Quando a IA nos deixa tempo livre, o que fazemos com ele?

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Disseram-nos que as máquinas nos iam libertar das tarefas repetitivas, que os computadores fariam o trabalho pesado, que os algoritmos tratariam dos processos demorados e que os trabalhadores, finalmente libertos daquilo que consumia horas sem acrescentar verdadeiro valor, poderiam dedicar-se àquilo que realmente importa: pensar, criar, decidir, conversar, inventar.A história do progresso tecnológico foi contada assim muitas vezes, desde a máquina industrial que multiplicou a força humana até ao computador que multiplicou a capacidade de cálculo, e quase sempre apareceu no horizonte a mesma tendência, suficientemente sedutora para sobreviver a todas as suas contradições: trabalharíamos menos para produzir melhor.O problema é que nunca resolvemos inteiramente a primeira parte da equação. Quando uma tecnologia nos poupa tempo, não significa que deixemos de trabalhar durante esse tempo, mas sim que recebemos mais trabalho.É por isso que a inteligência artificial pode estar a produzir um fenómeno inesperado, e talvez até perverso, no escritório contemporâneo: quanto melhor a máquina fizer o seu trabalho, maior poderá ser a tentação de o trabalhador deixar de fazer o seu.Não se trata, pelo menos ainda, de uma epidemia, nem há dados que permitam afirmar que os trabalhadores estão a transformar em regra aquilo que até agora era excepção. O fenómeno é demasiado recente para isso. Mas já tem nome e tem investigadores a tentar perceber como funciona. O tempo que sobraO conceito aparece num trabalho apresentado em 2026 por Mariia Kyrychenko e Sara Memarian Esfahani, da University of Texas at Tyler, na conferência AMCIS, sob o título The Efficiency Paradox of Workplace AI: Understanding AI-Enabled Cyberloafing. As investigadoras partem de uma ideia aparentemente banal, mas que pode ter consequências bastante menos banais: a inteligência artificial generativa permite aos trabalhadores concluir determinadas tarefas mais depressa e com menos esforço e, quando isso acontece, pode surgir aquilo a que chamam perceived slack, uma espécie de excedente subjectivo de tempo e capacidade cognitiva que fica disponível depois de a tarefa estar terminada.É nesse espaço que aparece o cyberloafing. O termo não nasceu com o ChatGPT. Há muito que a investigação sobre comportamento organizacional estuda aquilo que acontece quando alguém, durante o horário de trabalho, utiliza a internet para qualquer coisa que não tenha relação com o trabalho que deveria estar a fazer: consultar redes sociais, ler notícias, fazer compras, ver vídeos, navegar sem grande propósito ou simplesmente desaparecer durante alguns minutos para dentro de um universo que não pertence à empresa.A inteligência artificial acrescenta, porém, uma ironia nova. Antes, era preciso abandonar o trabalho para não trabalhar. Agora, pode ser a própria tecnologia que nos permite acabar o trabalho depressa o suficiente para termos tempo de não o fazer. É uma diferença pequena na aparência, mas enorme na lógica.Imagine-se um trabalhador que passa duas horas a preparar um relatório. Com uma ferramenta generativa, consegue produzir uma primeira versão em vinte minutos. O ganho de eficiência pode ser real e até extraordinário. Mas os cem minutos que desapareceram da tarefa não ficam necessariamente disponíveis para a empresa, como se fossem uma espécie de propriedade automática do empregador.Ficam disponíveis para alguém e esse alguém é o trabalhador. Pode utilizá-los para começar outro relatório, responder a outros emails, antecipar uma reunião, melhorar o documento ou fazer aquilo que qualquer gestor gostaria que fizesse. Mas também pode abrir uma janela e pedir à própria inteligência artificial que lhe explique a história de Homero, gerar uma imagem absurda, perguntar-lhe onde passar o fim-de-semana, explorar uma ideia que nada tem a ver com o trabalho ou simplesmente ficar a fazer qualquer coisa que tenha sido adiada para quando houver tempo.As autoras conceptualizam o fenómeno em três dimensões: evitamento ou fuga, exploração e curiosidade e utilização social ou entretenimento, propondo uma relação entre a percepção de eficiência produzida pela IA, a sensação de tempo disponível e a utilização não profissional da tecnologia durante o horário de trabalho. O estudo utiliza uma experiência baseada em cenários com adultos empregados, procurando testar essa relação.Ainda não sabemos, portanto, se a IA vai produzir uma geração de trabalhadores que passa metade do dia a fingir que trabalha, mas já podemos começar a fazer uma pergunta mais interessante: e se a produtividade tiver finalmente chegado ao ponto em que começa a criar