O brasileiro sempre foi aberto à adoção de novas tecnologias e já utiliza a inteligência artificial (IA) para organizar as finanças, antecipar necessidades e automatizar tarefas. Mas definitivamente não quer deixar nas mãos da tecnologia a palavra final sobre o próprio dinheiro. Essa é a principal conclusão do estudo “A Interface Invisível”, da consultoria de inovação ilegra, que investigou como usuários de serviços financeiros lidam com o avanço da automação e do Open Finance.A pesquisa aponta para um consumidor interessado em conveniência, mas que estabelece uma fronteira clara sobre até onde a tecnologia pode atuar de forma autônoma. Além disso, os usuários exigem cada vez mais transparência, controle e capacidade de supervisão das decisões tomadas por sistemas automatizados.Leia também: Com o banco na palma da mão, 78% das operações financeiras já são feitas por celularSegundo o levantamento, 87% dos entrevistados querem serviços que ofereçam sugestões sobre o que fazer, mas preservem sua decisão final. Outros 76% confiam em pagamentos automáticos apenas em determinadas operações ou quando existem limites estabelecidos, enquanto 69% valorizam uma combinação entre tecnologia e atendimento humano.“Interface invisível”Trata-se de um paradoxo da digitalização financeira: o consumidor quer que a tecnologia atue cada vez mais nos bastidores, desde que consiga entender quem está tomando as decisões. O estudo chama esse processo de “interface invisível”.Em vez de abrir aplicativos, navegar por menus e executar manualmente cada operação, os sistemas passam a interpretar dados, hábitos e contexto para antecipar ações. Pagamentos podem ser realizados dentro de outras jornadas de consumo, crédito pode surgir no momento da compra e seguros podem ser incorporados automaticamente a produtos e serviços. IA, biometria, sensores e Open Finance são algumas das tecnologias que impulsionam essa transformação.A mudança já aparece na relação cotidiana com os bancos. Segundo dados reunidos pela ilegra junto à Febraban e a outras instituições do setor financeiro, as transações digitais representam 82% das operações bancárias brasileiras. O celular respondeu por 75% das 208,2 bilhões de transações realizadas em 2024.Entre os participantes da pesquisa, mais de 90% utilizam bancos digitais, seja de forma exclusiva ou combinada com instituições tradicionais, enquanto 48% acessam serviços financeiros diariamente.Sugestão de caminhosEssa digitalização abre uma nova disputa no sistema financeiro. Se durante anos os bancos concentraram esforços em permitir que os clientes realizassem operações pelo celular, a inteligência artificial começa a transformar a natureza dessa relação. Agora, as instituições buscam prever o que o consumidor pode precisar antes mesmo de ele solicitar.Alertas sobre gastos, recomendações de investimentos, metas de poupança, ofertas de crédito e sugestões para reorganização financeira são exemplos dos chamados nudges, pequenos estímulos destinados a influenciar escolhas sem retirar do consumidor a liberdade de decisão.A pesquisa mostra, porém, que os clientes traçam limites claros para essa autonomia. Quando perguntados sobre como preferem administrar suas finanças, 67% disseram querer receber sugestões, mas tomar a decisão por conta própria. Outros 20% aceitariam automatizar determinadas ações e acompanhá-las posteriormente. Apenas 13% preferem fazer tudo manualmente. Nenhum entrevistado afirmou estar disposto a delegar integralmente suas decisões financeiras a um sistema automatizado.Na visão de futuro apresentada pelo estudo, essa preferência fica ainda mais evidente: 78% desejam um banco que recomende ações, mas mantenha a decisão final nas mãos do cliente. Trata-se de uma espécie de “copiloto financeiro”, que utiliza IA e dados para organizar informações, identificar padrões e apresentar alternativas, sem substituir o consumidor.Leia também: A “revolução” que pode destravar R$ 11 trilhões em crédito para empresasOpen Finance amplia personalizaçãoO avanço do Open Finance amplia essa capacidade de personalização. Segundo o estudo, o ecossistema brasileiro já ultrapassou 62 milhões de consentimentos ativos. A integração de informações mantidas em diferentes instituições permite criar uma visão mais ampla sobre renda, gastos, compromissos financeiros e comportamento dos clientes.Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) citados pela ilegra mostram que 79% das instituições financeiras consideram o Open Finance um dos principais motores da personalização de produtos e serviços.Por outro lado, quanto mais automatizado o processo, maior é a exigência dos clientes por mecanismos de controle. A disposição para delegar tarefas varia de acordo com o risco percebido. Em pagamentos automáticos, 37% dos entrevistados disseram confiar na tecnologia quando existem limites estabelecidos, enquanto 39% confiam apenas em situações específicas. Apenas 4% rejeitam completamente esse tipo de automação.Quando entram em cena os dados pessoais, a cautela aumenta. Para o compartilhamento de informações com o objetivo de contratar seguros, por exemplo, 37% aceitariam a prática desde que houvesse limites claros, 31% apenas em situações pontuais e 17% não aceitariam compartilhar os dados.Segundo a ilegra, a questão central não é simplesmente confiar ou desconfiar da tecnologia. O consumidor estabelece diferentes níveis de autonomia para cada tipo de operação, de acordo com o impacto financeiro envolvido.Esse cenário pode se transformar em uma questão competitiva para bancos e fintechs. Mais do que desenvolver uma IA capaz de tomar boas decisões, será necessário explicar ao cliente por que determinada recomendação foi feita e permitir que ele defina os limites de atuação do sistema.“O desafio é que muitos sistemas ainda funcionam como caixas-pretas. Mas decisões relevantes precisam vir acompanhadas de explicações e mecanismos de confirmação”, afirma Julia Dietrich, analista sênior de Inteligência de Mercado e Estratégia da ilegra.Leia também: Open Finance muda regras e permite visualização de saldo na hora da transaçãoIA não elimina o fator humanoOutra conclusão do levantamento contraria a ideia de que a digitalização eliminará o atendimento humano do sistema financeiro. Para 69% dos participantes, o melhor modelo combina tecnologia e interação com pessoas. Essa percepção aparece com força especialmente no caso das cooperativas de crédito, cuja presença física ainda funciona como complemento aos canais digitais.Nesse contexto, a IA tende a absorver tarefas mais mecânicas, como análise de dados e avaliações preliminares de crédito, enquanto profissionais humanos passam a atuar em situações nas quais relacionamento, negociação e orientação são fundamentais.“Essa combinação pode ser especialmente relevante em decisões de maior impacto financeiro. Uma transferência recorrente de pequeno valor é diferente da contratação de um empréstimo, da escolha de um investimento ou da aquisição de um seguro”, destaca o estudo.Limites da automação nos segurosOs limites também aparecem no setor de seguros. Apesar do avanço dos chamados seguros embarcados, integrados à compra de outros produtos e serviços, 67% dos entrevistados preferem contratar proteção apenas quando identificam essa necessidade.Outros 22% aceitariam que um seguro previamente escolhido fosse acionado automaticamente. Apenas 6% concordariam com sua inclusão automática sem qualquer decisão anterior.Ao mesmo tempo, 83% demonstram algum grau de disposição para compartilhar informações com seguradoras, indicando que a resistência não está necessariamente no uso dos dados, mas nas condições em que eles serão utilizados.A próxima fronteira dos pagamentosNos meios de pagamento, a transformação pode ser ainda mais profunda. O estudo aponta o avanço do chamado comércio agêntico, modelo em que sistemas de IA administram carteiras digitais e podem realizar compras de forma autônoma.Em uma experiência totalmente integrada, bastará que o consumidor selecione um produto e saia da loja para concluir a compra, enquanto autenticação, identificação e pagamento ocorrerão nos bastidores.Segundo a ilegra, a tecnologia necessária para esse tipo de experiência já existe. A principal barreira é comportamental. Mesmo diante dessa possibilidade, 78% dos entrevistados preferem receber recomendações, mas tomar pessoalmente as decisões.A discussão ganha relevância porque a eliminação das etapas visíveis do pagamento pode alterar o comportamento de consumo. Quanto menos perceptível for a transação, menor tende a ser a barreira psicológica associada ao ato de gastar, o que pode pressionar ainda mais o orçamento das famílias em um cenário de elevado endividamento.Tudo sob controleA fotografia traçada pela ilegra sugere que o próximo estágio da digitalização financeira não será necessariamente o da automação total. Entre um sistema que exige confirmação para todas as operações e outro que movimenta recursos sem qualquer intervenção do cliente, ganha força um modelo intermediário.Nele, o usuário define previamente objetivos, permissões e limites, enquanto a tecnologia executa tarefas dentro dessas fronteiras. O estudo chama esse cenário de “flexibilidade híbrida”, com níveis de automação que variam conforme o serviço, a situação e as preferências de cada consumidor.Para a consultoria, esse é o caminho mais provável para a evolução dos serviços financeiros nos próximos anos.O estudo “A Interface Invisível” foi elaborado a partir de pesquisa com 54 usuários ativos de interfaces financeiras no Brasil. Entre os participantes, 94% utilizam serviços financeiros digitais diariamente ou pelo menos algumas vezes por semana. O trabalho também incorpora análises setoriais produzidas por instituições como Febraban, Banco Central, Deloitte, Capgemini e PwC.The post Brasileiro quer IA nas finanças, mas não abre mão da decisão final, mostra estudo appeared first on InfoMoney.