O Exército dos Estados Unidos está testando uma nova geração de tecnologias para transformar a maneira como seus soldados se comunicam e acompanham operações no campo de batalha. No centro desse esforço estão smartphones, drones, inteligência artificial (IA), redes móveis e internet via satélite.A tecnologia faz parte do programa Next Generation Command and Control (NGC2), criado para modernizar os sistemas de comando e controle das Forças Armadas estadunidenses. Mais de 80 empresas participam do projeto, que reúne desde terminais de internet via satélite instalados em veículos blindados até sistemas responsáveis por integrar dados de diferentes armas e sensores.Uma das primeiras demonstrações completas ocorreu durante um exercício militar na Indonésia, na ilha de Sumatra. O local foi escolhido por apresentar condições de calor e umidade semelhantes às encontradas em possíveis conflitos no Pacífico.Durante o treinamento, o primeiro-tenente Diego Gonzalez carregava um smartphone que mostrava em tempo real a localização dele e de sua unidade. Os soldados também utilizavam rádios com Wi-Fi capazes de formar uma rede móvel e transmitir as vozes digitalmente para os headsets.Antes do avanço das tropas, um drone havia sobrevoado a região para ajudar na identificação do terreno.Tecnologia falha durante ataqueO teste, porém, mostrou que a modernização ainda está longe de ser perfeita;Enquanto os soldados avançavam em direção a uma trincheira inimiga, Gonzalez perdeu a comunicação pelo rádio. O comandante não conseguia ouvi-lo e o tenente precisou reiniciar o dispositivo;Até que o smartphone voltasse a funcionar, outros militares tiveram de retransmitir suas mensagens pela cadeia de comando;A falha aconteceu justamente durante a invasão da trincheira. O capitão Johnathon Muraski, comandante de Gonzalez, destacou ao The Wall Street Journal a gravidade potencial do problema. “Se eu não estou recebendo notícias dele, talvez ele tenha sido atingido ou algo assim.”Não ficou claro se a interrupção foi provocada por um problema de hardware ou software. Mesmo assim, os militares conseguiram manter a comunicação porque havia mais rádios distribuídos pela unidade do que no passado;No fim, as tropas conseguiram conquistar a trincheira.Exército quer acelerar decisõesO NGC2 foi desenvolvido diante de uma realidade em que drones baratos e mísseis de precisão podem transformar grandes concentrações de tropas e equipamentos em alvos fáceis. A proposta é permitir que as unidades operem de maneira mais dispersa e continuem conectadas, enquanto os comandantes recebem uma visão atualizada do campo de batalha.Segundo oficiais e empresas envolvidas no programa, a tecnologia pode reduzir de horas para minutos o intervalo entre uma unidade de infantaria identificar um alvo e uma unidade de artilharia estar pronta para atacá-lo.O projeto também pretende integrar diferentes sistemas de armas e sensores em uma mesma estrutura de dados. A implementação, entretanto, será demorada. O Exército, que possui cerca de 450 mil militares na ativa, prevê levar o NGC2 para toda a força até 2032.O ritmo do programa já provocou questionamentos em Washington. Em agosto, o Government Accountability Office (GAO), órgão independente de fiscalização do Congresso estadunidense, afirmou que o Exército ainda não havia elaborado um cronograma detalhado indicando quais unidades receberiam as novas capacidades e quando. O órgão também apontou que havia visibilidade limitada sobre os custos de longo prazo.Em resposta, o Exército afirmou ter desenvolvido planos detalhados para a implementação e estimativas de custos. Ainda assim, não divulgou um valor total para o programa. Para o ano fiscal de 2027, a força solicitou cerca de US$ 3,8 bilhões (aproximadamente R$ 20,4 bilhões) para o NGC2.O general aposentado John Ferrari, atualmente no think tank American Enterprise Institute, avaliou que o Exército deveria avançar mais rapidamente e com mais recursos. “Seis anos é uma eternidade no mundo da tecnologia. Com a IA avançando a uma velocidade incrível, qualquer coisa que você colocar em campo hoje provavelmente estará obsoleta em alguns anos.”Ucrânia influencia novo modeloEmpresas de defesa envolvidas no NGC2 avaliam que o Exército avançou relativamente rápido, em parte pela necessidade de adaptação diante da transformação provocada pelos drones na Ucrânia e no Oriente Médio.Os primeiros testes do conceito começaram em 2024, e agora o Exército começa a ampliar a utilização da tecnologia.Dan Driscoll, que até recentemente ocupava o cargo de secretário do Exército, citou o sistema desenvolvido pela Ucrânia como referência. Segundo ele, os ucranianos conseguiram integrar drones, sensores e plataformas de ataque em uma única rede.