O tempo à mesa: o envelhecimento dos grandes tintos italianos

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Há vinhos que nascem prontos e outros que parecem guardar, dentro da garrafa, uma promessa. Entre os grandes tintos italianos, o tempo não é mero intervalo entre a colheita e o consumo: é um dos elementos que completam o vinho. A evolução em garrafa modifica taninos, acidez, aromas e textura, transformando fruta em compota, flores em folhas secas, especiarias em tabaco, couro e notas balsâmicas. Mas a longevidade não é atributo uniforme. Ela depende sobretudo da variedade, da acidez, da concentração fenólica, do álcool, da qualidade da safra e, naturalmente, da maneira como a garrafa foi conservada.Na Lombardia, o grande protagonista dos tintos de guarda é o Nebbiolo, chamado localmente de Chiavennasca, sobretudo na Valtellina. Em um território alpino, de vinhedos íngremes e grande amplitude térmica, a casta produz vinhos de notável elegância, acidez e estrutura tânica. O Valtellina Superiore, particularmente nas melhores subzonas, pode desenvolver extraordinária complexidade durante dez a vinte anos, enquanto os melhores exemplares podem ultrapassar essa faixa. O Sforzato di Valtellina acrescenta ao Nebbiolo a concentração proporcionada pelo apassimento das uvas, o que lhe confere maior corpo e potência. O próprio Consorzio de Valtellina estabelece que o Sforzato deve conter ao menos 90% de Nebbiolo e passar por pelomenos vinte meses de envelhecimento, dos quais doze em madeira. É um vinho particularmente feliz com carnes de caça, brasatos, pratos de cogumelos e queijos alpinos curados.Se existe, porém, uma região italiana em que o envelhecimento constitui quase uma segunda vinificação, ela é o Piemonte. A Nebbiolo encontra em Barolo e Barbaresco sua expressão mais célebre, reunindo elevada acidez, taninos abundantes e uma extraordinária capacidade de transformação aromática. Na juventude, esses vinhos podem parecer austeros; com os anos, tornam-se progressivamente mais sedosos, adquirindo perfumes de rosas secas, violeta, alcatrão, especiarias, couro e trufa. O Consorzio delle Langhe destaca justamente o elevado potencial polifenólico da Nebbiolo e sua aptidão para produzir vinhos de grande estrutura e longevidade. Um Barolo ou Barbaresco de produtor sério e boa safra pode ser guardado por quinze a trinta anos, e exemplares excepcionais podem superar largamente esse período. Barbera, por sua vez, apresenta acidez vigorosa, mas normalmente menos tanino e estrutura fenólica, sendo em geral mais acessível e precoce. Para a mesa, o Piemonte oferece harmonizações clássicas: Barolo com brasato ao Barolo, risoto de trufas, ossobuco e caça; Barbera com massas de ragù, carnes assadas e embutidos piemonteses.Na Toscana, o grande artífice do tempo é a Sangiovese. Sua elevada acidez e seus taninos, combinados à concentração obtida em determinados terroirs, permitem que os melhores exemplares envelheçam com extraordinária dignidade. O Chianti Classico pode apresentar uma evolução muito interessante, sobretudo nas categorias Riserva e Gran Selezione: a primeira exige ao menos 24 meses de envelhecimento e a segunda, 30 meses. O ápice da longevidade toscana está, contudo, no Brunello di Montalcino, elaborado exclusivamente com Sangiovese. O regulamento exige pelo menos dois anos em madeira e determina que o vinho somente possa chegar ao mercado após cinco anos contados a partir da safra, seis no caso da Riserva. Um grande Brunello pode evoluir por vinte a trinta anos, e alguns exemplares de excepcionalprocedência alcançam idade ainda maior. É magnífico com bistecca alla fiorentina, cordeiro, javali, cogumelos, trufas e pecorinos curados.A Umbria apresenta talvez a personalidade mais vigorosa entre as regiões aqui consideradas. Seu Sagrantino possui uma carga polifenólica e tânica extraordinária, característica que lhe confere enorme capacidade de envelhecimento. O Consorzio di