O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), divulgado na última semana pelo Ministério da Educação (MEC), classificou o ensino médio de Goiás como um dos melhores do país. Das 20 escolas com melhor desempenho, 10 estão situadas no estado. Além disso, cinco destas estão localizadas no município de Formosa (GO), a cerca de uma hora do Distrito Federal.No entanto, a média destes colégios no Enem — principal exame do país que permite o ingresso de estudantes na graduação — está abaixo do esperado. Na prática, a terceira melhor instituição do país, o Colégio Estadual Doutor José Balduíno de Souza Décio, localizado em Formosa (GO), ocupa a posição 8.268º em um ranking que avalia a nota média das escolas no Enem.Já o Colégio Estadual de Educação do Campo Arthur Ribeiro de Magalhães Filho, do mesmo município, posicionado como o nono melhor do Brasil, está em 13.118º lugar no ranking do Exame.Veja abaixo a classificação de cada escola, segundo Ideb, e a nota no Enem:O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é a principal porta de entrada para o ensino superior. Os estudantes podem usar a nota — que soma 1.000 pontos — para tentar uma vaga em uma instituição pública ou privada. O resultado do exame também permite concorrer a bolsas de descontos em faculdades particulares.No entanto, nenhuma das escolas mais bem posicionadas no Goiás atingiu a marca dos 600 pontos na prova. A que chegou mais próximo foi Colégio Estadual da Polícia Militar de Goiás Madre Germana, localizado em Aparecida de Goiânia (GO), com 576 pontos. Essa é a sexta melhor escola do Brasil, segundo ranking do Ideb.Já o com a menor nota foi o Colégio Estadual de Educação do Campo Arthur Ribeiro de Magalhães Filho, localizado em Formosa (GO), com 432, 33 pontos. O padrão de “nota alta no Ideb, nota baixa no Enem“, no entanto, não se aplica aos outros estados da lista, com exceção de Alagoas e Ceará. Leia também Distrito FederalEnsino médio do DF é um dos piores do país; Goiás está entre melhores Distrito FederalPrograma da rede pública do DF oferece aulas preparatórias para o Enem Distrito FederalProjeto de alunos da UnB oferece cursinho gratuito para o Enem Por exemplo, considerada melhor do país, a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), situada em Barbacena (MG), atingiu a média de 704,26 pontos e, com isso, ocupou a posição 107º no Enem — no ranking que leva em conta tanto escolas públicas quanto privadas. Já o Colégio de Aplicação da UFV (Coluni), considerado o 16º do país, recebeu a melhor nota no Enem no ranking que considera apenas escolas públicas, com 728 pontos. Na colocação geral, ele ficou na posição 39º.A professora Catarina de Almeida Santos, do Departamento de Planejamento e Administração da Universidade de Brasília (UnB), explicou que um Ideb elevado não significa, necessariamente, que os estudantes estejam aprendendo mais. Segundo ela, como o conteúdo cobrado nas provas de português e matemática é relativamente previsível de uma edição para outra, redes de ensino e escolas passaram a desenvolver estratégias para melhorar o desempenho no indicador, sem que isso represente, necessariamente, um avanço equivalente na aprendizagem.“Os estados e os sistemas de ensino aprenderam a lidar com essa lógica e passaram a preparar os estudantes especificamente para apresentar bons resultados nas avaliações. Isso pode incluir, por exemplo, retirar das provas ou até da própria escola os alunos que apresentam desempenho mais baixo. Nós vimos o estado de Goiás encaminhar para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) adolescentes, quase crianças, que estavam em situação de distorção entre idade e série e que apresentavam os piores desempenhos. Então, os sistemas de ensino foram aprendendo a criar estratégias para produzir índices melhores.”O problema dessa “produção” é que ela não representa uma melhor qualidade de ensino, e isso reflete diretamente no resultado do Enem, que é mais denso e exige de fato que o estudante tenha determinados conhecimentos.“Se dá para fazer uma comparação entre o Ideb e o Enem é para mostrar como que os índices do Ideb alto não traduzem processo de aprendizado. Porque no Enem, o aluno precisa saber interpretar, saber ler. As questões do Enem são questões que exigem que os alunos possam refletir, compreender e analisar”, pontuou Catarina de Almeida.A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Educação do Goiás, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto para eventuais manifestações.3 imagensFechar modal.1 de 3Escolas em Formosa são estão entre melhores do paísLUIS NOVA / METRÓPOLES2 de 3Das 20 melhores escolas de ensino médio do país, dez estão localizadas em GoiásLUIS NOVA / METRÓPOLES3 de 3Umas das melhores escolas do país, segundo Ideb, está em Formosa (GO)LUIS NOVA / METRÓPOLESEnsino utilitaristaO Metrópoles foi até o município de Formosa (GO), localizado a cerca de uma hora da capital federal, conhecer as cinco melhores escolas do país. A reportagem conversou com uma professora de uma das redes, que informou que apesar dos incentivos, os alunos, em geral, preferem terminar a educação básica e ir direto para o mercado de trabalho. Por isso o Enem fica em segundo plano.“Eu acredito que em relação ao Enem é mais esse comprometimento mesmo com o pós-escola, né? É o acadêmico para eles, como a escola é uma escola de tecnologia de informática, a gente tem essa essa modulação, eles já estão se preparando para o mercado de trabalho. Então, pode ser isso também, né. Eles veem o Enem como algo mais distante, mas a escola em si, o pedagógico, super incentiva”.O contraponto é que olhar para a questão da educação exclusivamente de uma perspectiva utilitarista enfraquece a educação do país como um todo, apontou a professora Catarina Almeida. O ensino superior, apesar de ser um ensino profissionalizante, não é resumido a isso.“O processo educativo, além de profissionalizar, é muito mais do que isso. E, quando se coloca a escola e a universidade nesse lugar utilitarista, eu não estou oferecendo perspectivas de mundo. Se as pessoas estão sem condições de trabalhar ou de estudar sem trabalhar, não podemos simplesmente deixar a escola de lado e priorizar a questão do trabalho. E, obviamente, isso é um engodo, porque, se está difícil conseguir trabalho para quem tem formação, para quem não tem é muito pior ainda.”Saiba datas do Enem 2026A edição deste ano será realizada no segundo domingo de novembro, no dia 8/11 e a segunda no dia 15/11. A prova é dividida em quatro áreas do conhecimento, com 45 questões cada, totalizando 180:Ciência da natureza e suas tecnologias (física, química e biologia);Ciência humanas e suas tecnologias (história, geografia e sociologia);Linguagens, códigos e suas tecnologias (português, literatura, língua estrangeira);Matemática e suas tecnologias (matemática, geometria, álgebra).