O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a dizer, em uma reunião de campanha na noite dessa quarta-feira (19/8), que o filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, terá de prestar esclarecimentos sobre as investigações da Polícia Federal. O encontro avançou até o início da madrugada desta quinta (20/8) e teve como pauta principal a disputa eleitoral em São Paulo.O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que atua na defesa de Lulinha e também coordena a campanha de Lula no estado, participou da reunião ao lado do ex-ministro da Fazenda e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, e de outros integrantes da campanha. Carvalho é um dos fundadores do grupo Prerrogativas.Segundo interlocutores, o caso de Lulinha não estava na pauta inicial e entrou na conversa, por iniciativa de Carvalho, em meio às discussões sobre o cenário eleitoral em São Paulo e as próximas agendas do presidente.O assunto foi tratado de forma breve. A conversa não avançou sobre medidas jurídicas nem sobre a estratégia da defesa nos inquéritos.Ao Metrópoles, Marco Aurélio de Carvalho afirmou que o tema foi tratado de “forma lateral” e que nada específico sobre a defesa de Lulinha foi discutido.“Essa não era a ideia. O presidente não fala sobre isso comigo, e eu tenho sigilo profissional e também não pretendo falar com ele sobre isso. Vou fazer a defesa do Fábio de uma forma bastante transparente, muito clara. Interessa ao Fábio, mais do que a qualquer outra pessoa, o esclarecimento de toda e qualquer dúvida que, porventura, possa ter surgido em razão da atividade pessoal e profissional”, disse.No encontro, Lula repetiu que o filho terá de prestar esclarecimentos sempre que for chamado pela PF ou por outras autoridades. O presidente também reforçou que não pretende interferir nas apurações nem dar tratamento especial a Lulinha.Segundo interlocutores, Carvalho concordou que Fábio Luís deve responder aos questionamentos, mas afirmou que também não aceitará que ele seja tratado de forma diferente por ser filho do presidente.O advogado disse à reportagem que reiterou a Lula que Lulinha prestará os esclarecimentos necessários e defendeu que ele receba o mesmo tratamento dado a qualquer outro investigado. Leia também BrasilLula tem encontro com advogado de Lulinha no Palácio da Alvorada BrasilNegona do Bolsonaro e Lula do Bem: candidatos adotam nome dos líderes políticos na urna MundoJavier Milei compara Lula e líderes de esquerda a “trem-fantasma” Minas GeraisLula faz comício no Centro de BH na noite desta sexta (21/8) VazamentosCarvalho também reclamou de vazamentos de informações dos inquéritos. A defesa de Lulinha considera que dados das investigações vêm sendo divulgados de forma seletiva por setores da Polícia Federal e atribui a prática a interesses políticos e eleitorais.O advogado, no entanto, não direcionou as críticas ao comando da corporação. Ele manifestou confiança no diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e avaliou que o próprio chefe da instituição também vem sendo prejudicado pelos vazamentos.“Ele não quer que ninguém seja tratado como se estivesse acima da lei. Mas eu disse a ele, entretanto, que não gostaria que o Fábio, ou qualquer cidadão, fosse tratado como se estivesse abaixo dela, e que eu vou fazer o meu trabalho como advogado”, afirmou Carvalho.Lula manteve a posição de que as instituições devem atuar com independência e que pessoas investigadas precisam apresentar suas explicações.A postura é a mesma adotada publicamente pelo presidente nos últimos dias. Na sexta-feira (14/8), Lula afirmou acreditar na versão apresentada pelo filho, mas disse que não pretende agir para interromper as investigações.