A inteligência artificial deixou de atuar apenas como ferramenta de apoio e passou a ocupar posições antes reservadas às pessoas em processos de trabalho, estudos, atendimento e relacionamentos. Em muitos casos, sistemas automatizados já produzem mensagens, avaliam conteúdos e tomam decisões em nome de seus usuários.O movimento cria uma nova dinâmica: em vez de uma pessoa conversar diretamente com outra, dois sistemas podem assumir os lados de uma mesma interação. Pesquisadores e especialistas citados pelo The New York Times alertam que esse ciclo pode reproduzir erros, reforçar limitações compartilhadas pelos modelos e reduzir o espaço destinado à imprevisibilidade das relações humanas.O fenômeno, descrito na reportagem como um possível “bot loop”, tende a ganhar força à medida que agentes digitais passam a executar tarefas cada vez mais complexas. A perspectiva é de que contatos entre máquinas se tornem mais frequentes no trabalho, na educação, no atendimento ao consumidor e até na vida afetiva.Quando a inteligência artificial passa a conversar por nósAgente de IA – Imagem: Koupei Studio / ShutterstockUm exemplo dessa transformação aparece no mercado de trabalho. Christian Vinson, de 30 anos, utilizou dois chatbots para organizar informações sobre sua trajetória profissional e adaptar cartas de apresentação a centenas de oportunidades. O candidato empregou a tecnologia para disputar vagas em um ambiente no qual empresas também recorrem a sistemas automatizados para selecionar currículos. Ele acabou contratado por um banco de investimentos em Nova York.A situação resume uma mudança mais ampla. A mesma tecnologia pode participar tanto da produção quanto da avaliação de um conteúdo, criando uma espécie de circuito fechado entre sistemas artificiais. Na educação, estudantes recorrem a chatbots para elaborar trabalhos enquanto professores e instituições utilizam ferramentas de inteligência artificial para analisá-los.O mesmo padrão aparece na comunicação profissional. Funcionários enviam textos produzidos por sistemas automatizados, e os destinatários podem responder utilizando ferramentas semelhantes. A conversa permanece formalmente entre pessoas, mas uma parcela crescente de sua elaboração é transferida para máquinas.A expansão também alcança conteúdos de entretenimento e informação. A reportagem cita podcasts nos quais apresentadores artificiais conversam com convidados artificiais e observa que empresas de tecnologia já exploram ambientes nos quais agentes de inteligência artificial podem interagir diretamente entre si.Esse cenário se aproxima da chamada teoria da internet morta, segundo a qual uma parcela cada vez maior do tráfego digital seria produzida por softwares. O novo fenômeno apontado pela reportagem é mais específico: ocorre quando os humanos deixam de participar diretamente das duas pontas de uma interação e passam a funcionar como responsáveis por colocar os sistemas em contato.A tendência pode aparecer até em situações corriqueiras. Diante de um problema doméstico, por exemplo, uma pessoa poderia delegar a um assistente digital a tarefa de procurar profissionais, comparar condições e entrar em contato com eles. Do outro lado, os prestadores de serviço também poderiam utilizar agentes automatizados para administrar as solicitações recebidas.Jiaxin Pei, professora assistente da Escola de Informação da Universidade do Texas em Austin, identifica nesse processo uma espécie de circuito que pode se prolongar indefinidamente. A preocupação está no fato de que, à medida que os dois lados passam a utilizar agentes digitais, a comunicação pode deixar de exigir participação humana direta.A substituição também começa a atingir a representação pessoal. Justin Lester, pastor da Califórnia, treinou um agente de inteligência artificial para atender fiéis quando não está disponível. A reportagem considera que o passo seguinte pode envolver agentes digitais representando simultaneamente as pessoas dos dois lados de uma conversa ou reunião.Executivos também já utilizam avatares alimentados por inteligência artificial para participar de encontros com funcionários. A possibilidade levantada no texto é que, no futuro, os próprios empregados recorram a representações digitais para essas mesmas reuniões.O problema dos erros que se multiplicam(Créditos: Phanphen Kaewwannarat / iStock)A automação da comunicação não elimina os problemas dos sistemas de inteligência artificial. Ao contrário, quando uma ferramenta entrega informações a outra, uma falha inicial pode atravessar várias etapas sem ser percebida por uma pessoa.Soheil Feizi, professor associado de ciência da computação da Universidade de Maryland, chama atenção para um risco específico: sistemas semelhantes podem compartilhar as mesmas limitações. Quando um modelo comete um erro e outro sistema recebe aquela informação como se fosse correta, a falha pode ganhar força em vez de ser corrigida.Um estudo citado na reportagem sobre o uso de inteligência artificial em hospitais apresenta um cenário desse tipo. Uma ferramenta poderia analisar imagens de raios X, outra utilizar a avaliação para organizar os quartos e uma terceira definir a ordem de atendimento. Caso o primeiro sistema erre e não exista uma verificação humana, a informação incorreta poderá influenciar todas as decisões seguintes.Há ainda outro mecanismo de retroalimentação. Pesquisas mencionadas no texto indicam que sistemas de inteligência artificial podem demonstrar preferência por conteúdos produzidos por outras inteligências artificiais. Um estudo citado encontrou maior aprovação de currículos elaborados por máquinas por parte de sistemas automatizados de seleção.Esse comportamento pode produzir efeitos especialmente delicados em processos nos quais a própria inteligência artificial participa tanto da produção quanto da avaliação. A reportagem relaciona essa possibilidade ao uso de leitores automatizados em processos de admissão universitária, nos quais textos produzidos por estudantes podem ser avaliados por ferramentas semelhantes às que ajudaram a produzi-los.A perda da fricção humanaAlém dos erros técnicos, especialistas entrevistados pela reportagem apontam uma consequência menos mensurável: a possível transformação das expectativas sobre o que significa conversar com outra pessoa.Sarah Davis, antropóloga cultural e reitora do St. John’s College, em Santa Fe, no Novo México, considera que a fluidez das interações entre máquinas pode fazer com que as pessoas passem a rejeitar características inevitáveis dos relacionamentos humanos. Para ela, a convivência depende também de dificuldades, divergências e momentos de desconforto.A preocupação é que uma comunicação excessivamente previsível torne a interação humana menos atraente. Se sistemas artificiais conseguem oferecer respostas rápidas, organizadas e constantemente disponíveis, a tolerância às imperfeições das pessoas pode diminuir.A reportagem ressalta que a discussão não precisa necessariamente terminar em um cenário no qual máquinas assumirão completamente a comunicação. Uma possibilidade considerada mais provável é uma mudança gradual na proporção entre diferentes tipos de interação, com a participação humana direta ocupando uma parcela menor do cotidiano.Nesse futuro, conversar com uma pessoa poderia deixar de ser algo presumido e passar a ser um serviço diferenciado. O contato humano direto, hoje esperado em diversas situações, poderia adquirir um caráter de exclusividade, acessível principalmente a quem tivesse condições de pagar por ele.A ironia apontada pela reportagem está justamente aí. Os indivíduos que mais se beneficiarem economicamente da expansão da inteligência artificial poderiam ter recursos para comprar experiências humanas que se tornariam progressivamente mais raras para o restante da sociedade.O avanço dos agentes digitais, portanto, não representa apenas uma mudança na forma como ferramentas tecnológicas executam tarefas. Ele também pode alterar quem participa das conversas, quem toma decisões e quanto contato direto entre pessoas permanece em atividades que antes dependiam essencialmente de relações humanas.O post IA amplia conversas entre máquinas, mas pode tornar o contato humano mais raro apareceu primeiro em Olhar Digital.