Montefalco destaca precisamente a excepcional concentração de polifenóis da variedade e seu potencial de guarda. O Montefalco Sagrantino, portanto, costuma exigir paciência: seus primeiros anos podem revelar taninos firmes e uma estrutura quase monumental, que gradualmente se transforma em textura mais aveludada e aromas de frutas negras maduras, especiarias, couro, cacau e folhas secas. A legislação determina longo período de amadurecimento antes da comercialização, incluindo passagem obrigatória por madeira na versão Secco. Em condições adequadas, dez a vinte anos são uma expectativa perfeitamente plausível para bons exemplares, podendo os melhores ultrapassar essa marca. É vinho para pratos igualmente intensos: cordeiro assado, javali, carnes de caça, guisados, trufas negras e queijos muito curados.No Vêneto, a história é diferente. A longevidade do Amarone della Valpolicella nasce menos de uma estrutura tânica comparável à do Nebbiolo ou do Sagrantino e mais da combinação entre Corvina e outras castas autorizadas, concentração resultante do appassimento, álcool, acidez e amadurecimento em madeira. As uvas permanecem nos fruttai durante cerca de cem a 120 dias, concentrando açúcares e polifenóis antes da vinificação. O Consorzio della Valpolicella considera o Amarone capaz de conservar-se e evoluir durante décadas. Bons Amarones podem ser guardados por quinze a vinte anos ou mais, sobretudo quando provenientes de grandes produtores e safras equilibradas. Sua vocação gastronômica está nos sabores intensos: brasatos, carnes de caça, assados, carnes grelhadas e queijos de longa maturação.Comparando as cinco regiões, pode-se dizer que Piemonte e Toscana oferecem a combinação mais clássica entre acidez, tanino e longevidade; a Umbria apresenta talvez a maior força tânica; a Lombardia, especialmente a Valtellina, privilegia a elegância alpina e a acidez dos seus Nebbiolos; e o Vêneto oferece uma longevidade de natureza distinta, sustentada pela concentração do apassimento, pelo álcool, pela acidez e pela maturação. Como referência genérica, um bom Valtellina Superiore pode pensar-se na faixa de 10 a 20 anos; Sforzato, 15 a 25; Barolo e Barbaresco, 15 a 30 ou mais; Chianti Classico de alta qualidade, 10 a 20; Brunello, 15 a 30 ou mais; Sagrantino, 10 a 25; e Amarone, 15 a 25 ou mais. São, naturalmente, estimativas: uma safra medíocre, um produtor pouco cuidadoso ou uma garrafa mal armazenada podem reduzir drasticamente esses horizontes. E é justamente aí que começa a responsabilidade do apreciador. Uma garrafa italiana antiga não deve ser tratada como um vinho jovem. O armazenamento ideal exige temperatura estável, ausência de luz, vibrações mínimas e umidade adequada; garrafas fechadas com rolha de cortiça devem permanecer deitadas, para preservar a vedação. Na abertura, a prudência é essencial. Vinhos muito velhos podem desintegrar-se rapidamente quando submetidos a oxigenação excessiva. Por isso, nem sempre a decantação vigorosa é recomendável. Deve-se retirar a cápsula cuidadosamente, examinar a rolha e utilizar um saca-rolhas apropriado, sobretudo quando ela já demonstra fragilidade. Depois, o vinho deve ser provado antes de decidir se necessita de decantação. O Brunello di Montalcino, por exemplo, recomenda para garrafas muito envelhecidas a decantação em cristal, tanto para oxigenar como para preservar a pureza do vinho.Abrir um grande tinto italiano antigo é, portanto, menos um ato de consumo do que uma forma de arqueologia sensorial. O vinho não nos oferece apenas aquilo que a uva e o terroir produziram numa determinada safra; oferece também o testemunho dos anos que atravessou. E, diante de uma garrafa de Barolo, Brunello, Sagrantino, Sforzato ou Amarone que sobreviveu décadas em boas condições, talvez a maior virtude do apreciador seja justamente a paciência: abrir sem pressa, servir com delicadeza e permitir que o tempo, finalmente, conte a sua própria história. Salut!