A corda no pescoço do varejo: Casas Bahia (BHIA3) escancara os desafios do setor

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O varejo está fadado a enfrentar dificuldades que podem demandar uma recuperação extrajudicial, judicial ou até mesmo uma falência. Ao menos é a visão de Ricardo Meirelles de Faria, pesquisador e Doutor em Economia de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que vê na combinação de fatores que pressionam o setor um cenário difícil para manter resiliência.O pedido de recuperação judicial (RJ) da Casas Bahia (BHIA3), anunciado no início desta semana, é emblemático dada a tradição, tamanho e reconhecimento da empresa fundada por Samuel Klein na década de 50, no entanto, está longe de ser a única do setor a sucumbir em um cenário que combina juros elevados, mudanças de comportamento do consumidor, bets e acirramento de concorrência.Levantamento realizado pelo Monitor RGF-BIZDOC, elaborados com dados da Receita Federal referentes ao encerramento do primeiro semestre de 2026, mostra que o varejo brasileiro tinha 986 CNPJs em recuperação judicial, número 20,4% maior que o registrado 12 meses antes. No primeiro semestre, a alta foi de 6,6%.Apesar desse avanço, o estudo pontua que a incidência de recuperações judiciais é de 0,16 por mil empresas ativas, a menor entre os grandes setores da economia e aproximadamente metade da média nacional, de 0,30 por mil. O varejo responde por 12,4% do estoque nacional de empresas em RJ.Para Meirelles, a RJ de Casas Bahia evidencia que o patamar continuamente elevado da taxa básica de juros (Selic) é “insustentável”. Vale lembrar que a taxa chegou em 15% em junho de 2025, estando em 14% atualmente. Ele pondera que, além do impacto no próprio Bolso do consumidor, a Selic pressiona o custo de capital, o custo de financiamento das dívidas, o risco de crédito e as margens operacionais.Na visão do pesquisador, chega um momento em que a empresa não consegue gerar recursos suficientes para pagar os juros da dívida diante de juros tão altos, o que pavimenta o caminho para uma recuperação judicial.“No caso do Brasil nesses últimos dois anos, o pano de fundo é de um custo de capital, de financiamento das dívidas, tanto na pessoa física quanto na jurídica que é totalmente impraticável. […] E as empresas vão entrando nas suas recuperações iniciais, que em última instância busca renegociar”, afirma. O economista e professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), José Carlos de Souza Filho, reforça a mensagem da Selic como um dos principais elementos para explicar as dificuldades da Casas Bahia e de parte do varejo.Ele destaca que a taxa básica saiu de 2% para 15% em um período de seis anos e o impacto é ainda maior porque a taxa básica não representa o custo efetivamente pago pelo consumidor na ponta, enqunato o varejo sofre com o encarecimento do financiamento para as próprias empresas e aumento d a inadimplência dos consumidores.No caso da Casas Bahia, o problema é particularmente relevante porque a empresa trabalha com bens duráveis e de alto valor agregado, como eletrodomésticos, que dependem de financiamento.Além do macro…Apesar do peso do macro, existem decisões estratégicas do negócio que refletem no desempenho das varejistas. O pesquisador da FGV recorda que o setor varejista passa nos últimos anos por uma expressiva revolução tecnológica, que trouxe os marketplaces, novos ritmos de entrega e uma nova dinâmica no comportamento do consumidor, que, no caso da Casas Bahia, perdeu o timing ideal para acompanhar.A companhia investiu em digitalização, no entanto, a entrada de nomes asiáticos e a força de marketplaces como o Mercado Livre e até o próprio Magazine Luiza, citado como um nome que conseguiu acompanhar esse movimento, ganharam espaço.Como consequência, Meirelles pondera que o imaginário do consumidor ganha outros nomes ao pensar na aquisição de produtos. Leia mais: 2027 será ainda pior: O alerta do CEO da Casas Bahia (BHIA3), que traça os próximos passos da varejista – Money TimesNa leitura do pesquisador da FGV, a companhia poderia há mais de uma década repensar a quantidade de lojas físicas, de olho na transformação digital. Em falas da administração, a Casas Bahia costuma pontuar o físico como um pilar do negócio, no entanto, em meio à crise que enfrenta agora, precisou fechar quase 300 unidades.As bets são outro fator destacado tanto por Meirelles quanto por Souza, uma vez que as apostas passaram a representar uma alternativa legal para destinação da renda dos consumidores e parte do dinheiro que poderia circular no consumo passou a ser direcionada para as plataformas de apostas.