos integrantes do grupo, que preferiu não se identificar e participa das reuniões há 25 anos. Segundo ele, o aumento mais significativo na procura ocorreu logo após a pandemia da Covid-19, e, também, com a chegada das casas de apostas on-line ao Brasil.Precisa de ajuda? Saiba onde procurarO vício em aposta é reconhecido como um transtorno de saúde mental e tem tratamento.Pelo SUS, procure uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).Os Jogadores Anônimos (JA) realizam reuniões gratuitas em diversas cidades. Em Belo Horizonte, os encontros ocorrem às terças e quintas-feiras, das 19h às21h15, na Sede da Abraço (Av. do Contorno, 4.777, Funcionários). Informações pelo WhatsApp: (31) 99206-2501.Em caso de sofrimento emocional intenso ou ideação suicida, procure imediatamente um serviço de saúde ou entre em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida), que oferece apoio emocional 24 horas por dia.“Hoje, o perfil é de pessoas mais novas, de 18 a 30 anos. Já temos o caso de um adolescente de 16 anos que ingressou na irmandade. O perfil mudou justamente pela facilidade de fazer uma aposta, que está ali na palma da mão. Antes, as pessoas tinham que se deslocar para poder jogar; hoje, em qualquer lugar, elas podem fazer uma aposta pelo celular”, analisa.Quase 20 pessoas foram dar seus testemunhos durante as chamadas “palavras francas”, momento do encontro em que as pessoas se expõem, falam dos seus problemas e incentivam os que chegaram há pouco tempo, dizendo que ali é possível encontrar um caminho.  Embora tivessem perfis distintos — homens e mulheres, jovens e idosos, com diferentes condições financeiras —, as histórias se cruzavam e encontravam ali um lugar comum de acolhimento.“Nós nos identificamos com cada depoimento ali e, por mais absurdo que o irmão tenha falado que fez, nós não julgamos, porque cada um ali fez igual ou pior. Esse é o segredo das reuniões: nos fortalecer e ajudar outros irmãos que estão chegando a se fortalecerem”, disse.Um jovem comemorou que agora consegue se dedicar aos estudos e comemorava uma conquista que parecia simples, mas tinha um significado enorme: em breve viajará para o Rio de Janeiro com o irmão. Na mesma noite, uma mulher relatou o sonho de abrir uma loja e como viu tudo desmoronar em pouco tempo por causa das apostas. Com os olhos marejados, ela comemorava outra conquista: três chaveiros, símbolo de seis meses longe das apostas.Os chaveirosOs chaveiros funcionam como um incentivo para os companheiros que ficam sem fazer a primeira aposta. Quando a pessoa ingressa, recebe o primeiro chaveiro e se torna um membro. Depois de 30 dias sem fazer nenhuma aposta, conquista o segundo chaveiro e, assim, sucessivamente: 60 dias, 90 dias, 180 dias, nove meses e um ano. Depois disso, recebe o chaveiro de ano em ano.“O chaveiro é simbólico, mas muito importante na recuperação dos irmãos, porque, a cada conquista, a pessoa vai se fortalecendo e mostrando aos demais que é possível ficar sem fazer a primeira aposta”, contou membro.Existe, no entanto, uma regra: Se houver recaídas, não importa o número de chaveiros que tenha conquistado, tem que devolver todos e começar tudo de novo. E as pessoas que passam pelas recaídas voltam e contam seus testemunhos de novo, muitas vezes envergonhadas, mas são acolhidas do mesmo jeito, sem julgamentos, pois a recaída também faz parte do processo. O importante é não permanecer lá e voltar quantas vezes forem necessárias. Leia também BrasilAlerta em propaganda de bets sobre risco de dependência começa a valer Mirelle PinheiroPF apura esquema que usava influenciadores para promover bets ilegais Fábia OliveiraBárbara Evans se desculpa por ter divulgado bets: “Me redimir” Mirelle PinheiroGoogle e Apple terão de explicar ao MJ acesso de crianças a bets Grupo do FundãoA chegada de jovens com problemas tão semelhantes deu origem ao chamado, de forma carinhosa, “grupo do fundão“. Naquela quinta-feira, porém, eles se sentaram nas primeiras fileiras para acompanhar um amigo que havia sofrido um acidente de moto.“Mandamos mensagem para eles todos os dias”, contou um deles, durante a reunião explicando que o objetivo é garantir que todos permaneçam firmes no propósito de abandonar as apostas e construir uma nova relação com o dinheiro e com o vício.O encontro durou pouco mais de duas horas. Na primeira meia hora, muita gente ainda chegava. Naquele dia, dois novos membros eram recebidos e, a cada fala, seus nomes eram lembrados. “Vocês são as pessoas mais importantes aqui hoje”, repetiam. Quando alguém fala, todos prestam atenção. E no final o desejo para que todos fiquem mais 24 horas sem jogar.As relações ultrapassam aquele espaço, e é possível perceber que dali nasceram amizades verdadeiras. “São os nossos amigos daqui. Olha como são as coisas. Eu tive que cair no fundo do poço para descobrir que meus amigos de verdade eram pessoas que passaram pela mesma coisa que eu. Se você parar para conversar com qualquer um ali, vai perceber que todas as histórias têm a mesma essência”, disse o ex-zagueiro profissional Ítalo Augusto Souza Araújo, em entrevista ao Metrópoles, antes do início da reunião.