Os bebés que não nasceram hoje vão faltar às empresas amanhã

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Os números portugueses são inequívocos. Segundo a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), no estudo Cada vez menos?, coordenado cientificamente por Maria João Valente Rosa, o número de nascimentos em Portugal caiu de mais de 200 mil no início da década de 1960 para 84.642 em 2024. A fecundidade passou abaixo do limiar de substituição das gerações, fixado em 2,1 filhos por mulher, em 1982 e, em 1994, caiu pela primeira vez abaixo de 1,5 filhos por mulher.A mesma análise da FFMS chama ainda a atenção para outro fenómeno: a maternidade acontece cada vez mais tarde. O primeiro filho surge, em média, perto dos 30 anos, o que reduz a janela temporal disponível para uma eventual descendência mais numerosa.Isto não significa que cada criança que não nasce hoje represente automaticamente um posto de trabalho vazio daqui a 20 anos. Significa, porém, que a dimensão das futuras gerações em idade ativa está a ser determinada agora. E é aqui que a demografia deixa de ser apenas uma questão social e passa a ser uma questão empresarial.O futuro departamento de recursos humanos está a ser decidido agoraA OCDE, no Economic Survey: Portugal 2026, é explícita: a escassez de trabalhadores e o envelhecimento da população deverão pesar sobre o crescimento económico português. A organização identifica já dificuldades de recrutamento em sectores como a indústria transformadora, construção, saúde, tecnologias da informação, comércio e actividades sazonais. Ou seja, o problema não está num futuro abstracto. Já começou.A diferença é que ainda existe uma almofada demográfica proporcionada pela imigração e por uma taxa de emprego elevada. Mas essa almofada não altera a tendência estrutural: à medida que as gerações mais numerosas se reformarem e as gerações mais pequenas entrarem no mercado de trabalho, a oferta doméstica de trabalhadores tenderá a diminuir.A OCDE considera precisamente que Portugal terá de aumentar a participação de mulheres, trabalhadores mais velhos e migrantes e, simultaneamente, reforçar a formação ao longo da vida para compensar as consequências do envelhecimento.Para as empresas, a implicação é simples e pouco confortável: o recrutamento poderá deixar de ser uma função de aquisição de talento para passar a ser uma função de gestão de escassez.Menos pessoas, mais competiçãoA questão principal será haver menos trabalhadores disponíveis para um número elevado de empresas que continuam a querer crescer. Um estudo da OCDE, publicado em dezembro de 2025 e baseado num inquérito a empresas de 34 países da OCDE, mostra que as carências de mão de obra estão amplamente disseminadas e relacionadas com a idade e as competências dos trabalhadores e com a adopção tecnológica das empresas. As organizações de maior produtividade que enfrentam dificuldades em encontrar trabalhadores tendem a responder com automação, reorganização do trabalho e investimento em formação.O mesmo trabalho mostra uma distinção particularmente importante: as empresas menos produtivas enfrentam mais dificuldades quando oferecem salários baixos e condições de trabalho menos atractivas, enquanto as empresas mais produtivas podem sofrer sobretudo porque procuram competências específicas que simplesmente não encontram no mercado. A consequência é uma espécie de círculo vicioso. Quanto mais escasso for o talento, maior será a competição entre empresas. Quanto maior for essa competição, maior será a pressão sobre salários e condições de trabalho. E quanto maior for a dificuldade de contratar, maior será o incentivo para investir em tecnologia, automação e inteligência artificial.A demografia poderá, assim, tornar-se um dos grandes aceleradores da transformação tecnológica das empresas. O problema já não é apenas encontrar pessoas. É encontrar competências.A escassez quantitativa de trabalhadores será apenas metade do problema. A outra metade será qualitativa. Um relatório da OCDE, publicado em 2024 e baseado no módulo empresarial do PIAAC, analisou precisamente as lacunas de competências em empresas de cinco países europeus, incluindo Portugal. O estudo conclui que os skill gaps são generalizados, particularmente em competências técnicas, trabalho em equipa e resolução de problemas, e que estas lacunas aumentam a carga de trabalho dos trabalhadores existentes, os custos operacionais e a dificuldade em implementar novas formas de trabalhar.A consequência é especialmente relevante num país envelhecido. Quando existem muitos trabalhadores jovens a entrar no mercado, as empresas conseguem renovar competências através da substituição geracional. Quando as gerações que entram são menores, essa renovação torna-se mais difícil.Um trabalhador que permanece décadas numa empresa leva consigo, quando se reforma, muito mais do que um lugar num organograma. Leva conhecimento sobre processos, clientes, fornecedores, erros passados e formas informais de resolver problemas que raramente aparecem num manual. É por isso que o envelhecimento empresarial pode tornar-se também um problema de memória organizacional.O envelhecimento pode custar produtividadeA relação entre demografia e produtividade também já foi estudada. Um Working Paper do Fundo Monetário Internacional (FMI) concluiu que o envelhecimento da força de trabalho reduz o crescimento da produtividade, sobretudo através do seu impacto sobre a produtividade total dos factores. As projecções do estudo apontavam para uma redução média de 0,2 pontos percentuais por ano no crescimento da produtividade total dos factores na Europa ao longo das duas décadas seguintes.Os autores alertavam ainda que o impacto poderia ser particularmente significativo em países onde o envelhecimento da força de trabalho fosse mais rápido, incluindo Portugal.  