“O problema do varejo não é somente a taxa de juros, é a taxa de juros, é a inadimplência elevada, é o custo do dinheiro elevado são as alternativas como bets, por exemplo, que desviam os recursos dos clientes, dos consumidores, da população em geral para outros atrativos. Então, para você poder modificar esse cenário, eu acho que vai um bom tempo, sem falar de conjunturas políticas”, diz o professor da FIA.Leia mais: Ministério Público aciona o TCU para cobrar ação do governo pelo descontrole das bets – Money TimesPor dentro dos mercadosReceba gratuitamente as newsletters do Money TimesOBS: Ao clicar no botão você autoriza o Money Times a utilizar os dados fornecidos para encaminhar conteúdos informativos e publicitários.Corda no pescoço do varejo Souza Filho pondera que o problema do varejo varia conforme os segmentos do setor. Isso porque farmácias, vestuário, alimentício, discricionário e outros contam com particularidades que pressionam ou impulsionam o setor.O alimentício é um dos que vem sofrendo de forma significativa, com as bets consumindo a renda disponível e levando a troca de itens ou redução de compras. O farmacêutico, por outro lado, passa pelo impulso do GLP-1 (medicamentos usados no tratamento de diabetes e obesidade, como Ozempic e Wegovy).Para o professor, a atual conjuntura torna provável o surgimento de novos casos de insolvência no varejo e possibilidade de mais empresas recorrerem a recuperações judiciais ou extrajudiciais até o fim de 2026 e ao longo de 2027.Apesar do destaque para a Selic, ele ressalta que não existe uma causa única para o problema e mesmo uma queda significativa dos juros não resolveria imediatamente as dificuldades acumuladas.O varejo precisa lidar simultaneamente com juros; inadimplência; custo do crédito; endividamento; mudanças no comportamento do consumidor; concorrência digital; bets; e questões tributárias e políticas.Essas questões não se resolvem da noite para o dia, tendo em vista que o corte na Selic e os efeitos são graduais, além de questões de perfil do consumidor que o corte dos juros não endereça diretamente.Souza Filho chama atenção para reforma tributária como uma das principais incertezas para o varejo nos próximos anos, com potencial de alterar significativamente a estrutura de custos das empresas.Meirelles acrescenta as eleições deste ano como um outro fator no radar, uma vez que o próximo governo precisará enfrentar a questão fiscal.Uma situação fiscal melhor tende a reduzir as expectativas negativas dos agentes econômicos, o que pode contribuir para a queda dos juros e para a redução do custo de capital.Sobre questão das taxas de juros, Meirelles espera que a taxa caia para 13,25% até o final do ano. “Eu tenho convicção que essa taxa vai cair até 13,25% no final do ano, o que não é um consenso, porque eu sei, eu sei não, mas eu tenho convicção que o Banco Central vai olhar para esse cenário também dessas recuperações judiciais e entender de que não faz sentido parar de reduzir a taxa de juros”, disse.Para ele, o varejo é um setor extremamente competitivo e de margens baixas. A baixa concentração do setor limita o poder de precificação das empresas, diferentemente de setores mais concentrados, nos quais algumas companhias possuem maior poder de mercado, o varejo tem muitas empresas disputando o consumidor.Esse cenário deixa as companhias particularmente vulneráveis quando o custo de capital aumenta, dessa maneira, o setor está sujeito a uma quantidade elevada de recuperações extrajudiciais, recuperações judiciais e falências.Recuperação judicial da Casas Bahia Souza Filho pontua que a recuperação judicial é apresentada como um mecanismo concedido pela Justiça para dar fôlego financeiro à empresa e permitir que ela reorganize seus compromissos.Ele pondera que recuperação judicial não significa necessariamente falência. A empresa pode se recuperar, desde que consiga estabelecer condições adequadas para solucionar a origem e o tamanho do problema.No caso da Casas Bahia, o problema é descrito como resultado de uma combinação de endividamento elevado, juros altos, inadimplência, dificuldades operacionais e decisões estratégicas.“A taxa básica, somada com alguns eventos que ocorreram aí no caminho, como a pandemia, que manteve as lojas fechadas, e outros eventos que acabaram contribuindo para que a inadimplência crescesse, os custos das lojas também crescessem, tudo isso acabou contribuindo para que essa dívida das Casas Bahia explodisse”, diz o professor da FIA.O risco sacado, pelo qual instituições financeiras antecipam valores devidos pelo varejista aos fornecedores depende da expectativa de que a empresa consiga vender os produtos e, posteriormente, receber dos consumidores, explica o professor. No caso da Casas Bahia, essa dinâmica foi prejudicada por uma série de fatores, comov vendas abaixo do esperado; maior inadimplência, enquanto a empresa precisa. continuar honrando seus compromissos financeiros.Esse cenário, pontua Souza Filho, coloca a companhia em uma situação de “fogo cruzado”, com dificuldade tanto para pagar instituições financeiras quanto para receber dos clientes.Leia mais: Grupo Casas Bahia (BHIA3) aprova e protocola pedido de recuperação judicial – Money Times