Ítalo afirma que recuperou  o sentido do que é estar, de fato, com a cabeça presente, atento ao que o outro diz e ao que se propõe a fazer. Hoje, ele e os colegas voltaram a encontrar alegria nas coisas simples. “Com R$ 20 a gente sai, come um pastel, toma um refri e aproveita… A gente tá voltando a ser o que a gente era.”Como funcionaAs reuniões são baseadas no programa dos 12 Passos, adaptado do Alcoólicos Anônimos (AA) para o Jogadores Anônimos (JA). Elas se baseiam, principalmente, nas “palavras francas”, que são os depoimentos dos membros. Cada um conta um pouco da história vivida na época da jogatina e também o que está vivendo agora, livre das apostas. É importante dizer o tempo que está em recuperação. Eles se denominam como “jogador compulsivo em recuperação”.“E esses depoimentos vão ajudando aqueles que estão chegando e mostrando para eles que não estão sozinhos. O que eles fizeram para jogar, todos nós ali na sala fizemos. Isso cria um elo muito forte. A pessoa enxerga que é um doente compulsivo e que não fez nada porque é um malandro, e sim porque é um adicto ao jogo. Então, com a frequência às reuniões, ela vai se fortalecendo e entendendo que é preciso apenas viver um dia de cada vez, sem fazer a primeira aposta”, relatou um integrante que está há 25 anos no JA.As reuniões acontecem todas as terças e quintas-feiras, das 19h15 às 21h15. Às terças-feiras, ocorre também, em uma sala paralela, a reunião do Jog-Anon, grupo destinado aos familiares.“É como se fosse o nosso remédio diário. […] Então, quanto mais reuniões, mais chances temos de nos recuperar, porque nos identificamos e falamos a mesma língua, sem julgamentos”, disse.Banner da reunião dos jogadores anônimos de BHDetalhes da reuniãoÉ gratuitaÉ preciso ter o desejo de parar de jogarDinheiro é o gatilho para começar ou voltar a jogarVocê encontra pessoas que já passaram pelo mesmo que você passou e te entendemNão há julgamentosQuando há recaída, o remorso é acentuado, mas é preciso voltar e começar de novoQuando o jogo vira transtornoA dependência em jogos de apostas é reconhecida como um transtorno de saúde mental relacionado ao comportamento aditivo. Embora não seja classificada como uma doença, ela tem tratamento.Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta cognitivo-comportamental Rodrigo Barreto Huguet, isso acontece porque “os transtornos resultam de uma combinação complexa de fatores biológicos, psicológicos, comportamentais e ambientais”.Ele explica que pode existir uma predisposição biológica, mas ela, sozinha, não é suficiente para explicar o desenvolvimento do quadro. O especialista afirma que o transtorno compartilha mecanismos semelhantes aos observados na dependência de álcool e outras drogas, principalmente pela atuação da dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer e recompensa.“O mecanismo de recompensa envolvido no transtorno do jogo apresenta semelhanças com o observado na dependência de álcool e outras drogas, especialmente pela participação da dopamina”, explica o psiquiatra.Apesar disso, ele ressalta que existem diferenças importantes: enquanto as substâncias psicoativas provocam alterações químicas mais intensas e podem causar danos estruturais ao cérebro, o jogo patológico está relacionado principalmente a alterações nos circuitos cerebrais responsáveis pelo controle dos impulsos, pela tomada de decisão e pelo sistema de recompensa.Os primeiros sinais de alerta aparecem quando a pessoa perde o controle sobre o comportamento de apostar. “Ela passa a gastar mais dinheiro do que pretendia, dedica grande parte do tempo pensando em apostas, sente irritação ou ansiedade quando não consegue jogar e tenta recuperar perdas apostando cada vez mais”, afirma Huguet. Com o tempo, surgem prejuízos financeiros, familiares, profissionais e sociais, mas o comportamento persiste.Na práticaDe acordo com levantamento da empresa VR, transtornos relacionados a jogos e apostas acumularam 976 dias de afastamento do emprego em apenas 37 casos registrados em suas bases, com episódios que chegam a 89 dias consecutivos de ausência.Os dados mostram piora ano a ano desde 2022. Além do aumento no volume de casos, os dias de ausência saltaram de 202 em 2024 para 620 em 2025, praticamente triplicando em relação ao ano anterior.Se identificou com a história? Procure ajudaQuem enfrenta dificuldades para controlar as apostas pode procurar atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).Em situações de sofrimento emocional intenso ou pensamentos de morte, a orientação é buscar ajuda imediatamente em um serviço de saúde ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional 24 horas por dia.Os Jogadores Anônimos realizam reuniões gratuitas em diversas cidades do país. Em Belo Horizonte, os encontros acontecem na Sede da Abraço, na Avenida do Contorno, 4.777, no bairro Funcionários, às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h15. Não é necessário fazer inscrição: basta comparecer ao local.