Véu, latim e padre de costas: como é a missa celebrada por religioso excomungado

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Localizada na esquina da QNO 19, em Ceilândia (DF), a Capela Santo Atanásio se destaca por preservar a missa tridentina, celebrada em latim e voltada aos ritos anteriores ao Concílio Vaticano II. Ligada à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), a igreja reuniu cerca de 30 fiéis na celebração da noite dessa quinta-feira (16/7). O Metrópoles acompanhou de perto a missa da comunidade que foi excomungada pelo Vaticano nessa semana.2 imagensFechar modal.1 de 2Livretos do ordinário da missa celebrada na Capela Santo AtanásioLuisa Rany/Metrópoles2 de 2Missa é celebrada em latim para os fiéisLuisa Rany/MetrópolesAssim que os portões são abertos, quem chega é recebido pelos operários da igreja com um cumprimento e orientações. Aos visitantes de primeira viagem, eles explicam como funciona a celebração e mostram onde ficam os livretos do ordinário da missa, que permitem acompanhar as orações em latim e em português.Na entrada, duas caixas chamam a atenção. Quem se aproxima encontra em uma delas véus brancos, usados pelas mulheres solteiras. Na outra, os pretos, destinados às casadas e viúvas. Antes mesmo de entrar na igreja, mulheres e crianças do gênero feminino cobrem a cabeça com a tradicional mantilha de renda, um costume seguido durante todas as celebrações.A prática é baseada na tradição católica e na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. Para os fiéis ligados ao rito tradicional, o véu representa reverência diante de Deus e respeito ao momento da celebração. No local sagrado, o uso de celulares também não é permitido.Já no interior da capela, o silêncio domina o ambiente. Homens vestem terno e roupas formais enquanto às mulheres fica reservado o uso de vestidos e saias longas. Calças não fazem parte da vestimenta adotada por elas. Até as crianças acompanham os pais usando mantilhas brancas.Enquanto aguardam o início da celebração, alguns permanecem sentados nos bancos de madeira, já outros rezam ajoelhados. Ao lado do altar, o padre Françoá Costa atende os fiéis que desejam se confessar antes da missa.As paredes brancas e azuis contrastam com o altar simples, onde um crucifixo ocupa o centro. Imagens de santos e candelabros iluminados por uma luz baixa reforçam o clima de recolhimento.3 imagensFechar modal.1 de 3A cisma e excomungação do padre Françoá Costa ocorreram, pois ele considera-se, desde abril do ano passado, aderente à FSSPXVINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto2 de 3O padre reforçou que a postura de oposição ao Concílio Vaticano II e ao modernismo na Igreja Católica será mantidaVINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.foto3 de 3A Arquidiocese de Brasília declarou a excomunhão do padre Françoá Costa e de toda a comunidade ligada à Capela Santo AtanásioVINÍCIUS SCHMIDT/METRÓPOLES @vinicius.fotoQuem chega faz o sinal da cruz antes de entrar. Muitos seguram um terço nas mãos e se ajoelham por alguns instantes antes de ocupar os bancos. Não há conversas e apenas o som baixo das orações pode ser ouvido.Naquela noite, dedicada a Nossa Senhora do Carmo, o padre explica que, após a celebração, irá colocar o escapulário nos fiéis que ainda não o receberam e aspergir água benta sobre toda a comunidade. Segundo ele, quem recebe o escapulário assume também um compromisso espiritual, como rezar diariamente ou cumprir alguma penitência.Às 19h30, três badaladas do sino rompem a noite e anunciam o início da missa. É nesse momento que todos se levantam para receber o padre, que entra pelo corredor central vestido com paramentos dourados e acompanhado por dois coroinhas de preto e branco. Enquanto ele caminha até o altar, os fiéis fazem uma leve reverência em sinal de respeito e acompanham a caminhada do sacerdote.O silêncio dá lugar apenas às orações e o que chama a atenção de quem frequenta o lugar pela primeira vez é o posicionamento do padre diante do altar. Durante praticamente toda a celebração, ele permanece voltado para o altar, de costas para os fiéis. Na Missa Tridentina — também chamada de Missa Tradicional ou Missa de São Pio V — sacerdote e comunidade permanecem voltados para a mesma direção, simbolizando que caminham juntos em direção a Deus.Grande parte da celebração acontece em latim e em alguns momentos, os fiéis respondem às orações acompanhando os livretos. Em outros, permanecem em silêncio, especialmente durante o Cânon Romano, a principal oração eucarística da missa.Frequentadora da comunidade há um ano, uma fiel conta que o idioma pode causar estranhamento nas primeiras celebrações, mas diz que a dificuldade diminui com o tempo.