o seu próprio desperdício?O trabalhador que acaba antes da horaHá um problema nesta história que não é tecnológico, sendo a sua génese cultural. As organizações foram construídas durante muito tempo sobre uma equivalência bastante simples entre tempo e trabalho: oito horas significavam oito horas de disponibilidade e, idealmente, oito horas de actividade. Mesmo quando ninguém estava efectivamente a produzir durante todos esses minutos, a presença, a atenção e a ocupação funcionavam como sinais de compromisso.Daí a importância histórica de parecer ocupado. Responder depressa, ter a caixa de email cheia, estar numa reunião, enviar mensagens tarde, dizer que não há tempo, levar trabalho para casa. Na verdade, o trabalhador moderno aprendeu, em muitos contextos, que é preciso que o trabalho seja visível e a inteligência artificial, inevitavelmente, ameaça esta pequena dramaturgia.Se uma pessoa consegue produzir em quarenta minutos aquilo que antes demorava duas horas a questão passa a ser o que deve fazer durante o tempo que deixou de precisar para produzir aquilo. No fundo, queremos máquinas que façam as coisas mais depressa, mas continuamos a organizar o trabalho como se a velocidade humana tivesse de permanecer constante. Quando a IA deixa de ser uma ferramenta ou absorve competênciasA IA é um objecto de curiosidade. Uma pessoa pode abrir uma ferramenta generativa para resolver uma questão profissional e, dez minutos depois, estar a utilizá-la para escrever uma história, imaginar uma viagem, discutir filosofia, criar uma imagem ou descobrir qualquer coisa que nunca teria procurado num motor de pesquisa.A fronteira entre trabalho e não-trabalho torna-se, portanto, particularmente difusa. O mesmo instrumento serve para escrever um relatório e para perder tempo, para programar e para brincar, mostra-se útil para preparar uma apresentação e ao mesmo tempo inventar uma personagem.O computador já permitia tudo isto, a diferença é que a inteligência artificial responde e a curiosidade deixa de ter o custo que tinha antes.Existe, contudo, uma segunda investigação publicada em 2026 que torna esta história menos divertida.Um estudo publicado no European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education, envolvendo 507 trabalhadores, analisou a relação entre inteligência artificial, identidade profissional e cyberloafing, procurando perceber o que acontece quando os trabalhadores sentem que a tecnologia ameaça as competências que possuem ou a autonomia com que costumavam desempenhar o seu trabalho.A questão é importante porque há uma diferença entre alguém que termina mais depressa uma tarefa e decide consultar o telemóvel e alguém que começa a afastar-se psicologicamente do trabalho porque sente que aquilo que fazia deixou de ter o mesmo valor.O cyberloafing pode ter menos que ver com o tempo que sobra e mais com a relação que o trabalhador mantém com aquilo que faz. Se alguém passou dez anos a construir uma competência e, de repente, vê uma máquina produzir em segundos algo que se aproxima daquilo que demorou uma década a aprender, é difícil que nada mude, por mais que a empresa continue a apresentar a tecnologia como uma simples ferramenta. Pode perder-se a sensação de domínio, mas também a percepção de que aquele conhecimento distingue uma pessoa das outras e lhe confere um lugar próprio dentro da organização. E, quando essa relação começa a enfraquecer, pode diminuir também a vontade de investir na tarefa, de a aperfeiçoar e de encontrar nela alguma forma de realização.Talvez a IA não nos torne preguiçososÉ possível que, daqui a alguns anos, olhemos para o AI-enabled cyberloafing como hoje olhamos para o acto de consultar uma rede social durante o expediente: um comportamento banal, conhecido, regulado e provavelmente inevitável.Também é possível que estejamos perante o primeiro sinal de uma mudança muito mais profunda. Durante toda a era industrial e grande parte da era digital, a tecnologia foi utilizada para aproximar o trabalhador de uma ideia de produtividade cada vez mais mensurável. Cronometrámos tarefas, medimos desempenhos, contamos horas, calculámos resultados, acompanhámos teclas e, mais recentemente, começámos a utilizar algoritmos para avaliar aquilo que fazemos. A inteligência artificial introduz uma possibilidade diferente.Durante anos perguntámos como produzir mais no mesmo tempo. A inteligência artificial pode obrigar-nos a fazer a pergunta contrária: o que fazemos com o tempo que deixa de ser preciso para produzir? Se assim for, a grande questão supera a tecnologia e entra nos campos da política, corporativa e, sobretudo, humana. O conteúdo Quando a IA nos deixa tempo livre, o que fazemos com ele? aparece primeiro em Revista Líder.