“Ele jura que não tem nada. Eu acredito nele. Mas já disse: ninguém vai pedir fechamento de processo do meu filho”, declarou. O presidente acrescentou: “Só ele sabe a verdade. Se não fez, como jura, brigue. Se é culpado, contrate advogado. Eu estou muito tranquilo”.O que a PF investigaLulinha é alvo de ao menos três inquéritos autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a pedido da Polícia Federal.Um deles apura suspeitas de tráfico de influência e corrupção em negociações envolvendo o Ministério da Saúde. Outro investiga possível favorecimento a empresários na Dataprev. O terceiro apura a atuação de um grupo suspeito de manter negócios ilícitos em áreas do governo federal.A coluna Tácio Lorran, do Metrópoles, revelou mensagens atribuídas a Lulinha e à lobista Roberta Luchsinger, investigada por suspeita de tráfico de influência. Os diálogos tratam de negócios, reuniões e contatos com integrantes do governo.A PF também identificou repasses de R$ 1,5 milhão feitos pelo empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, a Roberta.Em uma das transferências, segundo a investigação, o empresário afirmou a um interlocutor que o dinheiro seria destinado ao “filho do rapaz”. A PF apura se a expressão era uma referência a Lulinha.A defesa nega irregularidades. Os advogados afirmam que Lulinha atua exclusivamente na iniciativa privada, não mantém negócios ligados ao governo federal e que as quebras de sigilo bancário e fiscal não apresentaram provas de práticas ilegais. Leia também BrasilLula tem encontro com advogado de Lulinha no Palácio da Alvorada BrasilNegona do Bolsonaro e Lula do Bem: candidatos adotam nome dos líderes políticos na urna MundoJavier Milei compara Lula e líderes de esquerda a “trem-fantasma” Minas GeraisLula faz comício no Centro de BH na noite desta sexta (21/8) Caso MarcolaO caso de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, não foi discutido especificamente na reunião dessa quarta-feira.Segundo interlocutores, porém, Lula mantém uma orientação geral para pessoas próximas ao governo: quem for chamado pelas autoridades deve prestar esclarecimentos e apresentar sua defesa.Carvalho disse que o presidente adota essa posição tanto em relação ao filho quanto a antigos colaboradores.“Não falamos sobre o Marcola, evidentemente, mas a orientação dele, geral e abstrata, para todo e qualquer colaborador é que as pessoas se expliquem, porque ninguém está acima da lei”, afirmou.Marcola deixou recentemente a campanha petista após a revelação de que recebeu R$ 249 mil de Roberta Luchsinger. Ele confirmou o recebimento, mas afirmou que o valor era um empréstimo para resolver uma questão familiar e que posteriormente quitou a dívida, com juros e correção.A coluna Tácio Lorran também revelou diálogos entre Roberta e Marcola sobre joias. A PF suspeita que a lobista tenha comprado presentes e pago despesas do então assessor para manter acesso e influência no núcleo do governo.Interlocutores da defesa de Marcola afirmaram à coluna que as joias custaram R$ 9,2 mil e faziam parte do empréstimo de R$ 249 mil, posteriormente quitado.Na segunda-feira (17/8), o presidente do PT, Edinho Silva, também afirmou que Lula defende a investigação das suspeitas que envolvem tanto Lulinha quanto Marcola.“Ele já disse isso: se envolvem o Fábio, ele quer que essas denúncias sejam investigadas, da mesma forma que ele quer que as denúncias que envolvem o Marcola também sejam investigadas”, disse.Campanha em São PauloA maior parte da reunião dessa quarta-feira foi dedicada à campanha presidencial em São Paulo.Lula, Haddad, Carvalho e outros integrantes da campanha fizeram um balanço dos primeiros dias da disputa e discutiram as próximas agendas no estado.Segundo interlocutores, Lula demonstrou otimismo com o cenário eleitoral em São Paulo e afirmou que pretende priorizar o estado nas próximas semanas, sem deixar de cumprir compromissos em outras regiões do país.O grupo também avaliou positivamente o ato realizado na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, e começou a definir os próximos compromissos do presidente em território paulista.Carvalho foi escolhido para coordenar a campanha de Lula no estado e passou a acumular a função política com a defesa de Lulinha.