O que é celular do ladrão e como a estratégia funciona?

Wait 5 sec.

A prática tem nome informal, é assunto em rodas de conversa e virou rotina em capitais brasileiras: carregar na rua um aparelho barato, com pouca coisa instalada, e deixar o telefone principal em casa. É o que se convencionou chamar de “celular do ladrão”, herdeiro direto da antiga carteira falsa que se levava com uma nota pequena e nenhum documento.A lógica por trás da estratégia mudou junto com o crime. Durante muito tempo, o prejuízo de um assalto se resumia ao valor do aparelho. Hoje, o telefone concentra aplicativos bancários com sessão aberta, e-mail que serve para recuperar senhas de todo o resto, mensagens com códigos de verificação e fotos de documentos. O aparelho deixou de ser o alvo para virar a chave que dá acesso ao patrimônio da vítima, e é essa mudança que explica a popularização de uma tática que, poucos anos atrás, soaria excessiva.O celular do ladrão é uma estratégia para diminuir o impacto de ter o aparelho roubado. (Fonte: D-Keine/GettyImages)O que é o celular do ladrão?Trata-se de um segundo aparelho, geralmente antigo, barato ou já danificado, mantido em uso para as situações em que o risco de assalto é maior: transporte público, deslocamentos a pé, saídas noturnas, grandes eventos e regiões com histórico de ocorrências. O objetivo é mitigar o impacto caso o dispositivo seja roubado.O aparelho que vai para a rua precisa apenas do essencial para o deslocamento — comunicação básica, mapas e transporte por aplicativo — enquanto tudo que envolve dinheiro, identidade e histórico pessoal permanece em um segundo aparelho que raramente sai de casa.Por que a estratégia ganhou força no BrasilOs números ajudam a dimensionar o contexto que produziu esse comportamento. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 792.284 ocorrências de roubo e furto de celulares em 2025, resultado 7,7% menor que o do ano anterior.O celular do ladrão requer alguns cuidados e cria alguns obstáculos para o dia a dia. (Fonte: AndreyPopov/Getty Images)Outro dado do mesmo levantamento explica por que a lógica do crime se deslocou: o Fórum atribui parte da redução dos roubos ao programa Celular Seguro, do Ministério da Justiça, que teria diminuído a rentabilidade da modalidade ao dificultar o acesso imediato às contas bancárias das vítimas. O impacto sobre o furto seria menor, já que esse crime depende mais da revenda do aparelho do que da exploração dos dados.Como montar um celular do ladrãoO que faz sentido manter no aparelho iscaO aparelho que circula precisa cumprir sua função sem carregar risco. Um conjunto mínimo costuma incluir aplicativo de mensagens, mapas, transporte por aplicativo e câmera, além da capacidade de fazer chamadas. O critério é perguntar, para cada item instalado, qual seria o prejuízo caso um terceiro tivesse acesso a ele com o telefone desbloqueado.Uma medida frequentemente esquecida é ativar o PIN do chip, senha solicitada sempre que o cartão SIM é inserido em outro aparelho. Sem ela, o criminoso pode transferir o chip para um telefone próprio e passar a receber os SMS de verificação enviados pelos serviços da vítima, o que abre caminho para redefinir senhas de contas hospedadas em qualquer lugar.O que deve ficar de foraAplicativos de bancos, corretoras, carteiras digitais e cartões de crédito não devem estar instalados no aparelho que vai para a rua, e essa é a regra mais importante do arranjo. O mesmo vale para a conta principal do Google ou da Apple: criar uma conta secundária exclusiva para o aparelho isca impede que o acesso a ele se converta em acesso ao e-mail, aos backups e ao histórico da conta principal.Também não faz sentido ter fotos de documentos, planilhas com senhas e arquivos de trabalho no aparelho do ladrão. Vale lembrar que aplicativos de mensagem guardam histórico, e uma conversa antiga pode conter dados que o usuário nem se lembra de ter enviado.Como configurar o aparelho principalO telefone que fica em casa concentra o que importa e, por isso, precisa das camadas de proteção mais rígidas: bloqueio de tela com senha forte, biometria e autenticação em duas etapas em todos os serviços sensíveis, com preferência por aplicativos autenticadores em vez de SMS.Aplicativos bancários oferecem senhas próprias e limites de transação configuráveis, e reduzir os valores permitidos para transferências fora do horário comercial diminui o dano potencial mesmo em cenários de acesso indevido.As limitações da estratégiaA prática reduz danos de ter o celular roubado, mas ela não resolve tudo e cria alguns obstáculos: quase ninguém consegue manter a disciplina de nunca levar o aparelho principal para a rua, e basta uma exceção em um dia de risco para que toda a estratégia se perca. Situações comuns como uma ida rápida ao mercado, uma consulta médica ou uma reunião de trabalho acabam justificando a quebra da regra.Há também o custo, que não pode ser deixado de lado. Manter dois aparelhos funcionais, com dois chips ou com a transferência frequente de um deles, pode gerar uma despesa recorrente que pode pesar em alguns momentos. Além disso, também há o trabalho de ter dois celulares funcionando ao mesmo tempo.Manter dois celulares em perfeito funcionamento requer atenção praticamente diária. (Imagem: Solen Feyissa/Unsplash)Existe ainda o cenário em que o criminoso percebe a diferença. Assaltantes que atuam com frequência conhecem a prática, e há relatos de abordagens em que a vítima é questionada sobre a existência de um segundo aparelho. Por conta disso, o celular do ladrão deve ao menos estar funcional, mas é recomendado que você não coloque sua vida em risco.Camadas complementares de proteçãoA prática funciona melhor combinada com recursos que não dependem de disciplina diária.O Celular Seguro, programa federal lançado em dezembro de 2023, permite bloquear aparelho, linha e acesso a aplicativos financeiros a partir de um cadastro prévio, com acionamento por pessoas de confiança indicadas pelo usuário. O sistema reunia mais de três milhões de dispositivos cadastrados até 2025, e o cadastro é gratuito.Tanto o Android quanto o iOS incorporaram recursos específicos contra roubo nos últimos anos. No Android, um conjunto de funções detecta movimentos característicos de subtração do aparelho e bloqueia a tela automaticamente, além de restringir alterações em configurações sensíveis quando o telefone está fora de locais habituais. No iOS, a Proteção contra Dispositivo Roubado exige autenticação biométrica e impõe atraso de uma hora para mudanças críticas quando o aparelho está longe dos locais reconhecidos como habituais. Ambos precisam ser ativados manualmente e permanecem desligados na configuração padrão de muitos aparelhos.O registro do IMEI, número que identifica o aparelho, facilita o bloqueio junto às operadoras em caso de perda, e anotá-lo previamente evita a busca em um momento de estresse. O código pode ser consultado discando um comando simples no teclado do telefone ou nas configurações do sistema.Entenda: Como descobrir, bloquear e desbloquear o IMEI de um celular?Por fim, revisar quais aplicativos permanecem com sessão aberta e quais dispensam autenticação a cada uso é um exercício que costuma revelar exposições esquecidas, e vale tanto para quem adota a estratégia dos dois aparelhos quanto para quem prefere manter apenas um.Para acompanhar orientações de segurança digital e as mudanças no cenário de crimes envolvendo aparelhos móveis no Brasil, vale acompanhar o TecMundo.