“Ele integra completamente cada drone, cada sensor e cada plataforma de disparo em uma única rede.” Segundo Driscoll, o sistema estadunidense anterior ao NGC2 não fazia o mesmo.Leia mais:O desafio de construir a próxima geração da inteligência artificialOpenAI é criticada por ex-funcionário que alerta para riscos da IATrump anuncia “força de superinteligência” para coordenar avanço da IA nos EUAEmpresas de defesa envolvidas no NGC2 avaliam que o Exército avançou relativamente rápido, em parte pela necessidade de adaptação diante da transformação provocada pelos drones na Ucrânia e no Oriente Médio – Imagem: Melnikov Dmitriy/ShutterstockStarlink militar conecta tropasDurante o exercício na Indonésia, um veículo blindado Stryker recebeu um terminal Starshield, versão militar do serviço de internet via satélite Starlink, da SpaceX. A conexão permite que a unidade permaneça em contato com postos de comando localizados na retaguarda por meio da nuvem.Assim, um comandante distante pode visualizar o mesmo mapa utilizado pelas tropas no campo, incluindo dados de localização em tempo real.O general de brigada Ed Matthaidess, comandante das forças do Exército envolvidas no exercício, explicou que os antigos postos de comando estadunidenses costumavam ser estruturas de tendas para 250 a 300 pessoas. A montagem levava horas e dependia de grandes antenas de satélite instaladas em reboques.Agora, parte dessas funções pode ser distribuída entre diversos nós menores e móveis, conectados à nuvem por veículos como o Stryker. Se um deles for destruído, os demais podem assumir suas funções.IA entra no campo de batalhaA nova infraestrutura de satélite também oferece velocidade e capacidade de transmissão suficientes para alimentar ferramentas de IA.Esses sistemas podem, por exemplo, identificar automaticamente veículos inimigos a partir de imagens captadas por drones ou acompanhar o consumo de munição para antecipar necessidades de reabastecimento.Matthaidess resumiu a lógica por trás da modernização: “Eu nunca vou ter tantos mísseis quanto a China. Nunca vou ter tantas pessoas quanto a China. Mas, se eu conseguir encontrar os alvos que importam mais rapidamente, posso fazer cada disparo valer muito mais.”Ainda assim, os exercícios mostraram limitações práticas. Com a temperatura próxima de 32 °C, um smartphone do NGC2 utilizado por um repórter do Journal superaqueceu e ficou inutilizável até esfriar.Além disso, alguns dados de localização em tempo real apresentaram pequenas imprecisões. Em determinados momentos, o sistema indicava que uma pessoa estava à frente de outra quando, na realidade, estava atrás.Os próprios soldados também demonstraram opiniões divididas. Alguns disseram que nem sempre é prático olhar para uma tela durante um tiroteio. Outros demonstraram preocupação com a possibilidade de não conseguirem consertar os novos equipamentos por conta própria.Mapa digital pode fazer diferençaPara o sargento de primeira classe James Luce, porém, o mapa digital mostrou seu potencial durante o exercício.Posicionado próximo a metralhadoras e morteiros, a uma curta distância da trincheira inimiga, Luce recebeu pelo headset a informação de que dois soldados haviam sofrido ferimentos simulados por tiros.Como não conseguia enxergar a área por causa da vegetação alta, ele utilizou o mapa no smartphone para encontrar um local adequado para o pouso de um helicóptero de evacuação médica.No passado, teria precisado consultar um mapa de papel, que também poderia se deteriorar por causa da umidade da selva.Durante o exercício, ele levou cerca de 30 segundos para encontrar o local. Pelo método antigo, seriam necessários alguns minutos. “Mas alguns minutos podem ser uma questão de vida ou morte.”Apesar das falhas, os militares conseguiram completar a missão.Para Gonzalez, o problema não está em esperar que a tecnologia funcione perfeitamente, mas em aprender a lidar rapidamente com suas limitações.“Em qualquer situação de combate, você vai encontrar problemas. O importante é aprender a trabalhar com esses problemas e como corrigi-los na hora.”O post Celulares viram peça central do campo de batalha apareceu primeiro em Olhar Digital.