C&A aposta em tecnologia e circularidade na moda

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A moda atravessa um momento de transformação em que inovação e sustentabilidade começam a se encontrar. Enquanto a inteligência artificial acelera processos de criação, análise de dados e tomada de decisões, a pressão por uma cadeia menos impactante coloca em xeque modelos baseados em grandes volumes de produção e pouca visibilidade sobre a origem dos materiais. O desafio é fazer com que novas ferramentas não apenas tornem a indústria mais eficiente, mas também ajudem a produzir melhor e, em alguns casos, menos. Essa discussão esteve no centro de dois paineis realizados em 12 de agosto, durante a primeira edição do SP2B, festival de inovação e empreendedorismo realizado no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Com participação da C&A, que completa 50 anos no Brasil neste mês, os encontros reuniram representantes de diferentes setores da cadeia da moda para discutir como as empresas estão respondendo a um cenário de mudanças rápidas. No debate “Uma Batalha Após a Outra, o futuro da moda à brasileira”, Camila Gadioli, Head Comercial da C&A, Carolina Galvão, da Grendene, e Newton Coelho, da Santista Têxtil, falaram sobre os desafios de incorporar novas tecnologias sem transformar a inovação em um fim em si mesma. A jornalista Maria Prata, que mediou a conversa, resumiu a dificuldade de antecipar os próximos passos do setor: “Se alguém disser que sabe para onde a gente está indo, está mentindo”. Para Camila, a velocidade com que novas ferramentas chegam ao mercado pode gerar mais ansiedade do que respostas. Em vez de aderir a cada novidade, diz ela, o desafio é entender onde a tecnologia de fato pode gerar valor para o negócio. “A cada mês surge uma nova, criando um certo nível de ansiedade. Um dos principais aprendizados é que ela deve estar integrada ao negócio.” Na C&A, essa premissa tem orientado o uso da inteligência artificial em diferentes etapas da operação, da criação ao planejamento do sortimento. Uma delas é o AI Fashion Design, ferramenta utilizada para apoiar designers na pesquisa e na criação, ampliando repertórios e dando velocidade ao desenvolvimento das peças sem substituir o olhar humano. A empresa também trabalha com a lógica de test and learn: produtos são lançados inicialmente em menor escala e, de acordo com a resposta dos consumidores, podem ganhar distribuição mais ampla. O chamado sortimento dinâmico segue princípio semelhante, buscando adequar a oferta à demanda de cada região. Foto: Divulgação | Comunicação SP2BA estratégia tem um efeito que vai além da eficiência comercial. Ao entender melhor o que o consumidor procura e onde essa demanda está, a empresa pode reduzir a produção de itens que não encontram mercado. Em uma indústria historicamente associada ao excesso de oferta e ao desperdício, usar dados para decidir quanto, onde e quando produzir passa a ser também uma ferramenta de redução de impactos. A experiência de outras empresas mostra, porém, que a transformação depende menos da simples adoção de ferramentas do que da capacidade de incorporá-las à cultura das organizações. Carolina Galvão contou que a Grendene passou a trabalhar com diferentes sistemas de inteligência artificial e precisou preparar as equipes para essa mudança. Na Santista, Newton Coelho relatou a construção de um mapa para identificar o estágio atual da empresa e definir os próximos passos, com apoio de uma consultoria. “Um projeto de tecnologia é de todas as áreas, todas têm de estar envolvidas”, afirmou. A frase ajuda a explicar outro aspecto da transformação: embora os dados ampliem a capacidade de prever comportamentos, eles não eliminam a necessidade de interpretação. A inteligência artificial identifica padrões a partir do histórico, mas não antecipa sozinha mudanças inesperadas no mercado ou no comportamento do consumidor. Nesse cenário, o repertório humano continua sendo decisivo. Para Camila, uma das habilidades mais importantes é justamente saber formular as perguntas certas. “Você precisa saber fazer boas perguntas para endereçar um problema que você quer resolver.”  Leia também: 1.Trama Afetiva promove moda regenerativa com upcycling 2.Dia das Crianças: moda infantil pode ser mais sustentável e confortável De onde vem a roupa?Se no primeiro painel a tecnologia apareceu como instrumento para tornar a operação mais precisa, no segundo a discussão avançou para uma questão mais ampla: o que acontece ao longo da cadeia até uma peça chegar às lojas e depois que ela deixa de ser usada? No painel “The Good Hacker, o futuro da sustentabilidade na moda”, Cyntia Kasai, gerente sênior de ASG e Comunicação da C&A, Taciana Abreu, da Riachuelo, Artur Lemos, do Grupo Soma, e André Salém, da Blockforce, discutiram como dados, rastreabilidade e novas ferramentas podem ajudar a enfrentar os impactos ambientais da indústria. A conversa foi mediada por arquiteta, designer e pesquisadora Rita Wu.A C&A lançou sua primeira coleção rastreável em 2023 e identificou que o algodão utilizado nas peças vinha de 17 fazendas. O desafio seguinte é transformar esse volume de informação técnica em