A MBRF (MBRF3) entregou um segundo trimestre de 2026 considerado resiliente pelos analistas, com a força da BRF e das operações de carne bovina na América do Sul compensando a rentabilidade ainda pressionada da National Beef, nos Estados Unidos.Para BTG Pactual, BB Investimentos e XP, porém, o balanço ainda não é suficiente para mudar a percepção sobre as ações. A elevada alavancagem e, principalmente, a dificuldade da companhia em converter o desempenho operacional em geração de caixa continuam no centro das preocupações. Por volta de 12h15 desta sexta-feira (14), as ações avançavam 0,55%.Os três bancos mantêm recomendação neutra para MBRF3. O BTG tem preço-alvo de R$ 26, enquanto o BB-BI trabalha com R$ 26,20 para o final de 2026. A XP é mais conservadora, com alvo de R$ 20,90.No segundo trimestre, a MBRF registrou receita líquida consolidada de R$ 40,7 bilhões, avanço de 4,9% na comparação anual. O Ebitda ajustado ficou em aproximadamente R$ 3,2 bilhões, enquanto o lucro líquido alcançou R$ 69 milhões, queda de 20% em relação ao mesmo período do ano passado.BTG: margens resistem, geração de caixa nãoPara o BTG Pactual, a MBRF apresentou mais um trimestre de margens resilientes, com números operacionais amplamente em linha com as expectativas. O principal ponto negativo, entretanto, voltou a aparecer no fluxo de caixa.Na avaliação do banco, apesar do Ebitda reportado de R$ 3,2 bilhões ter ficado 2,5% acima de sua projeção e crescido 5,4% na comparação anual, o resultado contou com R$ 79 milhões relacionados a “outras despesas operacionais” não detalhadas e R$ 41 milhões em despesas de reestruturação.O lucro de R$ 69 milhões também foi beneficiado por uma reversão de imposto de renda de R$ 423 milhões, segundo os analistas.Já a dívida líquida, considerando a metodologia IFRS 16 utilizada pelo BTG, aumentou R$ 1,4 bilhão no trimestre, para R$ 51,7 bilhões, mantendo a alavancagem em 3,9 vezes o Ebitda dos últimos 12 meses. O banco chama atenção ainda para R$ 9,9 bilhões em adiantamentos de clientes e linhas de financiamento de fornecedores ao final de junho.É justamente essa combinação entre dívida elevada e expectativa de margens mais baixas no segundo semestre que sustenta a recomendação neutra do BTG.BRF segura as pontas — e Sadia Halal volta a surpreenderDentro do resultado, a BRF continuou sendo um dos principais destaques. Segundo o BTG, as vendas cresceram 3% em relação ao ano anterior, para cerca de R$ 16 bilhões, enquanto o Ebitda reportado alcançou R$ 2,55 bilhões, 6% acima da estimativa do banco.A margem Ebitda ficou em 16%, praticamente estável na comparação anual, mesmo diante de uma queda de 3 pontos percentuais na margem bruta, para 23,6% — o menor patamar para um segundo trimestre em três anos.Parte dessa resiliência veio de ganhos de eficiência nas despesas e de aproximadamente R$ 180 milhões em outras receitas operacionais.A Sadia Halal também voltou a surpreender positivamente, com Ebitda de US$ 95 milhões e margem de 16%. O BTG estima que cerca de US$ 30 milhões desse resultado possam estar relacionados a ganhos com estoques diante da alta dos preços dos alimentos após os conflitos militares na região.Com isso, o negócio de exportação da BRF alcançou margem Ebit de 12,6%, avanço de 1,5 ponto percentual em um ano, enquanto a margem do mercado doméstico brasileiro caiu 3,7 pontos, para 7,7%.A XP também destaca a BRF como a principal força do trimestre. Para a casa, a margem Ebitda de 16,8% foi sustentada pela demanda resiliente nas exportações, melhora das tendências de consumo doméstico e disciplina de preços.Diante desse desempenho e de um ambiente ainda favorável às exportações, a XP vê risco de alta para suas estimativas da BRF em 2026.E o pior da National Beef?Nos Estados Unidos, a National Beef ainda opera em um dos momentos mais difíceis do ciclo pecuário, marcado pela oferta restrita de animais e pelos custos elevados do gado.Mesmo assim, o BTG observa que a empresa conseguiu desempenho melhor que seus pares. O Ebitda ficou próximo do equilíbrio, em US$ 26 milhões, com margem de 0,7%, ainda assim a melhor rentabilidade entre as grandes companhias do setor no país, segundo o banco.A XP também enxerga possíveis sinais de melhora. A reabertura da fronteira com o México e o fechamento de uma unidade da Tyson podem aliviar a pressão sobre a aquisição de gado e, consequentemente, abrir espaço para resultados melhores.Por isso, a corretora vê risco de alta também para suas projeções da National Beef em 2026 e avalia que, de maneira geral, o pior pode ter ficado para trás.América do Sul cresce, mas custos do gado pesamAs operações de carne bovina na América do Sul também ganharam força em receita. O volume destinado ao mercado externo avançou 26,2% em relação ao segundo trimestre de 2025, enquanto os preços médios subiram 16,2%.Com isso, a receita líquida do segmento alcançou R$ 6,4 bilhões, alta de 26,4% na comparação anual.O BTG, entretanto, destaca que o aumento dos custos do gado pressionou a rentabilidade. O Ebitda de aproximadamente R$ 570 milhões ficou 16% abaixo da projeção do banco, com margem de 8,9%, 2 pontos percentuais inferior à registrada um ano antes.A pedra no sapato da MBRF continua sendo o caixaSe operacionalmente a MBRF mostrou resiliência, a geração de caixa continua impedindo uma leitura mais positiva do balanço.O fluxo de caixa livre foi negativo em R$ 864 milhões no segundo trimestre, pressionado principalmente pelo consumo sazonal de capital de giro, com aumento dos estoques e dos ativos biológicos.Pela métrica divulgada pela companhia, a dívida líquida avançou 2,4% na comparação trimestral, para R$ 45 bilhões, enquanto a relação dívida líquida/Ebitda ajustado passou de 3,37 vezes para 3,41 vezes.O BB-BI lembra que a companhia gerou R$ 2,2 bilhões de caixa operacional no período, enquanto investimentos e juros consumiram R$ 1,4 bilhão e R$ 1,6 bilhão, respectivamente.Apesar disso, o banco considera o desempenho consolidado positivo e resiliente, apoiado principalmente pela BRF e pela América do Sul. A MBRF também capturou R$ 158 milhões em sinergias no trimestre e já atingiu, somando os seis primeiros meses do ano, 47% da meta prevista para 2026.Para a XP, o balanço reforça a percepção de que a companhia está “indo na direção certa”, com riscos de alta para as estimativas da BRF e da National Beef.Ainda assim, a corretora não considera o 2T26 um divisor de águas para a tese de investimento. A elevada alavancagem e o longo caminho até uma recuperação mais significativa do ciclo do gado nos Estados Unidos continuam exigindo cautela.