StartupiSe pode ser manipulado, como provar? A corrida pela integridade das evidências digitaisDesde o último domingo (16), quando teve início oficialmente a propaganda eleitoral das Eleições Gerais de 2026, conteúdos publicados na internet passaram a ocupar ainda mais espaço na disputa política brasileira. Ao mesmo tempo em que inteligência artificial permite produzir e alterar textos, imagens, áudios e vídeos com facilidade, cresce também a necessidade de demonstrar quando determinado material foi publicado, onde estava disponível e se corresponde ao conteúdo que circulava originalmente.É nesse ponto que atua a Verifact, empresa brasileira fundada em 2019 que desenvolveu uma plataforma para coleta e preservação de evidências digitais. A companhia permite registrar conteúdos disponíveis na internet, como páginas, publicações em redes sociais, mensagens e arquivos, preservando informações associadas à coleta para que o material possa ser utilizado em contextos jurídicos.A questão ganha relevância nas eleições porque a regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a estabelecer regras específicas para conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial. Para as Eleições 2026, a Corte manteve a exigência de identificação explícita de conteúdos sintéticos utilizados na propaganda eleitoral e proibiu o uso de deepfakes para prejudicar ou favorecer candidaturas. A regulamentação também criou restrições adicionais para conteúdos sintéticos envolvendo candidatos e pessoas públicas no período imediatamente anterior e posterior à votação.A fundadora da Verifact, Regina Acutu, afirma que o primeiro desafio, quando um conteúdo digital é levado a um processo, não é necessariamente determinar se ele é verdadeiro ou falso, mas algo que vem antes disso. “Primeiro, para um conteúdo se tornar uma prova, é necessário atestar se o fato existiu na internet, que não foi uma produção de IA.”Segundo Regina, a empresa consegue atuar justamente nessa primeira etapa. “A gente prova sempre essa primeira questão, afirmar se o fato existiu na internet e que não é uma criação de quem acusa”, explica. A identificação da autoria da publicação é uma questão diferente e, segundo ela, não é resolvida diretamente pelo sistema.Essa distinção se torna relevante diante da evolução das ferramentas de geração de conteúdo. Um vídeo pode parecer autêntico para quem o assiste, uma página pode reproduzir visualmente uma rede social e uma captura de tela pode ser apresentada como se fosse uma publicação original. Para a Verifact, o problema passa a ser menos a aparência do conteúdo e mais a capacidade de documentar tecnicamente sua existência e preservá-lo como evidência.Da ata notarial à coleta forenseA origem da empresa está justamente nessa dificuldade. Segundo Regina, durante a investigação que levou à criação da Verifact, ela e o sócio Alexandre Munhoz identificaram limitações no uso da ata notarial para documentar conteúdos digitais.A ata permite que um tabelião registre aquilo que observa, mas, segundo a executiva, isso não necessariamente demonstra que a representação visual corresponde ao funcionamento ou à origem daquele conteúdo. “No meio digital isso pode acontecer também, às vezes a pessoa pode apresentar um aplicativo que visualmente parece o WhatsApp, mas não necessariamente é aquilo. Como afirmar que aquele print, de fato, existe? Para isso que a nossa tecnologia existe”, afirma.A solução encontrada pelos fundadores foi recorrer a uma norma internacional voltada especificamente à coleta e preservação de evidências digitais. A ISO/IEC 27037 estabelece diretrizes para identificação, coleta, aquisição e preservação de evidências digitais com potencial valor probatório. “A única forma de que a prova posta digital seja confiável é usando o método forense, usando norma técnica”, afirma Regina. A Verifact passou a utilizar como referência a ISO 27037, segundo a executiva.De acordo com o material institucional enviado pela empresa, a plataforma realiza a captura em um ambiente virtual isolado e preserva metadados associados ao processo de coleta. A proposta é manter as características do conteúdo no momento do registro e fornecer elementos para demonstrar a cadeia de custódia da evidência.A tecnologia não determina sozinha se o conteúdo é falsoEm um cenário marcado por deepfakes, existe, porém, uma diferença entre preservar uma evidência e verificar sua autenticidade. A própria