Com mais tempo livre durante as férias escolares, é comum que crianças e adolescentes passem mais horas em frente a celulares, tablets, computadores e televisões. Embora a tecnologia faça parte do cotidiano e possa ser uma ferramenta de entretenimento e aprendizado, especialistas alertam que o uso excessivo das telas pode trazer impactos importantes para a saúde, especialmente quando substitui atividades como brincadeiras, exercícios físicos, interação social e descanso.Um dos principais efeitos está relacionado ao sono. Segundo uma meta-análise publicada no “American Journal of Health Promotion”, crianças com maior exposição a smartphones e tablets apresentam maior probabilidade de dormir menos, ter pior qualidade do sono e praticar menos atividade física.De acordo com a pediatra Silvia Nigro, responsável pelo Núcleo de Medicina do Adolescente do Hospital Sírio-Libanês, o problema não está apenas na quantidade de horas em frente às telas, mas na forma como a tecnologia passa a ocupar espaços importantes da rotina infantil.“O problema não é apenas o tempo de tela, mas quando o celular substitui experiências fundamentais para o desenvolvimento, como brincar, praticar atividade física, conviver com outras pessoas e descansar adequadamente”, afirma.A especialista explica que sinais como alterações no sono, no apetite, no rendimento escolar ou na convivência social podem indicar que o uso dos dispositivos está ultrapassando um limite saudável. Quando há perda de funcionalidade, esse já é um sinal importante de alerta”, acrescenta.Luz azul interfere no sonoAlém do tempo de exposição, a forma como os dispositivos eletrônicos afetam o organismo também preocupa. A luz azul emitida por celulares, tablets e computadores interfere na produção de melatonina, hormônio responsável por preparar o corpo para dormir.Somado a isso, jogos eletrônicos e vídeos curtos mantêm o cérebro em estado de alerta, dificultando o relaxamento e tornando o início do sono mais demorado.A pediatra Lucila Faria, do Hospital Sírio-Libanês, recomenda que crianças deixem de usar telas pelo menos uma hora antes de dormir.“O ideal é desligar as telas pelo menos uma hora antes de dormir. Para crianças que já apresentam dificuldade para pegar no sono, esse intervalo pode chegar a duas horas. É necessário fazer uma transição para o descanso, com atividades tranquilas, como banho, leitura e conversas em família”, orienta. Leia Mais Não colocou regras para seus filhos com as telas? Agora pode ser tarde Redes sociais podem aumentar bruxismo em crianças e adolescentes Os perigos de usar redes sociais e IA para decisões de saúde Quais são os limites recomendados?A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) orienta que crianças menores de dois anos não sejam expostas às telas.Para as demais faixas etárias, a recomendação é:entre 2 e 5 anos: até uma hora por dia;entre 6 e 10 anos: até duas horas diárias;entre 11 e 18 anos: até três horas por dia, sempre com supervisão dos responsáveis e priorizando conteúdos adequados para cada idade.A entidade também recomenda evitar o uso de telas durante as refeições e no período que antecede o horário de dormir.Impactos vão além do sonoOs especialistas destacam que permanecer muitas horas diante das telas também reduz o tempo dedicado às brincadeiras, aos esportes e às atividades ao ar livre, favorecendo o sedentarismo, o ganho de peso, alterações posturais e prejuízos ao desenvolvimento motor.“A criança precisa correr, brincar, pular, cair, levantar e explorar o ambiente para se desenvolver de forma saudável. O movimento faz parte do desenvolvimento motor, emocional e social. Quando a rotina fica muito restrita às telas, ela perde oportunidades importantes de movimento e interação”, explica Lucila.Além dos efeitos físicos, o uso excessivo da tecnologia também pode provocar mudanças no comportamento, como irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e resistência para interromper o uso dos dispositivos.“Quando o uso de telas começa a alterar o sono, o apetite, o rendimento escolar ou a convivência social, é importante rever a rotina e estabelecer novos limites”, reforça Silvia.Equilíbrio é a principal estratégiaEm vez de proibir completamente o acesso aos dispositivos eletrônicos, os especialistas defendem que o mais importante é estabelecer uma rotina equilibrada durante as férias.Organizar o dia com momentos destinados às brincadeiras, atividades físicas, passeios, descanso e um período previamente combinado para o uso das telas pode ajudar a reduzir conflitos e incentivar hábitos mais saudáveis.“Uma estratégia simples é organizar o dia em blocos. Pela manhã, alguma brincadeira ou atividade com movimento; à tarde, um período previamente combinado para uso da tecnologia e, à noite, reduzir os estímulos para favorecer o sono. A tecnologia pode fazer parte das férias, mas não deve ocupar todos os espaços da rotina”, afirma Lucila.Silvia também destaca a importância de envolver as próprias crianças na construção da rotina.“Quando elas participam das decisões, tendem a aderir melhor às regras. Vale combinar previamente os períodos de tela e incluir atividades variadas, como brincadeiras ao ar livre, jogos em família, visitas a amigos e momentos de descanso. O ócio também é importante para o desenvolvimento e a criatividade”, conclui.