Ajuste fiscal pode destravar queda dos juros antes de melhora nas contas públicas, diz Morgan Stanley

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Uma mudança nas expectativas sobre as contas públicas pode abrir espaço para juros menores e valorização dos ativos brasileiros antes mesmo de o governo entregar uma melhora no resultado fiscal. Essa é a avaliação do Morgan Stanley em relatório divulgado nesta segunda-feira (5), após o primeiro turno das eleições.Para o banco, a liderança de Flávio Bolsonaro (PL) e o avanço de partidos de centro e de direita no Congresso aumentaram as perspectivas de consolidação fiscal – o esforço para conter o desequilíbrio das contas públicas e estabilizar a dívida. A concretização desse cenário, porém, dependerá de um plano crível e da capacidade do próximo governo de aprová-lo e executá-lo. Os economistas Ana Madeira e Thiago Machado argumentam que um programa de ajuste para vários anos poderia reduzir a percepção de risco, fortalecer o real e permitir cortes de juros antes que os resultados apareçam nas contas do governo. O relatório descreve esse movimento como um “choque de gradualismo”.“A implementação do ajuste fiscal será gradual, mas a reprecificação dos ativos brasileiros não precisa ser”, afirmam, em tradução livre.Embora a disputa entre Flávio e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) permaneça apertada, o banco vê diferenças significativas entre as agendas econômicas dos candidatos.Depois do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a atenção dos investidores deve se concentrar nas propostas fiscais do vencedor e nas escolhas para os ministérios da Fazenda e do Planejamento.Dívida crescente e despesas obrigatórias limitam o próximo governoO ponto de partida será desafiador. Segundo o Morgan Stanley, o Brasil entra em 2027 com dívida crescente, mais de 91% das despesas obrigatórias e pouco espaço para continuar ajustando as contas por meio do aumento de receitas.O banco também avalia que a regra de gastos está cada vez mais enfraquecida por exceções e que o resultado primário – a diferença entre receitas e despesas, sem considerar os juros da dívida – permanece muito abaixo do necessário para estabilizar o endividamento.Esse quadro reduz a margem de manobra do próximo presidente. Além de apresentar medidas, o governo precisará construir apoio político: a execução da agenda dependerá do Congresso, dos governadores e da formação de uma coalizão.Na leitura do banco, os resultados preliminares das eleições legislativas apontam para uma presença maior de partidos de centro, centro-direita e direita. Essa composição amplia as perspectivas de mudança, mas a entrega do ajuste continuará condicionada à articulação do Executivo.Sem um plano crível, risco fiscal pode alimentar uma espiral negativaA principal divergência do Morgan Stanley em relação ao consenso do mercado está no cenário pessimista. Enquanto investidores esperam que o Brasil consiga administrar as dificuldades sem uma ruptura, o banco considera que crescimento fraco, inflação persistente e juros elevados deixam menos espaço para indefinições fiscais.O risco é que uma deterioração da confiança provoque uma sequência de efeitos: investidores passam a exigir retornos maiores para financiar o país, o real perde força e o Banco Central encontra menos espaço para cortar juros.Com o crédito ainda caro e a atividade mais fraca, a dinâmica da dívida pode piorar, reforçando a percepção de risco.No cenário pessimista do relatório, a Selic chega a 15,5% em 2027 e a dívida bruta supera 100% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2033. No cenário otimista, a taxa básica cai a 9,75% em 2027, e a trajetória da dívida se estabiliza no horizonte analisado.Mercado pode antecipar os efeitos do ajustePara os estrategistas do Morgan Stanley, o resultado do primeiro turno já favorece uma redução do prêmio de risco fiscal – o retorno adicional exigido pelos investidores diante das incertezas sobre as contas públicas.“A reação inicial do mercado deve incorporar uma queda significativa do prêmio de risco fiscal, já que os resultados de 4 de outubro são compatíveis com perspectivas muito melhores de consolidação fiscal”, afirmam.O banco vê possibilidade de o dólar caminhar para R$ 4,50 no primeiro trimestre de 2027 e de as taxas dos contratos de juros futuros com vencimento em janeiro de 2029 recuarem em direção a 11%.Esses níveis, contudo, exigem mais do que o resultado eleitoral. Segundo o relatório, será necessário apresentar um plano fiscal mais crível, além de contar com um ambiente global relativamente estável.A aposta do Morgan Stanley é que a confiança nesse programa possa produzir efeitos financeiros rapidamente. A melhora efetiva das contas públicas, por sua vez, dependerá da execução das medidas ao longo dos próximos anos.