algo compreensível para quem compra. A empresa já testou QR Codes nas etiquetas, comunicação nas lojas e conteúdos no site, mas considera que ainda há um caminho a percorrer. A complexidade aumenta quando se olha para os próprios materiais. Grande parte da indústria utiliza poliéster, um material plástico derivado de combustível fóssil. Saber a origem das matérias-primas, portanto, não é apenas uma questão de transparência. Os dados podem ajudar as empresas a compararem fornecedores, avaliarem impactos e tomarem decisões diferentes sobre o que e como produzir. Foto: Divulgação | Comunicação SP2BPara André Salém, organizar essas informações é uma etapa fundamental. “Não fazemos mais nada sem dado. Somos orquestradores deles. Varremos a base que temos e contamos uma história daquilo.” O blockchain, segundo ele, pode ajudar a definir quais informações devem permanecer restritas e quais podem ser disponibilizadas ao público. A combinação entre essas ferramentas está entre os próximos passos da C&A. “Nossa intenção é rastreabilidade com IA. Eu sei de onde vem e do impacto que vai gerar, com essa combinação tomamos a melhor decisão”, afirmou Cyntia. A proposta é fazer com que a informação deixe de ser apenas um registro da cadeia e passe a integrar diretamente as decisões de negócio. Quando a mudança ganha escalaPara os participantes, a regulamentação também pode acelerar esse processo. Artur Lemos observou que a rastreabilidade já pode funcionar como argumento comercial, mas regras mais rígidas tendem a criar condições para que as mudanças alcancem uma escala maior. Ele citou movimentos nos Estados Unidos e na Europa relacionados ao descarte de resíduos. No Brasil, segundo Cyntia, ainda não há uma regulamentação em vigor que estabeleça esse mesmo nível de exigência para o setor. Mesmo assim, as empresas já começam a se movimentar. “Quando a gente ganha força, toda tecnologia torna-se mais viável.” Para ela, políticas públicas, incentivos e uma atuação coordenada com o governo poderiam reduzir custos e ampliar a capacidade de implementação. Um dos principais desafios, hoje, é justamente levar essas soluções a toda a cadeia e preparar os parceiros para acompanhar a transformação.A pressão também pode vir do consumidor. À medida que cresce o interesse por informações sobre origem, materiais e impactos, as escolhas de quem compra podem influenciar as decisões das empresas. “O papel do consumidor final é fundamental nessa mudança”, afirmou Cyntia. A expectativa é de que, no futuro, os dados ambientais tenham peso semelhante a preço e disponibilidade na escolha de fornecedores e matérias-primas. “Essa tomada de decisão pela origem do produto, pelo fornecedor, ela não deveria ser só uma decisão por custo ou disponibilidade, mas também deveria ser uma tomada de decisão por conta de impacto ambiental”, disse. Leia também: 1.Moda sustentável em brechó gera renda para projetos sociais 2.Biotecido é alternativa mais limpa para indústria da moda Na C&A, uma das iniciativas apresentadas para reduzir excedentes é a chamada “loja energia”, desenvolvida nos últimos três anos a partir da metodologia test and learn. Tendências são identificadas com apoio de tecnologia, os produtos começam em volumes menores e são distribuídos de maneira direcionada. Só depois de confirmada a procura eles ganham escala. “A gente só escala em grandes volumes aquilo que realmente percebemos um interesse de demanda”, explicou Cyntia. A lógica aproxima produção e consumo e busca evitar que grandes quantidades de peças sejam fabricadas sem uma demanda correspondente. A circularidade entra em cena em outra frente. Criado há nove anos, o Movimento ReCiclo já recebeu 460 mil peças. Durante o SP2B, uma urna instalada no Jardim do Auditório recebeu jeans que o público não utilizava mais. As roupas, que podem ser coletadas nas lojas, são destinadas à doação, à reciclagem ou ao reaproveitamento. No evento, a companhia também apresentou a linha Jeans Circular, desenvolvida com fibras recuperadas, e levou para o lounge da marca uma cenografia feita com denim reciclado e mobiliário produzido a partir de retalhos de jeans. No caso do ReCiclo, a circularidade não termina na coleta. A própria C&A utiliza os caminhões que abastecem as lojas para transportar de volta as peças recolhidas até o centro de distribuição, onde elas são triadas. Os jeans seguem para a Retalhar, parceira responsável pela reciclagem do material, enquanto as peças em boas condições são destinadas ao Instituto C&A para a realização de bazares sociais. Foto: Divulgação | C&ADa inteligência artificial usada no desenvolvimento de uma peça ao destino dado a ela depois do uso, as iniciativas apresentadas no SP2B apontam para uma mudança de lógica na indústria. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta para acelerar processos e passa a ser também uma forma de enxergar melhor a cadeia, ajustar a produção à demanda e conectar etapas que antes funcionavam de maneira mais isolada. O desafio, agora, é fazer com que essas experiências cresçam e se traduzam em mudanças estruturais no setor. The post C&A aposta em tecnologia e circularidade na moda appeared first on CicloVivo.