É importante não transformar este resultado numa sentença contra trabalhadores mais velhos. O próprio problema é mais complexo: trabalhadores experientes acumulam conhecimento e competências que podem ser extremamente valiosos.O risco surge quando uma organização envelhece sem se adaptar. É diferente ter uma força de trabalho mais velha de ter uma empresa incapaz de transferir conhecimento, actualizar competências e reorganizar funções. A empresa que não se adaptar poderá simplesmente não conseguir crescerA própria OCDE encontrou uma relação entre escassez de trabalhadores e produtividade empresarial. As empresas com maiores dificuldades de recrutamento podem sofrer consequências sobre a produção e a inovação, enquanto as organizações mais produtivas tendem a responder através de automação, formação e reorganização do trabalho.É aqui que a baixa natalidade ganha uma dimensão estratégica. Se uma empresa quiser abrir uma nova fábrica, criar uma nova equipa tecnológica ou expandir uma operação daqui a dez anos, precisará de pessoas para o fazer. Se a economia tiver simultaneamente menos trabalhadores e maior procura por determinadas competências, a capacidade de expansão poderá ficar condicionada não pela falta de capital ou de clientes, mas pela falta de pessoas.O crescimento empresarial poderá começar a esbarrar nos limites demográficos. E este risco será particularmente relevante para pequenas e médias empresas, que têm menos capacidade financeira para oferecer salários muito acima do mercado ou investir rapidamente em automação.A OCDE encontrou precisamente evidência de que as dificuldades de recrutamento são particularmente relevantes para empresas pequenas e de que as organizações menos produtivas são mais susceptíveis de associar a escassez de trabalhadores a perdas de produtividade e de capacidade de inovação.A imigração compra tempo. Não resolve a demografia.Portugal tem uma ferramenta que pode atenuar o problema: a imigração. A entrada de trabalhadores estrangeiros aumenta a população activa e ajuda a preencher vagas que não encontram resposta no mercado doméstico. A própria OCDE considera a integração de migrantes uma das vias necessárias para responder à escassez de mão de obra portuguesa.Mas a imigração não deve ser confundida com uma solução demográfica definitiva. Primeiro, porque outros países europeus envelhecem igualmente e competirão pelos mesmos trabalhadores. Segundo, porque importar mão de obra não basta: é necessário integrar, formar, reconhecer qualificações e criar condições para que essas pessoas permaneçam.Para as empresas, isto significa que a capacidade de integrar talento internacional poderá tornar-se uma vantagem competitiva. A empresa do futuro terá provavelmente de ser muito mais hábil a recrutar pessoas de diferentes idades, nacionalidades e percursos profissionais.A demografia também muda o consumidorHá ainda um segundo risco que costuma ficar escondido quando se fala de natalidade: não envelhecem apenas os trabalhadores, mas também os clientes.Uma população com menos jovens e mais idosos terá necessidades diferentes de habitação, saúde, seguros, mobilidade, alimentação, lazer, tecnologia e serviços de apoio. Isto significa que a transformação demográfica não afecta apenas o lado da oferta de uma empresa. Pode transformar também o lado da procura.Uma empresa que venda produtos desenhados para uma população jovem terá de enfrentar um mercado progressivamente diferente. Outra que consiga antecipar as necessidades de uma população mais velha poderá encontrar precisamente aí uma oportunidade de crescimento. A demografia, neste sentido, é também um mapa antecipado da economia que vem aí. O relógio demográfico não pode ser aceleradoÉ esta talvez a característica mais difícil de gerir. Uma empresa pode contratar amanhã. Pode comprar um sistema de inteligência artificial, automatizar uma linha de produção e aumentar salários. Mas não consegue criar uma geração de trabalhadores em cinco anos.Os dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostram uma tendência demográfica que se consolidou ao longo de décadas.  Os dados da OCDE mostram que os seus efeitos já começam a aparecer no mercado de trabalho português. E a investigação do FMI mostra que o envelhecimento pode ter consequências mensuráveis sobre a produtividade.É por isso que a baixa natalidade deveria entrar na agenda dos conselhos de administração muito antes de entrar nos relatórios de sustentabilidade da Segurança Social. Os bebés que não nasceram ontem serão os trabalhadores que faltarão amanhã. E, quando as empresas perceberem a dimensão da escassez, o problema já não poderá ser resolvido com uma campanha de recrutamento. Terão de o resolver com produtividade, tecnologia, imigração, formação, retenção e uma transformação profunda da forma como se pensa o trabalho. A demografia não avisa duas vezes.O conteúdo Os bebés que não nasceram hoje vão faltar às empresas amanhã aparece primeiro em Revista Líder.