Hoje, Espanha e Argentina disputam o título mundial de futebol depois de percursos que, apesar de diferentes na forma, foram semelhantes na consistência. Não chegaram ao jogo decisivo por acaso, nem por detalhes fortuitos. São bons de bola e foram, na maior parte do torneio, superiores aos adversários que encontraram pelo caminho.A Espanha apresentou talvez o futebol coletivo mais refinado da competição. A equipa de Luis de la Fuente venceu a Áustria (3-0), eliminou Portugal (1-0), afastou uma Bélgica surpreendente (2-1) e confirmou a candidatura ao título ao derrotar a favorita França por 2-0 nas meias-finais. Em todas essas partidas controlou o ritmo, monopolizou a posse de bola e impôs a sua identidade sem abdicar da intensidade.A Argentina percorreu um caminho diferente, mais físico e emocional, mas igualmente convincente. Superou Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra até chegar à final. Sofreu mais em alguns momentos, sobretudo nos oitavos-de-final, mas encontrou sempre soluções. Quando precisou de acelerar, acelerou. Quando foi necessário defender, soube sofrer. E quando o talento individual fez falta, apareceu Lionel Messi.Ao contrário de outros Mundiais, em que várias candidatas oscilaram entre grandes exibições e jogos dececionantes, espanhóis e argentinos mantiveram um rendimento elevado praticamente do primeiro ao último encontro. França, Inglaterra, Brasil e Portugal tiveram momentos de brilho, mas também períodos de quebra que acabaram por lhes custar a continuidade na prova.O Mundial das polémicas… e das arbitragensNenhum grande torneio escapa às discussões sobre arbitragem e este Mundial não foi exceção.A utilização do VAR voltou a dividir opiniões. A maior controvérsia surgiu após a vitória argentina sobre o Egito, quando a federação egípcia contestou a anulação de um golo e reclamou uma grande penalidade que não foi assinalada. Dias depois, a Suíça também criticou decisões disciplinares no encontro dos quartos-de-final frente à Argentina, incluindo a expulsão de Breel Embolo. As críticas, porém, não alteraram a posição da FIFA.Pierluigi Collina, presidente da Comissão de Arbitragem da FIFA, recusou qualquer insinuação de favorecimento e defendeu a independência dos árbitros, lembrando que a integridade da equipa de arbitragem não pode ser colocada em causa por pressão mediática ou institucional. O responsável reconheceu que existem decisões interpretativas, mas afirmou que a organização considera que o princípio do VAR foi corretamente aplicado ao longo do torneio.Isso não significa que não tenham existido erros. Existiram, como existem em praticamente todas as grandes competições. Mas o balanço geral deixa uma ideia difícil de contrariar: nenhuma das duas finalistas chegou ao último jogo devido à arbitragem. Espanha e Argentina construíram o percurso sobretudo através da superioridade demonstrada dentro das quatro linhas.A confirmação de uma nova EspanhaSe há quatro anos a seleção espanhola era vista como um projeto promissor, este Mundial representa a sua confirmação definitiva. A renovação iniciada após o ciclo dourado de 2008 a 2012 parece finalmente completa. A equipa mantém a tradicional capacidade para controlar os jogos através da posse, mas tornou-se mais vertical, mais agressiva e mais imprevisível.Rodri voltou a ser o cérebro e pêndulo da equipa. Oyarzabal encontrou a maturidade competitiva que muitos antecipavam e tem sido o homem golo. Cubarsi confirmou-se como um dos centrais mais entusiasmantes do mundo.E depois existe Lamine Yamal. Ainda adolescente, assumiu responsabilidades que normalmente pertencem aos veteranos. Criou desequilíbrios constantes, decidiu partidas importantes e chegou à final como um dos rostos maiores deste Mundial. Não tem feito golos, mas é o segundo jogador da prova com mais dribles conseguidos (23), apenas atrás de Messi (25). O prémio de melhor jovem jogador parece praticamente garantido, mas a dimensão do seu torneio pode colocá-lo também na discussão pelo prémio de melhor jogador da competição.Messi continua a desafiar o tempoSe Yamal representa o futuro, Lionel Messi continua a lembrar porque pertence ao passado, ao presente e talvez à eternidade do futebol.Aos 39 anos, voltou a comandar a Argentina. Marcou, assistiu, acelerou quando foi necessário e desacelerou quando a equipa precisava de respirar. Sobretudo, manteve aquela capacidade rara de transformar decisões aparentemente simples em jogadas decisivas.É um Mundial diferente daquele que conquistou em 2022. Depende mais da inteligência, da leitura dos espaços, precisão do passe. Da forma como continua a perceber o jogo antes de todos os outros. Poucos jogadores conseguiram prolongar a excelência durante tanto tempo. Ainda menos o fizeram em três décadas diferentes. A bola escolheu… os craques da bolaIndependentemente do vencedor, as duas melhores equipas chegaram ao último jogo. Num torneio onde se falou tanto de VAR, de tecnologia, de critérios disciplinares e de decisões arbitrais, o futebol acabou por impor a sua lógica.A bola escolheu os protagonistas. Escolheu uma Espanha que representa o futuro imediato do futebol europeu. Escolheu uma Argentina que continua a saber competir como poucas seleções no mundo. E escolheu, mais uma vez, Lionel Messi. Talvez pela última vez num Campeonato do Mundo. Ou talvez para entregar simbolicamente o testemunho ao rapaz de 19 anos que veste a camisola de Espanha e parece destinado a marcar a próxima década. A bola escolheu Messi e, ao mesmo tempo, também Lamine Yamal.O conteúdo A bola escolheu Messi… e talvez Yamal. Espanha-Argentina joga-se hoje para decidir o campeão do mundo aparece primeiro em Revista Líder.