António José Seguro e Daniel Francisco Chapo defenderam uma nova fase nas relações entre Portugal e Moçambique, mais orientada para investimento, energia, juventude e resultados concretos, no arranque da 9.ª edição do EurAfrican Forum.Portugal e Moçambique querem abrir uma nova fase na relação bilateral, menos assente apenas na memória histórica e mais orientada para resultados económicos, empresariais e estratégicos. Numa conversa entre António José Seguro e o Presidente de Moçambique, Daniel Francisco Chapo, a palavra-chave foi repetida várias vezes: resultados.Foi com este mote que começou ontem a 9.ª edição do EurAfrican Forum, na Nova SBE, em Carcavelos. O tema deste ano, Africa Rising: Prosperity through Global Cooperation, deixa clara a prioridade da cimeira em debater o futuro de cooperação entre Europa e África. Cristina Esteves, Jornalista e Pivô da RTP, moderou a conversa entre os Presidentes, que inaugurou o evento. Portugal e Moçambique querem transformar relação histórica em parceria económicaSeguro começou por defender que a relação entre os dois países deve «trazer o passado», mas ser capaz de se traduzir em «atos significativos». Recordou que há cerca de 13 mil moçambicanos residentes em Portugal e cerca de 40 mil portugueses residentes em Moçambique, defendendo que esta diáspora deve ser «aproveitada melhor», com inteligência e sensibilidade. Garantiu ainda que é necessário transformar comércio em investimento produtivo e que trabalhar em conjunto é a solução, deixando o desafio aos empresários.Daniel Francisco Chapo alinhou o discurso e ideias. Para o Presidente de Moçambique, as relações diplomáticas e políticas entre os dois países são «excelentes» e convergem num momento de novidade e renovação política. Mas, ressalva, o foco deve estar agora na cooperação económica e comercial virada para resultados. «Este é o momento certo para Portugal e Moçambique se posicionarem juntos», afirmou, sublinhando que existem atualmente mais de 1100 empresas portuguesas ativas naquele país.África está no centro global da economia e geopolítica e este é o momento certo para nos posicionarmos, no meio de tudo o que está a acontecer.Seguro defendeu que o desafio se cinge a «passar de trocas comerciais para parcerias estratégicas», transformando comércio em investimento produtivo. Para o Presidente português, o potencial económico de Moçambique é «enorme», não apenas pelos recursos naturais, mas também pela sua localização geoestratégica e pelo papel do Canal de Moçambique nas rotas marítimas internacionais. E deixou precisamente a o aviso: «É preciso ter uma visão mais ampla desta cooperação e evitar uma visão extrativa quando se olha para África. É possível desenvolver parcerias que possam construir uma prosperidade partilhada». Gás, investimento e empresas portuguesas no centro da cooperação com MoçambiqueO setor energético surgiu como uma das áreas centrais do debate. Chapo destacou os projetos de gás na Bacia do Rovuma, incluindo Coral Sul, Coral Norte e o investimento da Exxon, estimando em cerca de 50 mil milhões de dólares o investimento previsto no setor nos próximos cinco a dez anos. «O momento certo para as empresas se posicionarem é este», afirmou, dirigindo um convite direto aos empresários portugueses.Na mesma linha, foi valorizada a linha de crédito de 500 milhões de euros entre os dois países, vista como um instrumento importante para apoiar empresas portuguesas que operam em Moçambique. Seguro considerou que esta linha poderá funcionar como uma garantia relevante para o investimento.A conversa passou também por Cabo Delgado. Chapo agradeceu o apoio português no combate ao terrorismo e afirmou que a situação é hoje «relativamente melhor», embora reconhecendo a existência de ataques esporádicos. Para o Presidente moçambicano, paz, segurança e estabilidade são condições essenciais para atrair investimento. Juventude e alterações climáticas também estão na agendaA cooperação no ensino superior, investigação e tecnologia foi outro eixo destacado. Chapo defendeu que «não há desenvolvimento sem capital humano» e apontou a juventude, a ciência, a transformação digital e a inteligência artificial como prioridades. Seguro reforçou que Portugal tem centros de investigação e instituições de ensino superior capazes de aprofundar essa partilha.No plano climático, ambos defenderam maior cooperação em infraestruturas resilientes, ordenamento do território e prevenção de catástrofes. «Portugal estará sempre disponível para colaborar com Moçambique», afirmou Seguro, a propósito da cooperação aquando das cheias que assolaram o país africano no início do ano.A conversa terminou com uma visão comum para a próxima década: uma relação mais económica, estratégica e orientada para as pessoas. «Temos de manter esta relação de amizade e aprofundá-la», defendeu Seguro. Já Chapo resumiu a ambição: que portugueses e moçambicanos possam viver num mundo «de paz e segurança», com melhores condições de vida. «Vamos unir as empresas e levá-las para África»Nos discursos de abertura destacaram-se também algumas personalidades de relevo. António Calçada de Sá, Presidente da Direção do Conselho da Diáspora Portuguesa, começou por garantir que o tema da cimeira põe a ascensão de África no centro da prosperidade, com cooperação global. «Não vamos substituir os grandes investidores internacionais. Vamos unir as empresas e levá-las para África», disse.Sublinhou ainda o capital humano que existe no continente e o potencial que existe para transferência de conhecimento. Áreas como energia, saúde, agricultura e infraestruturas são chave.Já Pedro Oliveira, Dean, Nova School of Business and Economics, referiu que os países estão «ligados por um futuro comum, que temos de construir em conjunto.» Reconheceu a instabilidade política e económica que existe no continente, mas garante que existe uma exigência para que Europa e África trabalhem em conjunto, sem uma ideia de dependência.Queremos que África passe a ser a origem de muitos dos nossos alunos e acreditamos que podemos ter mais alunos deste continente.Por fim, José Manuel Durão Barroso, Presidente do EurAfrican Forum, garantiu ser essencial criar mais sistemas de cooperação intercontinentais. «Esta não é a primeira vez que enfrentamos desafios. A instabilidade geopolítica e também os efeitos da pandemia continuam a fazer-se sentir. Não se trata apenas de política ou economia, mas também deste estado de espírito. Um profundo sentimento de ansiedade», explicou.Terminou por dizer que, «num mundo polarizado, faz sentido trabalhar em conjunto. E defendeu que África não deve ser vista apenas com base nos desafios que enfrenta, mas também no seu potencial.O conteúdo «É preciso evitar uma visão extrativa quando se olha para África», defende António José Seguro aparece primeiro em Revista Líder.