“Estou fazendo um cursinho de latim para conseguir acompanhar com mais calma, mas, com o ordinário da Santa Missa, a gente consegue seguir a celebração porque o texto está em latim e em português”, afirma.A celebração segue a ordem tradicional: as orações ao pé do altar, as leituras, o sermão, a profissão de fé, o ofertório, a consagração, a comunhão e as orações finais. O ápice da missa acontece na consagração, quando o sacerdote eleva a hóstia e o cálice e os olhos dos fiéis permanecem voltados para o altar durante todo o rito.Na comunhão, quem vai receber a Eucaristia forma uma fila diante do altar. Um a um, os fiéis comungam de joelhos e recebem a hóstia diretamente na língua. Depois retornam aos bancos, onde permanecem ajoelhados em oração. Quem não vai comungar continua sentado, aguardando o fim daquele momento.Encerrada a celebração, todos se levantam novamente para a saída do padre e dos coroinhas. Mais uma vez, os fiéis fazem uma reverência enquanto eles deixam o altar, após esse momento alguns deixam a igreja logo em seguida. Outros permanecem ajoelhados por mais alguns minutos, prolongando o momento de oração mesmo depois do fim da missa.Outra fiel diz que acompanha a trajetória do padre Françoá da Costa desde que ele chegou a Brasília, em 2021 antes mesmo de ter um espaço para celebrar a missa. Na época, chegou a ceder um espaço em sua chácara, no Incra 9, para que ele celebrasse as missas e como o local ficava afastado, muitas mulheres relatavam insegurança para participar dos ritos e depois de diversas tentativas, o sacerdote conseguiu alugar um imóvel em Ceilândia. Em 2025, fundou a Capela Santo Atanásio.Segundo ela, foi na primeira celebração que ela encontrou o tipo de missa que buscava. “Quando participei da primeira missa, vi que era exatamente o que eu queria”, conta.Ela reconhece que o latim pode causar estranhamento, mas diz que isso não impede os fiéis de acompanhar a celebração. “A gente não sabe latim, mas usa um livrinho com o texto em latim e a tradução em português. Assim, você consegue acompanhar e perceber o quanto tudo é profundo”, explica.Para a fiel, um dos momentos mais simbólicos é quando o padre celebra voltado para o altar, de costas para a assembleia. “Ele reza de frente para a cruz porque é o sacrifício de Jesus se oferecendo a Deus para nos salvar. A missa não é para que a gente simplesmente entenda tudo, mas para participar desse sacrifício de Cristo”, afirma. Leia também Distrito FederalPadre excomungado denuncia nominalmente sacerdotes acusados de estupro Distrito FederalCNBB esclarece ritos proibidos para padre excomungado pelo Vaticano Distrito FederalPadre excomungado: como é o processo e quais consequências na Igreja Distrito FederalFraternidade de padre excomungado no DF manda recurso ao Vaticano ExcomunhãoExcomungado pelo Vaticano após a confirmação do vínculo da Capela Santo Atanásio, em Ceilândia (DF), com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, o padre Françoá Costa afirmou que continuará exercendo normalmente o ministério religioso e classificou como “inválida” a decisão da Igreja Católica.Em entrevista ao Metrópoles, o sacerdote afirmou que não pretende recorrer da decisão do papa Leão XIV e sustentou que nem ele nem a comunidade religiosa se consideram em situação de cisma, termo utilizado para definir a ruptura da comunhão com a autoridade do papa e da hierarquia da Igreja.A FSSPX, fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, defende a preservação das tradições da Igreja Católica, como a celebração da missa em latim e a manutenção dos ensinamentos anteriores ao Concílio Vaticano II.O Vaticano, por sua vez, considera que a fraternidade rejeita parte das reformas aprovadas pelo concílio e desafia a autoridade da Igreja, o que tem provocado sucessivos embates entre as duas partes e culminou na recente declaração de cisma e excomunhão.A excomunhão foi anunciada após as sagrações episcopais realizadas em 1º de julho sem autorização do papa. Segundo o Vaticano, a consagração de bispos sem aprovação papal configura uma violação do Código de Direito Canônico.A Arquidiocese de Brasília também publicou uma nota informando que a Capela Santo Atanásio e o padre Françoá estão em situação de cisma e que os sacramentos administrados no local, como confissões e casamentos, são inválidos.Para o sacerdote, no entanto, a própria legislação da Igreja prevê exceções que afastariam a aplicação da pena. Apesar disso, Françoá afirmou reconhecer a autoridade do papa Leão XIV e disse rezar diariamente por ele durante as missas.“Para nós, essas excomunhões e essas declarações de cisma são totalmente inválidas. Em consciência, não houve nem cisma nem excomunhão. A nossa vontade não é de nos separar nem do Papa e nem da Igreja Católica”, afirmou.Segundo o padre, a decisão do Vaticano não altera a rotina da comunidade. Ele afirmou que as missas, confissões, casamentos, batizados e demais celebrações continuarão sendo realizados normalmente na capela.