As roupas de segunda mão deixam os brechós e chegam às araras das grandes marcas“A decepção de uma mulher pode ser a felicidade de outra”. A frase, dita por Charlotte York em Sex and The City, se refere a relacionamentos. Mas, hoje, cabe em um movimento interessante que toma conta do varejo de moda.Redes como H&M, Zara e Banana Republic passaram a reservar espaço dentro de suas próprias lojas para vender roupas de segunda mão. As chamadas seções preloved (ou “amadas anteriormente”) reúnem peças usadas que ganham a araras, agora sob a curadoria da própria marca.As peças da sessão preloved podem ser da própria ou de outras marcas. | FOTO: H&M/DivulgaçãoÀ primeira vista, a ideia parece uma resposta natural às crescentes cobranças por sustentabilidade e do próprio consumidor. Mas existe um segundo motivo, bem menos romântico do que o nome propõe: o negócio.O mercado de revenda cresce em ritmo acelerado e deixou de ser exclusividade de brechós e plataformas especializadas. As grandes marcas perceberam que estavam perdendo uma fatia importante desse mercado e decidiram disputar esse consumidor dentro de casa. No Brasil, essa tendência ainda engatinha. Pelo contrário: alguns movimentos recentes parecem apontar para a direção oposta. O Grupo Azzas, por exemplo, encerrou a Troc, plataforma especializada em moda circular adquirida pela holding.Isso não significa que a revenda perdeu relevância. A diferença é que, quando as grandes varejistas entram nesse mercado, a lógica continua sendo vender mais. Em muitos desses programas, as marcas recebem as roupas usadas por valores muito baixos, em créditos para compras futuras ou até gratuitamenteNova estratégia contribui para a margem de lucro das fast-fashions. | FOTO: Nadin/PexelsSerá que esse tipo de ação é realmente sustentável? Não faria mais sentido reduzir o consumo e a produção de novas peças, em vez de apenas revender as usadas?Enquanto o sucesso de uma empresa continuar sendo medido pelo volume de peças comercializadas, até a moda circular corre o risco de se tornar apenas mais um capítulo da mesma lógica de consumo.