Regina ressalta que a tecnologia, sozinha, não consegue determinar com exatidão se um conteúdo foi criado por inteligência artificial ou se determinado fato aconteceu no mundo real. O papel da plataforma, no entanto, é documentar a existência daquele material na internet.A distinção é importante em um ano eleitoral porque a legislação não trata apenas de conteúdos falsos. A regulamentação do TSE também estabelece obrigações de identificação para conteúdos sintéticos e proíbe determinadas formas de manipulação digital. A norma define conteúdo sintético como imagem, vídeo, áudio, texto ou objeto virtual gerado ou significativamente modificado por tecnologia digital, incluindo inteligência artificial.Para Regina, a dificuldade tende a aumentar conforme as ferramentas de geração de conteúdo se tornam mais acessíveis. “A gente nunca teve uma eleição como essa, que é super tecnológica. Que é tão fácil fazer uma manipulação e inventar, distorcer uma realidade”, afirma.Da campanha eleitoral aos processos judiciaisEmbora a eleição coloque o tema em evidência, o uso da tecnologia não se limita à política. Segundo Regina, a maior parte dos usuários da Verifact é formada por escritórios de advocacia e pessoas físicas. Órgãos públicos representam uma parcela menor da base, embora a empresa também seja utilizada por instituições do setor público, como ministérios e tribunais.Os principais casos de uso da tecnologia da Verifact incluem crimes contra a honra, disputas envolvendo marcas e imagens, cobrança de dívidas e situações em que publicações em redes sociais podem ser relevantes para um processo. A empresa também relata aplicações eleitorais. Regina cita casos envolvendo a utilização da plataforma por candidatos e suas defesas para documentar publicações consideradas irregulares ou ofensivas durante disputas eleitorais.Um dos exemplos apresentados pela executiva envolve a Delegacia da Mulher de Curitiba. Segundo Regina, antes da utilização da plataforma, a documentação de conteúdos digitais podia depender da apreensão e perícia do celular ou de registros realizados manualmente por agentes públicos. Em um dos casos relatados, uma prova coletada com a ferramenta chegou a instâncias superiores da Justiça.A lógica por trás desses casos é a mesma que ganha importância no ambiente eleitoral: quanto mais rápido um conteúdo pode ser alterado ou removido da internet, maior é a importância de registrar a evidência enquanto ela ainda está disponível.O problema da velocidadePara a fundadora da Verifact, a transformação tecnológica não cria apenas novos tipos de fraude. Ela reduz o tempo disponível para identificar, documentar e reagir a elas.Regina cita como exemplo casos de conteúdos produzidos ou alterados com IA envolvendo figuras públicas. Segundo ela, quando um material é publicado em diferentes redes sociais, fóruns ou outros ambientes, uma das dificuldades é localizar e documentar as diferentes versões antes que sejam removidas ou modificadas.O cenário também mostra os limites de soluções automatizadas. A fundadora relata um caso recente envolvendo o influenciador Felca, em que, segundo ela, uma grande quantidade de comentários ofensivos para o influenciador precisou ser analisada por sua equipe jurídica, e a tentativa de utilizar IA para fazer uma triagem não apresentou o resultado esperado. A equipe jurídica acabou realizando parte da análise manualmente.A questão, portanto, não é apenas criar ferramentas capazes de identificar conteúdo sintético. É também construir uma infraestrutura de evidências que permita demonstrar o que estava disponível online e preservar esse registro para uma eventual disputa. “Eu percebo que existe um volume muito grande de pessoas que nem sabem que conteúdo na internet pode ser usado como prova”, afirma Regina.Para a Verifact, essa mudança de comportamento é tão importante quanto a evolução tecnológica. Em um ambiente em que qualquer pessoa pode produzir um vídeo, uma imagem ou um áudio sintético, a pergunta sobre a autenticidade de uma publicação passa a ter uma etapa anterior: é possível provar que aquele conteúdo realmente estava ali?Nas eleições, essa diferença pode determinar não apenas a velocidade de uma reação jurídica, mas a capacidade de preservar a evidência antes que ela desapareça.O post Se pode ser manipulado, como provar? A corrida pela integridade das evidências digitais aparece primeiro em Startupi e foi escrito por Startupi